15/09/2013 – Jovens chinesas rejeitam obrigação social de casar antes dos 30 anos

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(Folha de S.Paulo) Beneficiada por 30 anos de abertura econômica, geração de chinesas nascidas na década de 1980 se depara com pressão social contrária à profissionalização e ao adiamento do casamento. Família, governo e mídia colam às solteiras o rótulo de “mulheres sobra”, que voluntariamente parte delas começa a contrariar.

Desde que rompeu um namoro de cinco anos, há poucos meses, a designer gráfica Bai Yu pensa duas vezes antes de visitar os pais.

A distância é uma boa desculpa, já que ela vive em Pequim e a viagem à Mongólia Interior, sua província de origem, é longa e cansativa. Mas o principal motivo que a mantém longe de casa é a pressão familiar. Se não mudar logo de estado civil, alertam os pais, ela corre o risco de perder o “prazo de validade”.

Solteira aos 31 anos, pelas normas sociais chinesas Bai já passou faz tempo da idade de casar. O maior pesadelo foi na última Festa da Primavera, como é conhecido o Ano Novo chinês, quando a família se reuniu para a data mais importante do calendário chinês.

“Tem sempre aquela tia perguntando por que ainda não casei e outra com uma lista de candidatos que quer me apresentar”, diz Bai.

Mas, para ela, o pior é carregar a marca desonrosa da encalhada, um fardo pesado num país em que igualdade entre os gêneros não acompanhou a vertiginosa transformação dos últimos 30 anos de abertura econômica.

O peso começa na semântica. Em mandarim, a junção de dois caracteres condensa o insulto de que são alvo as solteiras chinesas a partir dos 27 anos: “sheng nu” (“mulheres sobra”, numa tradução ao pé da letra).

“O estigma do sheng nu’ é o retrato perfeito do confronto épico que está sendo travado na sociedade chinesa entre o velho e o novo”, diz Joy Chen, autora do best-seller “Não Case Antes dos 30” –como indica o título, uma incitação à rebeldia contra a rotulação.

Por milênios, explica Chen, o único papel da mulher na China era ser mulher e mãe. “Essas jovens têm o peso de 5.000 anos sobre os ombros. Acontece que as chinesas são cada vez mais instruídas e bem informadas e estão rejeitando o papel tradicional”.

É o caso de Bai Yu, uma típica filha dos anos 1980. Ela faz parte da primeira geração nascida na esteira da abertura promovida a partir de 1978, mas ainda com um pé nos anos de isolamento e radicalismo da era maoísta.

“Odeio o termo sheng nu’ e não me vejo como uma encalhada”, diz Bai, vestida num elegante conjunto de seda azul turquesa. “Os mais velhos não entendem isso, mas estar solteira também pode uma escolha.”

Além do preconceito e da pressão imposta pelos pais, a rebeldia de jovens como Bai enfrenta inimigos poderosos no aparato da autocracia chinesa.

Há alguns anos, a Federação de Mulheres da China, órgão estatal, oficializou o estigma da encalhada em artigos publicados em sua página na internet.

Os títulos beiravam a demonização das solteiras: “Oito formas simples de escapar da armadilhas da solteirona” ou “As solteironas merecem nossa simpatia?” (a resposta era não).

Para escapar do rótulo de encalhada e evitar o risco de virar uma sobra na prateleira do mercado de relacionamentos, o site da federação estabeleceu o limite de 27 anos como a linha vermelha das solteiras. Como a idade legal mínima na China para o casamento de mulheres é de 20 anos, isso deixa uma janela estreita para as jovens chinesas.

FEMINISTAS

A fato de ser da competência de uma agência estatal representar os interesses da mulher é sintomático da ausência de movimentos femininos sérios no país. A opinião é de Wu Qing, 75, incansável ativista de direitos humanos e uma das pioneiras (e solitárias) feministas da China.

Professora aposentada de inglês, Wu foi deputada do Congresso do Povo pelo distrito de Haidian, em Pequim, por 27 anos –até ser proibida de se candidatar ao posto, em 2011. Ela não esconde sua irritação toda vez que ouve o termo “sheng nu”.

“É uma enorme discriminação contra a mulher. Por que não usam o mesmo termo para os homens? As pessoas não são sobras. Cada um deveria decidir se e quando quer casar”, opina Wu.

