31/12/2013 – Mulheres são criticadas por papéis na TV norte-americana

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(Fernanda Reis/Folha de S.Paulo) Intérpretes femininas são atacadas nas redes sociais e aparecem menos em séries do que colegas masculinos. Segundo levantamento americano, mulheres com falas representam 38,9% dos personagens no horário nobre

A atriz Anna Gunn –intérprete de Skyler, na série “Breaking Bad”– se deparou neste ano com uma situação paradoxal: se, por um lado, foi louvada pelos críticos e ganhou o Emmy de atriz coadjuvante em série dramática, por outro, recebeu na mesma medida o ódio de fãs da série.

Uma busca rápida no Facebook revela comunidades como “Eu odeio Skyler White” e “Matem Skyler White”.

Gunn chegou à conclusão de que sua impopularidade se devia não a ela, mas à desigualdade de gênero existente na televisão.

Em artigo publicado no “New York Times”, escreveu: “Preocupa-me que tantas pessoas reajam a Skyler com esse veneno. Será que eles não suportam uma mulher que não sofra em silêncio nem dá apoio a seu homem?”.

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A atriz Morgan Saylor, a adolescente rebelde Dana, de “Homeland”, disse entender como Gunn se sentia, depois de comentários de fãs da série pedirem a morte de Dana.

“Não sei se [o ódio] é uma questão de machismo”, afirmou. “Talvez personagens mulheres sejam mais criticadas que homens, mas não me ofende muito com isso.”

Hannah, personagem de Lena Dunham em “Girls”, também foi alvo dos telespectadores, que não perdoaram seu envolvimento com um médico bonitão vivido por Patrick Wilson e foram às redes sociais criticar sua aparência.

“Como uma garota como ela fica com um cara desses? Minha cabeça é muito fechada se acho isso muito fantasioso e se me lembro da aparência da mulher de Wilson na vida real?”, sintetizou Daniel Engber, colunista do site norte-americano Slate.

“O figurino da Hannah é mal-ajambrado propositalmente, para refletir suas relações igualmente desconfortáveis”, diz a jornalista Juliana de Faria, criadora do site Think Olga, que discute a feminilidade nos dias de hoje.

A lista de personagens femininas odiadas traz ainda April Kepner, de “Grey’s Anatomy” e Quinn Perkins, de “Scandal”, ambas consideradas “chatas” pelo público.

Para Faria, gostar ou não de um personagem é uma questão pessoal. “Mas o maior problema desse bullying específico contra personagens femininos é que ele se foca no machismo e na misoginia –traz consigo humilhações com relação ao corpo e à aparência das mulheres”, ressalta.

A desigualdade de gênero na televisão tem seu reflexo estatístico. Estudo de pesquisadores da University of Southern California e da Annenberg School for Communication & Journalism, de Los Angeles, com dados de 2012, aponta que, nos programas exibidos em horário nobre, nos Estados Unidos, a representação de mulheres entre os personagens com falas era de 38,9%.

Segundo levantamento da Folha, nas séries televisivas indicadas às categorias principais do Globo de Ouro de 2014, 43% de seus elencos fixos são compostos por mulheres. Apenas em “Girls”, “Nurse Jackie” e “Downton Abbey” há mais atrizes do que atores em cena.

Acesse em pdf: Mulheres são criticadas por papéis na TV (Folha de S.Paulo – 31/12/2013)

 

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