A Esplanada tingida de jenipapo e urucum, por Maria Paula Fidalgo

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Marcha das Mulheres Indígenas leva beleza a Brasília

(Folha de S. Paulo, 13/08/2019 – acesse no site de origem)

Brasília amanheceu envolvida por cantos indígenas nesta segunda-feira (12): 1.500 mulheres de 115 diferentes povos, vindas de 25 estados, saíram do acampamento em frente à Funarte, dando inicio à primeira Marcha das Mulheres Indígenas.

O destino, foi o prédio da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), onde fizeram uma ocupação pacífica, porém muito firme, deixando claro que não irão aceitar a municipalização da saúde pública indígena. Reivindicação justa; afinal, elas não querem ter que ir para hospitais quando estiverem doentes, definitivamente não querem ser tratadas com antibióticos e muito menos serem submetidas a procedimentos cirúrgicos invasivos, como a prática de cesarianas, que no Brasil já ultrapassa o número de partos naturais.

Elas cantaram, dançaram e fizeram falas emocionantes, que comoveram profundamente quem presenciou o ato, demonstrando que, em nossa humanidade, somos todos um.

Eu estava lá e marchei com elas. Primeiro por uma questão de sororidade: levar meu apoio a essas mulheres tem um significado importante para mim. Um sinal dos novos tempos em que o feminismo se constitui nas relações de afeto e sustentação entre mulheres e suas causas, mesmo as que não estejam diretamente relacionadas. Portanto, acompanhar essas mulheres em uma caminhada pacífica representa tanto um apelo ao respeito e à preservação dos seus hábitos e costumes quanto aos meus próprios.

E mais ainda porque acho decepcionante a forma como nós, brasileiros, lidamos com nossa herança indígena. Sem compreender o valor dos ritos de passagens, da sabedoria ancestral e suas sutilezas na interface que se dá de forma subjetiva entre os povos e a floresta. Infelizmente, em nosso universo urbano, poucos têm maturidade simbólica para alcançar o significado disso.

Nem a sabedoria no uso das ervas medicinais, nós, brancos, conseguimos validar! Precisamos que algum laboratório europeu venha buscar em nossa exuberante biodiversidade algum principio ativo que, depois de devidamente patenteado e sintetizado, possa representar uma esperança de cura ao voltar para nós por preços abusivos nas prateleiras das farmácias —fato que reproduz indefinidamente nossa triste condição de colonizados, também conhecida como “complexo de vira-latas”.

Talvez estejamos mesmo falhando enquanto nação ao negar o valor que o legado de nossos povos originários nos oferece e insistindo em buscar nos protocolos europeus e norte-americanos soluções para a saúde publica brasileira.

Em se tratando de mulheres empoderadas, marchando para que suas necessidades sejam atendidas, dificilmente iremos encontrar tanta beleza em qualquer outra marcha mundo afora —seja pelo colorido intenso dos tons avermelhados de suas peles, das penas de seus cocares, das contas de suas miçangas ou pela luz que emana da naturalidade de suas vidas.

Do prédio da Sesai, elas foram recebidas pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, de onde seguiram para o gabinete da ministra Cármen Lúcia, no Supremo. Lá, de mulher para mulher, pediram respeito à Constituição na demarcação de seus territórios.

Nesta terça-feira (13), segundo dia de marcha, o tema foi educação e mais 1.500 mulheres indígenas chegaram de suas tribos. Essas 3.000 mulheres se juntam à Marcha das Margaridas, na quarta-feira (14), unindo suas vozes às mais de 50 mil mulheres campesinas, quilombolas, trabalhadoras rurais e integrantes do MST.

Salvem nossas guerreiras que protegem nossas matas, enriquecem nossa cultura e resistem transformando luta em melodias, fazendo o mundo todo saber que seu território é seu corpo, seu espírito!

Haux, Haux, Haux!

Por Maria Paula Fidalgo – Psicóloga, mestre em processos de desenvolvimento humano e saúde pela Universidade de Brasília, fundadora da ONG Uma Gota no Oceano, atriz e escritora

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