Jogos Olímpicos do Rio devem ser adiados ou transferidos por causa de surto de zika? SIM

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(Folha de S.Paulo, 04/06/2016)  Cautela em Tempos de Risco. 

Assinei a carta enviada à OMS (Organização Mundial da Saúde), com outros cientistas, que pede o adiamento ou mesmo a transferência dos Jogos Olímpicos no Brasil. Minhas razões são simples, baseiam-se nos pronunciamentos da própria OMS sobre os riscos da epidemia do vírus da zika para as mulheres em idade reprodutiva.

Em fevereiro deste ano, a organização decretou situação de emergência internacional pelo surto da síndrome congênita da zika em fetos. É preciso atenção: desde a criação da OMS, há 68 anos, esta é a quarta vez que o órgão decreta uma situação de emergência global em saúde.

Em abril, a OMS anunciou haver consenso científico de que o vírus da zika causa síndrome congênita nos fetos, quadro clínico que, comumente, descrevemos como microcefalia. Já são quase 2.000 crianças diagnosticadas com a síndrome, e há mais de 7.000 notificações de casos suspeitos.

Não sabemos quantas mulheres grávidas infectadas pelo vírus terão fetos com sinais da síndrome neurológica, pois ainda há muito a ser descoberto sobre a circulação do zika no Brasil e seus efeitos na gravidez. Uma certeza já temos: o risco da epidemia não é o mesmo para homens e mulheres. Quem está no centro do alerta global de saúde pública são as mulheres em idade reprodutiva.

Foi a partir de maio que comecei a sentir-me confusa diante das recomendações da OMS. Se antes havia um risco caracterizado como uma emergência global, como não haveria razão para adiar ou transferir a Olimpíada?

Houve quem apresentasse cálculos de que é perto de zero o risco de um visitante ser infectado por zika. Mas como anunciar taxas de risco se não sabemos qual é a taxa de ataque do vírus na população?

Além disso, o mais importante é lembrar que os anúncios de risco e proteção feitos pela OMS não se referem à febre do zika, mas à transmissão vertical de mulheres grávidas para fetos. E aqui não basta recomendar que as mulheres grávidas não visitem o Brasil ou que mulheres vivendo em áreas onde há epidemia do vírus considerem atrasar planos para ter filhos.

Por que assinei a carta? Porque, ao contrário do que argumenta o diretor-executivo da OMS, Bruce Aylward, não penso que “populações” seja um conceito que exclua as mulheres. Não há essa ideia de “populações em geral” para uma doença com um vetor voador e com fortes evidências de transmissão sexual -a OMS recomenda que um homem com sintomas de zika aguarde seis meses para iniciar um projeto reprodutivo.

Como, então, se proteger, já que muitos casos de zika são assintomáticos? Talvez não visitando áreas empobrecidas e mantendo abstinência sexual no Brasil.

A carta que enviamos não pede restrição de movimento entre as fronteiras para conter a epidemia; pede cautela festiva em tempos de risco. Convidaremos 500 mil pessoas para visitar o Rio, cidade com a segunda maior taxa de notificação por zika? Mesmo que retiremos as mulheres grávidas do convite, elas estarão presentes por intermédio de seus parceiros.

É assim que faço um pedido alternativo à OMS: é importante esclarecer a todos os homens viajantes de países em que haja restrição ao planejamento familiar ou ao aborto que suas companheiras também se encontrarão em risco se vierem a engravidar.

O aborto é criminalizado em 67% dos 206 países participantes da Olimpíada. Temos ou não um problema de saúde global, cujas vítimas são as mulheres?

DEBORA DINIZ, 46, é professora de bioética da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília e pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética

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