Nova pesquisa reuniu histórias de jovens que viram seus planos de vida mudarem de rumo da noite para o dia
Cerca de oito em cada dez jovens brasileiras (83%) que engravidaram na infância ou adolescência já tiveram que deixar um emprego ou perderam oportunidades profissionais por causa do trabalho de cuidado com os filhos.
O dado é um dos achados centrais do novo estudo “Marcas do Tempo: Gravidez na Infância ou Adolescência e seus Impactos na Vida de Mulheres no Brasil”, realizado pela Plan Brasil, que ouviu mais de 1,5 mil jovens mulheres de 19 a 29 anos em todas as regiões do país.
Para entender a experiência da gravidez precoce, a pesquisa comparou jovens mulheres que engravidaram na infância ou adolescência, e aquelas que não passaram por essa experiência. A pesquisa descontou fatores como pobreza ou baixa escolaridade prévia para isolar o impacto exclusivo da gestação.
O resultado mostrou que mesmo partindo de contextos parecidos, as jovens que engravidaram na infância ou adolescência acumulam desvantagens visivelmente maiores ao longo da vida seja na educação, no trabalho, na renda, na saúde e no exercício de seus direitos, quando comparadas às jovens que não viveram essa experiência.
Cadeia de desvantagens começa antes da gravidez
Os impactos não se limitam ao mercado de trabalho. Jovens que engravidaram na infância ou adolescência têm 24 pontos percentuais a mais de chance de não estar estudando e 21 pontos percentuais a mais de chance de não concluir o Ensino Médio, em relação a quem não passou por essa experiência.
O abandono escolar também é muito mais frequente. 61% das que engravidaram precocemente pararam de estudar, contra 33% entre as que não engravidaram.
Entre as jovens que não engravidaram, a evasão escolar costuma ter causas diversas como dificuldades de saúde mental, contexto familiar, qualidade do ensino, desigualdades sociais. Já entre as que engravidaram, o abandono se concentra fortemente em um único fator, a própria gravidez ou o cuidado com os filhos, apontado como motivo direto por uma proporção 49 pontos percentuais maior do que no grupo de comparação.
A gravidez na infância ou adolescência é um ponto de inflexão que aprofunda desigualdades que já existiam antes mesmo da gestação”, afirma Cynthia Betti, CEO da Plan Brasil. A executiva afirma que reverter esse quadro exige implementação, monitoramento e orçamento para políticas públicas integradas e de prevenção, e não respostas isoladas.