Uma das fundadoras, em 1987, do grupo de estudos femininos da Universidade de Estudos Internacionais de Pequim, onde lecionava, ela diz que não é possível separar os direitos das mulheres da restrições às liberdades políticas no país. “Nenhum direito é dado de bandeja. Se querem igualdade, as mulheres têm que lutar por ela”, esbraveja a ativista.

As reformas econômicas deram novas chances de ascensão às mulheres chinesas. Segundo um ranking da revista “Hurun”, especializada no mundo dos endinheirados, sete das dez empreendedoras mais ricas do mundo são chinesas.

Mas Wu afirma que essas histórias de sucesso se desenrolaram apesar do sistema vigente, e não graças a ele. Homens ganham mais do que mulheres com a mesma qualificação e têm mais chances de serem promovidos. Isso sem falar na hegemonia masculina que prevalece na política.

“Entre os sete membros do Comitê Permanente do Partido Comunista, não há nenhuma mulher. E entre os 25 do Comitê Central só há duas mulheres. Quem vai defender os interesses femininos?”, indaga a ex-deputada Wu.

COCHICHO

A pressão social sofrida pelas mulheres solteiras na China vai muito além do discurso oficial e do cochicho dos vizinhos, tendo reflexos na cultura popular.

A televisão chinesa exibe 22 programas de namoro, que atraem enorme audiência e geram inflamados debates. Um dos mais populares deixa claro já no nome que não há tempo a perder: “Se você não é sério, não me amole”.

“Esses programas alimentam o estigma da solteira como perdedora e a pressão para que a mulher considere o casamento a única coisa que importa”, reclama a jornalista Yuan Yaowen, 30. “E as candidatas são geralmente meninas entre 22 e 25 anos, que nem deveriam estar pensando em casar.”

O choque entre tradicional e moderno cria um código de conduta que confunde e incomoda as mulheres da geração 80.

“Por um lado, a sociedade é ultracompetitiva e nos incentiva a valorizar a formação profissional para conseguir um emprego”, diz Yuan, que está há mais de dois anos sem namorado. “Por outro, espera-se que larguemos tudo no começo de nossas carreiras para sermos mulheres e mães.”

Os números comprovam: a importância do casamento manteve-se imune ao ataque às instituições burguesas promovido pelos comunistas, desde que tomaram o poder em 1949, e à modernização das últimas três décadas.

Segundo o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, 77,4% das mulheres chinesas entre 25 e 29 anos já são casadas. Para efeito de comparação, no Brasil, o índice de casadas para o mesmo grupo é de 32,7%; na França é de 27,3% –ainda que haja casos mais extremos que o chinês: na Índia, só 5,9% das meninas dessa faixa etária são solteiras.

A ansiedade dos pais para que as filhas se casem antes dos 30 é explicada pela preocupação com a imagem mas também pela manifesta preferência dos homens chineses em mulheres na casa dos 20 para o matrimônio.

Para desencalhar as filhas, todo esforço é válido –inclusive a embaraçosa exposição pública. No parque de Zhongshan, bem ao lado da Cidade Proibida, marco histórico de Pequim, centenas de pais se reúnem todo domingo, num verdadeiro mercadão de solteiros.

Mais uma vez, o abismo geracional é gritante. Enquanto os jovens buscam novas amizades e ensaiam flertes em plataformas virtuais, como microblogs e o programa de mensagens por celular WeChat (uma febre na China), os pais preferem se jogar no corpo a corpo.

Os casais se posicionam ao longo de uma das alamedas arborizadas do parque. Com pequenos cartazes escritos à mão, promovem os atributos dos filhas e informam os requisitos que esperam encontrar no genro de seus sonhos.

Cada um faz o que pode. Algumas mães andam pelo parque com o cartaz em punho, lembrando os compradores de ouro do centro de São Paulo. Outras chegam a pendurar no pescoço uma foto da filha ou do filho –há raros casos de rapazes anunciados, mas os solteiros não são rotulados como “encalhados”. A maioria está lá sem o conhecimento dos filhos.

“Tian Xiaogi, nascida em 1986. Pós-graduada em ciência da alimentação na Nova Zelândia, 1,69 m de altura. Procura: rapaz entre 27 e 35 anos, pelo menos 1,70 m de altura, emprego estável, apartamento próprio.”

