Como Damares Alves tem dominado a pauta de gênero no Senado

03 de agosto, 2026 AzMina Por Anne Meire Ribeiro e Maria Ísis Santos

Um em cada 6 projetos aprovados na Comissão de Direitos Humanos presidida pela senadora restringe direitos de pessoas que gestam e da população LGBTQIAPN+ 

  • À frente da CDH, a senadora controla a pauta, escolhe relatores e influencia o ritmo de propostas que tratam de aborto, infância, gênero e direitos LGBTQIAPN+;

  • Entre as medidas que avançaram estão barreiras ao aborto legal e propostas contra o reconhecimento da identidade de gênero e o uso do nome social em escolas;

  • O levantamento da AzMina mostra que a condução da comissão tem priorizado agendas conservadoras, enquanto iniciativas de proteção e acolhimento aparecem em menor número.

Quando o assunto é aborto, identidade de gênero e proteção da infância, quem tem decidido o que avança ou não no Senado Federal é Damares Alves (Republicanos-DF), que ocupa a presidência da Comissão de Direitos Humanos (CDH) desde fevereiro de 2025. E sua atuação não tem sido positiva para esses grupos: desde o início da gestão, 1 em cada 6 projetos aprovados relacionados aos direitos da população LGBTQIAPN+, crianças, adolescentes e pessoas que gestam restringem direitos.

A presidência de uma comissão do Senado costuma passar despercebida para quem acompanha apenas as votações em plenário. Mas é a pessoa que ocupa essa cadeira quem define boa parte do que será discutido, votado e priorizado pelos parlamentares. Ela é um membro da comissão como qualquer outro, com direito a voto; mas em caso de empate, pode decidir o resultado.

No Senado existem 16 comissões permanentes, com eleições para a presidência a cada dois anos. As comissões têm a função de discutir os projetos, e o presidente desses grupos é responsável por coordenar e dirigir esses trabalhos. E a maioria das propostas legislativas precisa passar por uma comissão antes de ir para o plenário — podendo ser barrada ou ficar parada ali por anos.

A presidente não tem poder para aprovar sozinha um projeto de lei ou outros formatos de proposta, mas ela exerce influência sobre o ritmo em que ele avança ou não na casa. Ao definir quais matérias entram em pauta, indicar relatores e conduzir as reuniões, quem ocupa o cargo pode acelerar determinadas agendas legislativas e deixar outras em segundo plano. E a CDH, liderada por Damares, é por onde passam os PLs ligados aos direitos das mulheres, pautas raciais e LGBTQIAPN+, questões de gênero e infância.

Infográfico intitulado “Como funciona uma comissão legislativa”, em tons de azul, branco e rosa, dividido em três partes. 1. O que é? Explica que uma comissão legislativa é um grupo de parlamentares da Câmara dos Deputados ou do Senado especializado em temas específicos, como Educação, Saúde e Finanças. Ao lado, há a ilustração de uma gaveta de arquivo sendo aberta por uma mão. 2. Quais são os tipos? Apresenta duas categorias: Permanentes: existem durante toda a legislatura, como a Comissão de Constituição e Justiça. Temporárias: criadas para um objetivo específico, como uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) ou uma comissão especial para analisar uma PEC. As explicações são acompanhadas por ilustrações de uma pasta de arquivos e de um bloco de documentos preso por um clipe. 3. Como funciona? Mostra, em sequência, as etapas da tramitação de um projeto: O projeto é apresentado na Câmara ou no Senado. É distribuído para a(s) comissão(ões) competente(s). Cada comissão designa um relator e produz um parecer. A comissão debate, pode propor emendas e vota. Se aprovado, o projeto segue para outra comissão ou para o plenário. Na parte inferior, uma observação informa: “Em alguns casos, a comissão tem poder terminativo, ou seja, decide sozinha, sem votação no plenário.” A fonte indicada é a TV Senado. O infográfico também traz fotografias estilizadas do plenário do Congresso, documentos e um carimbo, reforçando o tema do processo legislativo.

Temas recorrentes na pauta da CDH

Ao longo da gestão, Damares tem afirmado que a proteção dos direitos das mulheres é uma das prioridades da comissão. O levantamento realizado pela AzMina, no entanto, mostra certa frequência na aprovação de projetos que propõem restrições ao atendimento de vítimas de violência sexual, ao aborto legal e aos direitos da população LGBTQIAPN+. Para mapear essas propostas, a reportagem utilizou a QuitérIA, a inteligência artificial d’AzMina que monitora a atividade legislativa.

Desde que Damares assumiu a presidência, a seleção das matérias levadas à votação revela uma concentração em três temas recorrentes: restrições ao aborto legal, medidas voltadas à população LGBTQIAPN+ e propostas de endurecimento penal. Embora também existam iniciativas voltadas à fiscalização de políticas públicas para mulheres e ações de acolhimento, elas aparecem em menor número entre os projetos que ganharam destaque na condução da comissão.

Entre os projetos de maior repercussão está o PDL (Projeto de Decreto Legislativo) 3/2025, que suspende a Resolução 258/2024 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). A resolução suspensa prevê atendimento humanizado em procedimentos de aborto legal para crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Vale lembrar que a suspensão da resolução não muda a lei: o aborto em casos de estupro continua sendo legal, mas as orientações para atendimento ficaram menos claras.

O episódio teve repercussão nacional e o projeto ficou conhecido como ‘PDL da Pedofilia’ nas redes sociais, porque tenta dificultar o acesso ao aborto legal para menores vítimas de estupro. O caso chamou atenção pelo tempo da votação simbólica: menos de 2 minutos, em uma sessão esvaziada no Senado, dia 2 de junho.

A agenda de restrição aos direitos reprodutivos levou a CDH a convidar o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, para prestar esclarecimentos sobre a nova versão da Caderneta da Gestante. O requerimento feito pelo senador Eduardo Girão (Novo-CE) questionava a inclusão de seções sobre interrupção da gestação e o uso de termos como “pessoas que gestam”.

O PL (Projeto de Lei) 2524/2024, do senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR), que proíbe o aborto depois de 22 semanas de gestação em casos de estupro e anencefalia, também foi aprovado pela comissão. O projeto afeta muitas vítimas de violência sexual, sobretudo crianças de até 12 anos: 28,3% buscam o atendimento médico somente após as 22 semanas, segundo estudo da Universidade Federal de Pelotas.

Na legislação atual, o procedimento de aborto legal não tem limite de idade gestacional, sendo permitido em casos de gravidez resultante de estupro, anencefalia fetal ou quando existe risco à vida da gestante.

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