- Censo mostra que apenas 1,5% do total mobilizado pelo Gife foi destinado à igualdade de gênero e direitos LGBTQIAPN+
- Estudo examina estruturas de poder e formas alternativas de financiamento
Filantropia é uma palavra feminina que remete ao “amor à humanidade”, forma de altruísmo que pode ser resumida como iniciativas privadas para o bem público.
Ainda assim, o campo da filantropia institucionalizada —também compreendida como ISP (investimento social privado)— foi historicamente estruturado em um paradigma de racionalidade técnica frequentemente associado ao masculino, com tendência a privilegiar o cálculo em detrimento do cuidado.
No livro “Tudo Sobre o Amor”, bell hooks propõe uma definição de amor como prática composta por cuidado, compromisso, responsabilidade, respeito e conhecimento.
Essa formulação oferece uma lente para observarmos o ISP para além da ideia de doação ou de implementação de projetos, aproximando-o de uma dimensão ética e relacional.
A incorporação da perspectiva de gênero na filantropia institucionalizada, contudo, tem ocorrido de maneira desigual. Em muitos casos, ela aparece como agenda temática, voltada a mulheres, meninas ou à população LGBTQIAPN+, sem necessariamente alterar formas de decisão, distribuição de recursos ou produção de conhecimento no campo.
Ao mesmo tempo, cresce o debate sobre abordagens como a filantropia feminista, que desloca o foco para o exame de estruturas de poder, desigualdades históricas e formas alternativas de organização e financiamento.
No Brasil, esse debate se insere em um contexto marcado por fortes assimetrias. Indicadores recentes evidenciam urgências: em 2025, foram registrados, em média, 5 feminicídios por dia, 77 assassinatos de mulheres trans e travestis, mais de um quarto das mulheres brasileiras afetadas pela violência doméstica e aproximadamente 8,8 milhões vítimas de violência digital.
Ao mesmo tempo, cerca de 90% dos cuidadores informais no país são mulheres —uma base essencial, porém invisibilizada e não remunerada. Esse contexto molda diretamente as demandas que chegam ao universo do investimento social privado.
Embora mulheres e meninas figurem com 39% de atuação direta e 42% de atividade transversal no ISP brasileiro, de acordo com a mais recente pesquisa sobre o setor produzida pelo Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas)—o Censo Gife 2024-2025—, o volume de investimento destinado especificamente à defesa e promoção da igualdade de gênero e direitos LGBTQIAPN+ somou apenas R$ 89 milhões.
Isto representa 1,5% do total de R$ 5,8 bilhões mobilizados por instituições associadas ao Gife.
O descompasso se acentua quando se observa a questão da governança. Apesar das mulheres representarem cerca de 70% da força de trabalho no setor, a presença feminina diminui à medida que se sobe na hierarquia decisória.
Nos conselhos deliberativos, elas ocupam pouco mais de um terço das cadeiras. Entre os grandes investidores sociais, a predominância masculina é ainda mais acentuada e, com ela, a concentração de poder sobre a alocação dos recursos filantrópicos.
A partir dessa leitura, a relação entre filantropia e gênero pode ser compreendida menos como um campo consolidado e mais como um espaço em aperfeiçoamento, no qual convivem diferentes concepções de atuação e cujas respostas à sociedade precisam ser ampliadas.
A ideia de filantropia como “amor à humanidade” —quando colocada em diálogo com a definição de bell hooks— evidencia tensões entre intenção, prática e estrutura.
Nesse sentido, a análise de gênero não apenas amplia os temas abordados pelo investimento social privado como também oferece elementos para observar como poder, conhecimento e recursos se organizam dentro do próprio campo.