Marco Feliciano e caso de acusação de estupro: informação e desinformação

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(Nexo, 08/08/2016) Denúncia de agressão e assédio sexual teve reviravoltas, mas evidências e relatos de jornalista e da vítima permitem traçar a ordem dos acontecimentos e despertam mais dúvidas

A estudante de direito Patricia Lélis, de 22 anos, está no centro de um caso cheio de reviravoltas que envolve evidências de tentativa de estupro, assédio sexual e agressão por parte do deputado Marco Feliciano, do PSC, além de coação, sequestro e ameaças de morte da parte de seu chefe de gabinete, Talma Bauer.

O excesso de informações desencontradas manteve a história relativamente confusa nos últimos dias. Embora a maioria dos grandes jornais do país tenha noticiado a detenção para interrogatório do assessor de Marco Feliciano, na sexta, o único veículo que está investigando a história é o blog Coluna Esplanada, do jornalista Leandro Mazzino, do UOL.

Leia mais:
Jornalista vai ao Senado para fazer denúncias contra Feliciano (G1, 08/08/2016)

Feliciano, um expoente da bancada evangélica na berlinda por acusação de estupro (El País, 08/08/2016)
Deputadas pedem apuração de suposto estupro cometido por Feliciano (Folha de S.Paulo, 08/08/2016)
Jovem diz que PSC ‘sempre soube’ de denúncia de estupro de Feliciano (HuffPost Brasil, 08/08/2016)
Patrícia diz que não foi primeira vítima de Feliciano e pede: Não se calem (Correio Braziliense, 08/08/2016)

No entanto, embora a narrativa pareça desencontrada, as provas apresentadas por Lélis e as declarações do delegado que está investigando parte da denúncia em São Paulo já permitem traçar uma linha do que aconteceu.

A cronologia

24 de julho

  • A história veio à tona pela primeira vez no blog Coluna Esplanada, do jornalista Leandro Mazzini, que tem acompanhado o caso. Na ocasião, ele não mencionou o nome do deputado ou da vítima.

2 de agosto

  • Mazzini publica a história completa, dessa vez apontando Marco Feliciano como o agressor. Acompanhando a matéria, seguem prints de conversas no Whatsapp e no Telegram entre a vítima e o deputado. Nelas, há evidências de que a jovem sofreu violência sexual por parte de Feliciano.
  • Patricia Lélis publica nas redes sociais dois vídeos em que acusa o jornalista de forjar a história para incriminar Feliciano e nega a acusação de estupro. Eles são apagados em seguida, no mesmo dia.
  • Mazzini reporta que se encontrou com a mãe da vítima em Brasília. De acordo com o jornalista, ela disse que viu a filha com a boca machucada e uma mancha roxa na perna no dia da agressão, 15 de junho. Além disso, a mãe também disse que a estudante havia ligado de São Paulo e pedido a ela o número uma conta bancária jurídica, ligada a um CNPJ, para que fosse feito um depósito. Isso teria feito com que ela decidisse ir para São Paulo encontrar a filha e entender o que estava acontecendo.

3 de agosto

  • No blog, Leandro Mazzini publica o áudio de uma longa conversa entre Lélis e Talma Bauer, chefe de gabinete de Marco Feliciano. Nela, Bauer não nega as acusações de Lélis e se comporta como se estivesse completamente ciente das acusações – e da veracidade delas. A conversa aconteceu em algum momento anterior ao dia 24 de julho, quando a história foi publicada pela primeira vez. Bauer confirma à coluna que se reuniu com Lélis, mas alega que o teor do áudio pode ser fruto de uma montagem.

5 de agosto

  • A vítima divulga que fez um boletim de ocorrência e prestou depoimento à Polícia Civil de São Paulo.
  • O assessor de Feliciano, Talma Bauer, é detido para interrogatório e liberado.
  • Em entrevista em vídeo à revista Veja SP, Lélis conta os detalhes da agressão e da coação e sequestro por parte de Talma Bauer.

6 de agosto

  • O site de notícias evangélico Gospel Prime publica um texto com prints de Whatsapp que mostram Lélis na posição de assediadora e Feliciano na de vítima. No entanto, ao contrário dos prints originais, aqueles que incriminam o deputado, esses têm horários de mensagens e outros detalhes que não são consistentes, o que reforça suspeitas de que sejam forjados.

Os detalhes da acusação

Patrícia Lélis era militante do Partido Social Cristão, presidido por Pastor Everaldo, que foi candidato às eleições presidenciais em 2014. Além disso, a jovem é famosa divulgadora das ideias da bancada evangélica nas redes sociais, especialmente a defesa da pauta contra a legalização do aborto e contra vários outros temas associados ao movimento feminista. Antes de sua página ser tirada do ar, segundo ela pelo assessor Talma Bauer, Lélis tinha mais de 100 mil seguidores.

Ela contou ao blog Coluna Esplanada e, depois, em depoimento oficial à Polícia Civil, que foi convidada por Marco Feliciano para uma reunião com a juventude do PSC no apartamento do deputado, em Brasília, na manhã do dia 15 de junho.

