13/03/2012 – Editorial da Folha de S.Paulo critica acesso precário à contracepção de emergência

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(Folha de S.Paulo) Enquanto se finge discutir a questão do aborto no país, alternativas anticoncepcionais simples, baratas e menos traumáticas são cotidianamente subutilizadas. É o caso da pílula do dia seguinte.

Foi o que mostrou reportagem desta Folha no domingo. De acordo com uma política iniciada há quase dez anos, o medicamento seria, em tese, distribuído gratuitamente à população. Na prática, as dificuldades se multiplicam e assumem aspectos quase surreais.

Como é necessário apresentar receita médica para receber o contraceptivo, as pacientes do sistema público precisam marcar consulta com um ginecologista, o qual, em certos postos de saúde, só tem horário disponível para dali a dois meses. Como o próprio nome sugere, a pílula deve ser tomada logo após o ato sexual para ter eficácia (prazo máximo de 72 horas).

Ainda mais absurda é a praxe, comum em alguns postos de atendimento, de exigir a presença de pais ou responsáveis quando a paciente é menor de idade. Evidentemente, muitas adolescentes grávidas prefeririam o sigilo.

Faltam medicamentos, como constatou a reportagem, em postos municipais da Grande São Paulo. Faltam médicos que os prescrevam. Faltam informações sobre seu uso.

O resultado, especialmente entre os pobres (a pílula pode ser adquirida sem problemas nas farmácias particulares), é o agravamento de um problema de saúde pública, hoje apontado como quinto maior fator de mortalidade materna no país: o dos abortos clandestinos.

Para o cúmulo da hipocrisia, é comum ver candidatos a cargos eletivos tentando tirar votos de adversários com a sugestão de que são “a favor do aborto” por defender medidas como a pílula do dia seguinte. A resposta dos acusados, no temor de desagradar a conservadores organizados, é em geral vaga.

Ocorre que, do ponto de vista de algumas religiões – que cumpre respeitar individualmente, mas que não deve servir de base para políticas públicas-, a pílula do dia seguinte é tão condenável quanto o aborto. Autoridades de saúde tiveram o bom-senso, contudo, de admitir esse recurso na rede oficial.

O que grupos contrários ao aborto não conseguiram impor, entretanto, conseguem os adversários habituais de um serviço de saúde de qualidade: a burocracia, a falta de recursos e a indiferença pelas necessidades da população.

Acesse o pdf: Longe do dia seguinte, editorial (Folha de S.Paulo – 13/03/2012)

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