Abstinência sexual proposta por Damares não vai vingar, dizem jovens

Compartilhar:
image_pdfPDF

Mesmo adolescentes que querem esperar duvidam de eficácia da medida; especialistas defendem educação

(Folha de S.Paulo, 19/01/2020 – acesse no site de origem)

“Perigoso”, “errado”, “sensacional”. Os adjetivos escolhidos por adolescentes para descrever a política de abstinência sexual proposta pela ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, para enfrentar a gravidez precoce e DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) variam.

Mas têm uma coisa em comum: reconhecem que a chance de não vingar é grande e que investir em educação é crucial. A Folha ouviu oito jovens de São Paulo com até 18 anos, de diferentes locais e classes sociais, para saber o que pensam da medida.

De acordo com a pasta, a política focada nos benefícios da iniciação sexual tardia está em formulação e será complementar a políticas de estímulo a métodos contraceptivos.

Descrevem a abstinência como o único método 100% eficaz para evitar a gravidez indesejada. Ainda não há previsão de quanto será gasto.

O projeto vai ao encontro do que é defendido por movimentos como o Eu Escolhi Esperar (que prega a vida sexual após o casamento). Para especialistas, a política segue caminho errado e investir em educação seria mais eficaz.

O psiquiatra Jairo Bouer, que trabalha há cerca de 30 anos com adolescentes, classifica a iniciativa como inócua e irresponsável.

“Ninguém consegue impor abstinência ao outro. As pessoas decidem iniciar a vida sexual quando têm desejo e quando estão preparadas”, diz.

O médico diz que a medida pode vulnerabilizar jovens, que não terão informação e suporte para ter vida sexual independente e saudável: “A sexualidade pode se tornar um tabu a mais.”

É na adolescência que os hormônios sexuais começam a ser produzidos, o que leva os jovens a direcionarem a libido a uma outra pessoa, diz Carmita Abdo, coordenadora do ProSex (Programa de Estudos em Sexualidade) do Hospital das Clínicas da USP.

A especialista acha que a medida é impraticável. “A ideia pode ser adotada por quem já tiver predisposição a isso, que se sentirá referendado e apoiado. Mas não pelos outros”, diz.

A melhor solução, afirma Abdo, seria investir em uma educação sexual contextualizada, que não contemple apenas o ponto de vista biológico mas também comportamental, ético e de futuro.

Afinal, são muitos fatores que levam a uma gravidez precoce, não apenas a falta de informação sobre preservativos; eles vão desde o desejo de ser mãe até sexo sob efeito de álcool e drogas.

Pesquisa feita pelo Prosex mostrou que os adolescentes iniciam a atividade sexual no país dos 13 aos 17 anos, com maior incidência aos 15 anos.

Segundo dados preliminares do Ministério da Saúde, os casos de gravidez na adolescência caíram 39% de 2000 a 2018.

O número, porém, segue alto: segundo a ONU, 62 em 1.000 jovens de 15 a 19 anos são gestantes. No mundo, a média é de 44 por 1.000.

O QUE DIZEM OS JOVENS

‘AÇÃO RADICAL E VIOLENTA PARA FALAR DE ASSUNTO DELICADO’

Tiane Cristina Silva, 16
Estudante, mora em Cantinho do Céu (zona sul)

Acho que a abstinência é uma abordagem errada. É preciso discutir, debater e orientar. Julgar o comportamento e o estilo de vida do jovem só será um ataque contra ele. Uma ação radical e, de certa forma, violenta para falar de um assunto tão delicado.

Nunca discuti o assunto com minha família, são bem reservados. Eu via o sexo como algo errado e proibido. Mas meus amigos da escola me falavam o contrário e havia pressão social para transar cedo. Eu ficava confusa.

Quem não faz sexo sofre bullying. Existe certa mentalidade entre os jovens, principalmente entre meninas, de que fazer sexo vai dar certo status. A mulher é muito sexualizada.

Na 7ª série, nunca tinha beijado, me chamavam de café com leite, virjona. Tentei não me deixar influenciar e esperei minha vontade.

‘É A MELHOR FORMA DE EVITAR GRAVIDEZ, MAS NÃO SERÁ EFICAZ’

Stéphanie Freitter, 18
Vestibulanda, mora em Jabaquara (zona sul)

De fato, a abstinência é a melhor forma de evitar gravidez e doenças. Mas não vai ser eficaz. A ideia é bonita no papel, mas na prática nada vai acontecer. Não dá para controlar a liberdade individual da pessoa.

Os adolescentes podem começar a mentir ainda mais para os pais. O cenário pode piorar, os jovens podem contrair mais doenças.

Existe uma pressão social para fazer sexo nova, conheço garotas que passaram por isso. Mas a abstinência não vai resolver isso. Temos que combater as desigualdades de gênero.

Tive aulas de educação sexual no colégio, acho que foi muito importante.

Sinto falta de campanhas que incentivem o uso de métodos contraceptivos. Deveriam fazer isso, não tentar evitar que adolescentes façam algo natural.

‘ACHO QUE SERÁ SENSACIONAL, O SEXO ESTÁ BANALIZADO’

Arianny Lima, 17
Recém-formada, mora em Jardim Panorama (zona oeste)

Acho que vai ser ótimo, sensacional. A vida sexual deve começar depois do casamento. É preciso ser criterioso na escolha do parceiro. Tenho uma visão cristã sobre isso.