Diante do cartaz, um pai com ar tímido espera possíveis interessados. O casal se dividiu. Enquanto ele marcava o ponto, a mulher caminhava pela alameda de anúncios, analisando currículos e trocando fotos com outros pais.

“Minha filha queria ficar na Austrália para fazer um doutorado, mas nós dissemos que era hora de ela voltar”, conta Tian Li. “Ela está com 27 anos, é uma idade crítica. Depois dos 30 é muito difícil achar um marido.”

O fator econômico também pesa. Pelas convenções chinesas, um homem precisa ter um imóvel para casar –como bem destacava o cartaz dos Tian. Segundo uma pesquisa da consultoria chinesa Horizon, 3/4 das mulheres consideram a posse da casa própria uma prioridade no candidato a marido.

O foco na riqueza a qualquer custo é uma marca dos anos de modernização na China que revolta a feminista Wu Qing. “A mídia oficial não para de promover a riqueza e o poder como metas”, critica Wu. O casamento, por extensão, acaba se tornando um meio para alcançá-las.

Sabendo disso, muitos homens começam a financiar o apartamento para sua vida de casado bem antes de encontrar a noiva. O fenômeno é tão comum que impactou o mercado imobiliário.

Segundo um estudo elaborado por três economistas, entre eles Yin Liu, da conceituada universidade Tsinghua, em Pequim, a competição por noivas ajuda a explicar a disparada dos preços no mercado imobiliário chinês.

O resultado é que os preços dos imóveis são mais altos nas cidades onde a população masculina supera em muito a porção feminina. A corrida é tão acirrada que gerou um termo depreciativo para a oferta de homens que não podem começar a vida conjugal com a casa própria: “casamentos nus”.

DEMOGRAFIA

A julgar pelos números da demografia chinesa, não deveria ser problema para as mulheres achar um noivo. Na faixa entre 20 e 30 anos, há 20 milhões de homens a mais que mulheres, resultado da prática de abortos seletivos condicionada pela preferência de muitos pais por meninos. Em 2012, nasceram 118 meninos para cada 100 meninas.

Significa que o estigma das encalhadas é apenas um componente de um problema maior. Uma verdadeira crise de solteiros, conforme indicou num estudo recente um dos maiores sites de notícias da China, o Sohu.com.

Intitulado “Mulheres e Homens em Perigo”, o estudo gerou acaloradas discussões no popular microblog Weibo, a versão chinesa do Twitter. Apesar das divergências, quase todos os usuários culparam a política de filho único pela distorção.

“A política de filho único está em vigor há 30 anos. Muitos moradores das áreas rurais optaram por abortos quando conceberam meninas. Agora seus filhos não conseguem achar esposas. Isso é o que dá quando se matam bebês!”, disparou a internauta identificada como Jingxuan 57203.

O desequilíbrio tende a aumentar. De acordo com algumas projeções, em 2020 haverá 30 milhões de chineses a mais que chinesas. Para um governo obcecado com o mantra da “sociedade harmoniosa”, é um problema e tanto.

ANTES SÓ

“Acho que a campanha estatal contra os solteiros se dá em grande parte pela preocupação em evitar a instabilidade social”, especula Wang Jin, 30, que trabalha numa firma de importação de vinhos. Assim como outras solteiras de sua idade, ela reconhece que é exigente e prefere ficar só que mal acompanhada. “Os homens chineses são imaturos. Acham que vão casar para ter alguém para servi-los”, reclama. “Melhor esperar.”

O nível de instrução crescente das novas gerações de mulheres chinesas provocou um obstáculo adicional. Além de tornar as mulheres mais independentes e exigentes, a maior qualificação reduziu suas chances no mercado dos casamentos, devido à convenção chinesa de que homens devem ganhar mais que as mulheres.

“Os homens chineses ficam intimidados com mulheres com poder econômico”, diz Wei Wang, 25, que acaba de voltar à China depois de cinco anos na Austrália.

Se dependesse dela, Wei teria ficado em Brisbane, onde se formou em finanças e marketing.

Só voltou por insistência dos pais. Mas não tem nenhuma intenção de ceder à pressão para que se case antes dos 30. “Metade das minhas colegas de escola estão casadas e já tem filho”, conta Wei. Em muitos casos, a pressa em casar acelera a frustração. “Muitas já estão falando em divórcio. Não quero cometer o mesmo erro.”

No parque Zhongshan, alguns pais admitem, com indisfarçada tristeza, que o investimento que fizeram na educação das filhas pode ser um tiro pela culatra.

“Estou pensando em tirar do anúncio que minha filha tem pós-graduação em psicologia”, diz Aiu Aiguo, diante do cartaz que anuncia o currículo. “Uma moça qualificada demais assusta os homens”.

Além da pós-graduação, o cartaz exibido por Aiu informa que sua filha mede 1,70 m e nasceu em 1988, o que ainda a mantém dois anos distante de se enquadrar no estigma de encalhada. Para ele, porém, aos 25 ela já está “velha”.

“Tenho medo dos efeitos físicos e psicológicos que ela sofrerá, caso demore a se casar”, afirma o pai, sentado numa cadeira dobrável ao pé de uma árvore. “Se continuar solteira, sua personalidade vai se estragar”, teme Aiu.

PAQUERA

Para Joy Chen, a autora de “Não Case Antes dos 30”, um dos problemas é a falta de uma “cultura da paquera” na China. “Muitas solteiras não têm exposição a homens em suas vidas. Elas vão para o trabalho e ficam o tempo todo com as amigas. Muitas das solteiras com quem conversei disseram que mal conhecem homens”, diz Chen.

As moças ouvidas pela Folha concordam. A grande chance de encontrar um namorado espontaneamente é durante os estudos universitários. Depois de formadas, as oportunidades mínguam. Os homens são tímidos, e a maioria das mulheres, mesmo as de mentalidade mais aberta, não acha respeitável tomar a iniciativa.

“O choque entre tradicional e moderno não ocorre só entre gerações mas também dentro de nós”, reconhece a esbelta professora de ioga de 29 anos que pede para ser chamada de Alice.

Os encontros geralmente se dão por meio de indicação de amigos ou parentes. A ação familiar é determinante. “Tenho encontro marcado com um rapaz indicado pelos meus pais. Insistiram tanto que decidi dar uma chance, para pararem de me ligar”, conta ela.

Outra opção popular são os sites de casamento. O mais popular deles, Jiayuan.com (belo destino, em mandarim), tem 93 milhões de usuários registrados e escritórios em várias cidades da China. Sua fundadora, Gong Haiyan, decidiu criar seu próprio serviço on-line de relacionamentos após fracassar na busca por um marido na internet.

Passados dez anos, sua empresa é a maior casamenteira on-line da China e está cotada na Nasdaq, a bolsa eletrônica de Nova York. Porém o que mais enche de orgulho a fundadora Gong foi ter achado o marido dos sonhos pelo site.

Segundo Li Zhongxiao, vice-presidente de relações públicas do Jiayuan.com, todo dia entre 6.000 e 7.000 usuários mudam seu status de “solteiro(a)” para “apaixonado(a)” ou “encontrei o que procurava”.

“Mulheres modernas têm educação superior, são independentes economicamente e na mentalidade, por isso suas preferências são muito diferentes do que no passado”, diz Li. Ele afirma que os três principais requisitos das usuárias em relação ao namorado que procuram são “carreira bem-sucedida, maturidade e valores comuns”.

O sonho, porém, é minimizado por um número crescente de mulheres –aquelas que se negam a aceitar o estigma de encalhadas.

No ano passado, essa geração de mulheres independentes ganhou um aliado com a produção de uma série de TV que redefiniu o rótulo tão incômodo.

A virada de mesa foi possível com um truque linguístico. “Sheng” –o termo que, no começo deste texto, foi definido como “sobra”– também pode significar “vitoriosa”, uma vez que, em mandarim, palavras homófonas ganham sentido diferente segundo o ideograma escolhido na escrita.

O seriado “O Preço de uma Mulher Vitoriosa” conta a saga de uma mulher solteira que constrói uma carreira de sucesso apesar dos tropeços na vida amorosa. Para muitas solteiras, a ficção imita a vida.

“Como é que vou me sentir perdedora se faço o que quero e tenho o poder de decidir quando e com quem casar?”, questiona a jornalista Yuan Yaowen. “Quero mais é aproveitar a vida de solteira enquanto posso.”

Acesse o PDF: A revolução das encalhadas  (Folha de S.Paulo, 15/09/2013)

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