Disse que, chegando lá, não havia outras pessoas no apartamento e Feliciano teria lhe oferecido um cargo comissionado no PSC com salário mensal de cerca de 15 mil reais para que ela se tornasse sua amante. Diante da recusa da jovem, o deputado a agrediu com socos e pontapés, tentou beijá-la à força e levantou sua saia.

O relato de Lélis dá conta de que ela só teria conseguido fugir do apartamento de Feliciano porque seus gritos foram ouvidos por uma vizinha, que bateu na porta. O deputado então a teria deixado ir.

Os prints divulgados como prova por Lélis, na cronologia, são de uma conversa que aconteceu logo em seguida à agressão.

Reunião com o PSC

Depois disso, ela conta ter se reunido com dirigentes do partido para denunciar o caso. Eles teriam lhe oferecido um valor em dinheiro para que ela desistisse de denunciar a agressão de Feliciano.

Diante de sua recusa em aceitar o pagamento para silenciar, ela foi procurada pelo assessor de Feliciano, Talma Bauer. O resultado disso foi um encontro cujo teor foi gravado em áudio e divulgado também pelo Coluna Esplanada.

Nessa conversa, a jovem afirma não ter ido antes à polícia denunciar o caso por receio de como isso impactaria sua atuação dentro do partido. Nela, o assessor tenta convencê-la a “botar uma pedra” sobre o caso.

O que aconteceu quando ela veio a público

Lélis disse em depoimento que um jornalista chamado Emerson Biazon teria oferecido a ela a chance de fazer entrevista para uma vaga de emprego em São Paulo. Com passagens e hospedagens pagas por ele, segundo Lélis, a jovem veio de Brasília para São Paulo no dia 30 de julho.

Ao chegar ao hotel, conta, se deparou com Talma Bauer. Lélis afirma que foi mantida em cativeiro por ele no hotel – e que o chefe de gabinete de Feliciano, armado, a coagiu a gravar os dois vídeos em que ela nega a violência que sofreu.

A estudante também contou, em depoimento, em entrevista coletiva no dia 8 de agosto e ao Coluna Esplanada, que Bauer queria que ela fizesse uma coletiva em que admitiria estar apaixonada pelo deputado e ter inventado a história.

A jovem teria escapado com a ajuda da mãe, que decidiu visitá-la em São Paulo ao perceber que havia algo de errado, e de repórteres que estavam no hotel para entrevistá-la, segundo ela. O caso, que já estava em posse do jornalista Leandro Mazzini, foi divulgado por ele porque a estudante passou dias sem se comunicar com o repórter – e Mazzini temia por sua segurança.

É essa a denúncia que a Polícia Civil de São Paulo está investigando – e por isso a detenção de Talma Bauer para depoimento. O delegado responsável pelo caso enviou o boletim de ocorrência a Brasília: para investigar Marco Feliciano, que é deputado e tem foro privilegiado, é preciso uma autorização especial.

Só depois que seu assessor foi convocado a depor, Marco Feliciano se pronunciou sobre o caso, em um vídeo que gravou ao lado da esposa. Nele, o deputado nega as acusações, diz que “perdoa” Lélis e que tem segurança de que a justiça “de Deus e dos homens” vai “mostrar a verdade”.

O que falta explicar

Apesar de ser possível amarrar alguns dos pontos do caso, ainda sobram muitas questões não explicadas.

  • No dia 28 de junho, Marco Feliciano discutia no Twitter com o ator Gregorio Duvivier. Ele postou, por engano, um print do Whatsapp de uma conversa com Patricia Lélis, que apagou em seguida. Duas das mensagens são fotos pessoais, uma delas íntima. Trata-se também de um dos prints divulgados pelo site Gospel Prime em agosto para incriminar a vítima. Esse episódio sugere, no mínimo, que os dois já se conheciam, ao contrário do que disse o deputado.
  • A participação de Emerson Biazon no caso é uma das questões ainda obscuras. Ele teria ido a Brasília ao encontro de Lélis, oferecido a ela a vaga de emprego em São Paulo e a convencido a não fazer um boletim de ocorrência sobre o caso. O que há de novo é que, no fim do depoimento de Lélis à polícia, Biazon disse ao delegado que havia recebido R$ 20 mil em dinheiro de Talma Bauer pelo silêncio da jovem. Ela, no entanto, diz que não autorizou Biazon a receber dinheiro em seu nome. Esse dinheiro, ainda sem dono, está em posse da Polícia Civil paulista.

Agora, os advogados de Lélis vão pedir à Procuradoria Geral da República os vídeos das câmeras do prédio onde fica o apartamento funcional de Marco Feliciano. A jovem afirmou em coletiva de imprensa no dia 8 de agosto que essas imagens provam que ela esteve no apartamento do deputado na data da agressão.

Ana Freitas

Acesse no site de origem: Marco Feliciano e caso de acusação de estupro: informação e desinformação (Nexo, 08/08/2016)

 

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