O silêncio sobre o zika oprime as mulheres, por Debora Diniz e Giselle Carino

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Em 2018, 1.657 recém-nascidos foram notificados como em risco para os efeitos do zika no Brasil. As mães são mulheres pobres, que vivem na região mais vulnerável do país e cujas dores não são estampadas nos jornais

(El País, 04/05/2019 – acesse no site de origem)

Não se fala mais em Zika. A palavra “epidemia” é incorreta para descrever os novos casos de recém-nascidos afetados pelo vírus, segundo os epidemiologistas —não vivemos mais um surto, os números caem a cada ano. Desde novembro de 2016, não há mais situação de “emergência global” para a Organização Mundial de Saúde: sabemos que o vírus Zika na gravidez pode causar a síndrome congênita nos fetos, mais conhecida pelo sinal da microcefalia. Por razões complexas e algumas ainda inexplicáveis pela ciência, o vírus Zika foi uma ameaça global pelo risco de atravessar fronteiras, mas o epicentro de crianças afetadas e mulheres em risco é ainda a América Latina. Na região, dois países que compartilham fronteiras, Brasil e Venezuela, mostram como o silêncio é nocivo às mulheres.

Em 2018, foram 1.657 recém-nascidos notificados como em risco para os efeitos do Zika no Brasil. As mulheres são as mesmas do tempo em que a ciência falava em epidemia pelas estatísticas. Elas são pobres, vivem na região mais vulnerável do país e é um povo acostumado a não ter suas dores estampadas nos jornais. Para as mulheres afetadas ou em risco pelo Zika, epidemia é uma palavra que ainda existe, pois cuidam de seus filhos com múltiplas dependências ou temem contrair Zika na gravidez. Esperam há três anos que a suprema corte brasileira decida uma ação de proteção a direitos ameaçados pela chegada de Zika. A ação está agendada para 22 de maio próximo, mas não é inocente o silêncio que antecede o julgamento. Pouco se fala do risco de transmissão sexual do vírus, os repelentes desapareceram dos serviços de pré-natal. Falar da ação judicial é tocar em temas sensíveis à política bolsonarista, tais como saúde reprodutiva e políticas de assistência social.

Se no Brasil o silêncio desampara, na Venezuela, violenta. Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde, não há caso registrado de criança afetada pelo vírus Zika no país: enquanto o Brasil registra 17.041 casos de crianças em investigação e 3.975 confirmadas para a síndrome, a Venezuela tem zero. Não há explicação razoável para esse disparate entre países com fronteira climática, senão um decreto de silêncio sobre a vida das mulheres em uma situação humanitária que assola o país. Desde 2016, a Venezuela não publica boletins epidemiológicos de saúde pública —não há casos, porque não há transparência na saúde pública. Mas basta procurar em mídias sociais que as mulheres venezuelanas falam de seus filhos e buscam informação inexistente no país. Na ausência dos números, é preciso contar a história da epidemia a partir do testemunho das próprias mulheres.

Uma delas é Keyla, mãe de Josué, de dois anos. Keyla trabalhava como enfermeira quando engravidou e sentiu os sintomas de Zika. Não se falava do vírus no país, por isso o médico prescreveu remédios de alergia para aliviar os sintomas da infecção. Keyla soube da microcefalia de Josué no final da gestação e insistiu que fosse recolhido material para investigação do recém-nascido por um grupo de pesquisadores internacionais. Keyla tem a comprovação laboratorial de infecção por Zika e da transmissão vertical, mas sequer como estatística de saúde pública seu caso é notificado. O marido trabalha informalmente, a família vive em uma casa pobre no centro de Caracas. Quando perguntado sobre as expectativas de cuidado do filho, o marido de Keyla se resigna a dizer “as coisas estão difíceis, não sai do país por causa do meu filho. Fico triste em deixá-lo aqui”.

Bolsonaro fez de Maduro o espelho invertido de sua narrativa política: parte da agenda política para se eleger foi ameaçar que o Brasil seria uma nova Venezuela caso não houvesse mudança no poder. Zika nos mostra como os dois países abandonam as mulheres e suas necessidades de vida. São líderes populistas que as ignoram pelo silêncio da doença, instituições políticas que não enfrentam as consequências da epidemia, seja por políticas públicas ou garantia de direitos. O silêncio pode assumir diferentes formas para mover a opressão: se, no Brasil, é pela negligência, na Venezuela é pela violência. A história de Zika é parte da história política da América Latina em que as mulheres estão cada vez mais no centro da onda populista.

Debora Diniz é antropóloga brasileira, pesquisadora da University of Brown e da Universidade de Brasília.

Giselle Carino é cientista política argentina, diretora da International Planned Parenthood Federation/ Western Hemisphere.

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