Hoje, o sexo é muito banalizado. As pessoas fazem como se fosse o mesmo que dar um beijo, quando deve ser uma coisa íntima entre pessoas que se amam.

Muitas garotas são iludidas por homens, caem na lábia deles. E muita gente não tem maturidade emocional para as consequências. A política pode dar certo dependendo de como for abordada. O que mais leva as pessoas a fazerem é a moda. Se a moda for o Eu Escolhi Esperar, pega bem.

Também é preciso investir em conscientização. Com conhecimento, dá para fazer a coisa certa.

‘O EU ESCOLHI ESPERAR NÃO DEVE SER IMPOSTO’

Sabrina Sotelo, 18
Estudante, mora em Parada Inglesa (zona norte)

O Eu Escolhi Esperar não deve ser imposto. Não foi para mim, não quero que seja para os outros [ela é adepta do movimento].

Cada um pensa de um jeito. Acho difícil dar certo. Querer impor isso aos adolescentes é muito pesado. Não dá para mudar a pessoa.

Sexo não pode ser mostrado como um tabu. Até porque quem decidiu esperar um dia vai fazer. O que precisam ensinar é que existem doenças e consequências, e fazer campanhas.

Alguns adolescentes vão acabar simplesmente ignorando a política de abstinência, enquanto outros podem se identificar com a proposta.

Mas também não acho certo incentivar o sexo. Hoje, em todo lugar se vê isso, na televisão e tudo o mais. É como o mundo está hoje.

‘MUITA GENTE VAI QUERER FAZER SEXO PORQUE É PROIBIDO’

Nicollas dos Santos, 18
Estudante, mora no Parque Residencial Cocaia (zona sul)

A ideia não vai render. Muita gente vai querer fazer [sexo] porque é proibido. Pode gerar uma revolta dos adolescentes, que se fechariam mais.

Já que os atos sexuais vão acontecer de qualquer forma, é mais justo colocar educação sexual nas escolas. Eu nunca tive.

Meus amigos não são bem informados sobre sexo. Se fossem, haveria um controle melhor. Perdi a virgindade com 12 anos, não me arrependo, mas poderia ter tido mais informações.

Um ponto interessante que a Damares falou foi sobre a relação entre afeto e sexo. Essa ligação está meio esquecida entre nós jovens, mas eu discordo de que existam almas gêmeas. As pessoas se conhecem e se apaixonam, e se não for pra ser, não será.

‘VÃO TER QUE RALAR BASTANTE PARA FAZER DAR CERTO’

Kawany Cezar, 18
Operadora de loja, mora em Jardim Umarizal (zona sul)

Para conseguir fazer a política dar certo, vão ter que ralar bastante. Os adolescentes de hoje, ainda mais com o funk, são muito influenciados a fazer sexo. Em vez de não transar, os jovens têm que se cuidar, tomar remédio e saber com quem se relacionar.

Perdi a virgindade com 13 anos. A gente se apaixona e cede fácil. Me arrependo profundamente, apesar de ter sido uma decisão minha. Não tinha maturidade. Todos os meus amigos começaram cedo a vida sexual.

Minha família ficou desesperada quando soube, com medo de eu engravidar.

Diziam para eu pensar em outras coisas na vida, já que não nasci em berço de ouro. Nunca engravidei.

Acho que deve haver mais conversa entre família e amigos e menos julgamento.

‘ABSTINÊNCIA É DIFÍCIL, JOVENS DEVEM SE PREVENIR’

Kerolyn Ferreira, 15
Estudante, mora em Vila Clara (zona sul); está grávida de seis meses

A abstinência é uma solução difícil. Os jovens devem se prevenir. Muitas vezes a gente não ouve nossos pais e acha que não vai engravidar. Mas acontece.

Eu não planejei minha gravidez. Conversava com o namorado, tinha uma preocupação, mas, na hora do ato, ninguém prestava atenção. Quando o teste de gravidez deu positivo, tomei um soco de realidade.

Perdi a virgindade prestes a fazer 13 anos, com um menino que eu gostava, três anos mais velho. Eu era nova, não sabia das coisas.

Acho que os pais devem ser mais amigos dos filhos. Aconselhar, não dizer que é errado perder a virgindade ou brigar. Todo mundo faz.

Cortam os laços com os filhos, que fazem coisas escondidas e não dão bola para o que falam.

‘QUANDO OS ADOLESCENTES TÊM VONTADE, ELES FAZEM’

Tamires Bonaldi, 17
Caloura de direito, mora em Campo Belo (zona sul)

Quando os adolescentes sentem vontade de fazer sexo, eles fazem. Se todo mundo focar na abstinência, não se falará de métodos contraceptivos e será mais perigoso.

Tudo o que aprendi sobre o assunto foi com amigos e internet. Converso muito com minhas amigas, a gente se apoia. Nunca falei muito de sexo com a minha família, mas nunca disseram que era errado. Acho que o tema precisa ser ensinado nas escolas e os pais devem conversar com os filhos.

Decidi ter relação sexual porque eu quis. Mas existe uma pressão por parte dos meninos de que tem que ser cedo, logo. Vivemos em uma sociedade patriarcal. É preciso conversar com eles.

Sexo deve acontecer quando duas pessoas se sentem confortáveis e íntimas.

Por Julia Zaremba

Compartilhar: