Qual é o lugar do homem na contracepção?

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Responsabilidade sobre evitar gravidez indesejada ainda recai sobre as mulheres; enquanto quase 80% delas usam algum método contraceptivo, somente 31% deles dizem se prevenir

(O Globo, 02/05/2019 – acesse no site de origem)

Nenhuma mulher engravida sozinha, mas é assim, de forma solitária, que a maioria delas carrega a responsabilidade sobre a contracepção. São raros, destacam especialistas, os homens que buscam métodos para evitar gestações indesejadas — basicamente, camisinha e vasectomia. E os médicos alertam: essa cultura machista de depositar esse tipo de preocupação apenas sobre os ombros das mulheres já deveria ter sido superada.

Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o índice de mulheres em idade reprodutiva no Brasil que usam algum tipo de contraceptivo chega a 79%. Enquanto isso, o percentual de homens que fazem algo para se prevenir de gravidez indesejada é de apenas 31%, de acordo com uma pesquisa do departamento de ginecologia da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, juntamente com a farmacêutica Bayer, datada de 2017.

Nesse estudo da Unifesp, a principal justificativa dos homens para não se proteger foi de que usar camisinha “estraga a diversão”. Na visão de 16% deles, parar para colocar a camisinha atrapalha o momento de intimidade.

Este é um entendimento que vem de longa data e que, para a médica Isabela Henriques Rosa, permanece entre os homens mais jovens.

— É engano achar que, entre os mais jovens, predomina um pensamento mais esclarecido. A responsabilidade continua sendo da mulher — diz ela, que é ginecologista da equipe Clisam e do Hospital Santa Lúcia.

A percepção de que essa deve ser uma preocupação muito mais feminina do que masculina também é marcante na indústria farmacêutica mundial. Não é à toa que a pílula anticoncepcional feminina chegou ao mercado 60 anos antes de uma pílula masculina sequer ser desenvolvida. Atualmente, uma versão de contraceptivo oral para homens está em testes, mas ainda sem previsão de ser concluída e comercializada.

— A indústria farmacêutica aceitou essa crença (de que contracepção é “coisa de mulher”), então demorou muito para para investir em algo como uma pílula anticoncepcional masculina — afirma Isabela. — Não sabemos ainda se vai dar certo, porque não tem nada comparável hoje no mercado. Não sabemos nem ao certo qual tipo de formulação seria necessária para essa pílula funcionar. Mas o que dá para saber é que ela não geraria os riscos de trombose que a pílula feminina gera, porque esse risco está associado ao hormônio estrogênio, que não estaria presente em uma pílula para homens.

Por enquanto, o método mais acessível e eficaz para o homem se proteger de gestações indesejadas e infecções graves, como HIV/Aids, sífilis, gonorreia e alguns tipos de hepatites ainda é a camisinha. O item é distribuído gratuitamente em qualquer serviço público de saúde. Caso você não saiba onde retirá-los, ligue para o Disque Saúde (136).

Número de vasectomias é metade do de laqueaduras

A vasectomia — procedimento no qual o homem fica impedido de ter filhos — é muito mais simples do que a laqueadura — feita pela mulher. A primeira é realizada no próprio consultório, não dura mais do que meia hora, não mexe com os hormônios e o funcionamento do organismo masculino e ainda é passível de ser revertida, caso o paciente queira no futuro (a laqueadura é definitiva).

Isso parece contraditório com as estatísticas.

Segundo dados do Sistema Único de Saúde (SUS), o número de laqueaduras realizadas em 2018 no Brasil totalizou 67.056. A quantidade parece estável: um ano antes, em 2017, foram realizadas 67.525.

Por outro lado, o Brasil realizou apenas 34 mil vasectomias em 2017 — último anos com dados finais disponíveis no SUS. Isso é praticamente metade do número de laqueaduras no mesmo período.

— A mentalidade do nosso povo ainda é muito machista — resume o ginecologista e obstetra Ricardo Iannarella, coordenador da Medicina Fetal do Labs a+. — É muito raro que o homem vá a consultas com urologistas. Até em consulta de pré-natal, quando o casal está esperando um filho, é raro o marido ir. Em geral, vai a mãe, a amiga, a  irmã.

Ricardo diz que, quando o parceiro da mulher vai a alguma consulta com ela, o fato de ele ser um ginecologista homem ajuda na conversa. Mas ajuda pouco.

— Em geral, eu tenho que falar com a mulher sobre a possibilidade de uma vasectomia, para que ela repasse ao homem. Quando consigo trazê-lo ao consultório, a conversa flui melhor do que se eu fosse uma ginecologista mulher… dá para perceber. Mas, ainda assim, vejo que minha taxa de sucesso é baixa. Muitos dizem que vão fazer, mas acabam não fazendo o procedimento… No final das contas, é a mulher que se submete à laqueadura — conta ele.

O médico explica que há uma diferença em relação à classe social dos pacientes: os de classes média ou alta costumam ver com mais naturalidade a vasectomia, até por terem plano de saúde e mais acesso a serviços.

Ricardo conta que, como tem consultório desde 1998, percebe uma leve melhora de lá para cá, de modo geral. E os números oficiais indicam que ele está certo: se a quantidade de homens que realizaram vasectomia em 2017 foi 34 mil, em 2001 eles somavam apenas 7,7 mil. Isso significa que houve um aumento de mais de 300%.

— Quando eu falava em vasectomia para um casal no consultório no final dos anos 90, a recepção era péssima. Hoje ainda é difícil, mas não chega a ser tão assustador para a população masculina. Vejo melhora.

Clarissa Pains

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