Antirretroviral não traz garantias, por Paulo Lotufo

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(Folha S. Paulo, 02/08/2014) Morreu recentemente Arnold Relman, editor do “The New England Journal of Medicine” (1977-1991), periódico no qual foi publicado, em 1981, o primeiro relato de pneumonia em homossexuais masculinos que seria depois conhecida como Aids. Um ano antes, ele havia publicado um editorial no qual identificava uma nova força econômica e política que seria hegemônica nas decisões relativas à medicina e à saúde
pública: o novo complexo médico-industrial.

O relatório do departamento de HIV da OMS (Organização Mundial da Saúde), que recomenda o uso do medicamento a homossexuais masculinos, como profilaxia para transmissão do vírus, trouxe à memória o preconceito inicial e o aviso de Relman sobre o novo complexo.

Descrita como doenças de homens homossexuais nos primeiros artigos, a Aids criou um movimento cívico sem igual em defesa da vida e da eliminação de preconceitos.

A corrente de opinião criada pelos ativistas foi tão forte que o termo aidético nem sequer se transformou em termo pejorativo como no caso de outras doenças, como tuberculose (“tísico”) e hanseníase (“morfético”).

A parte da proposição da OMS referente a ações não farmacológicas poderá ser discutida melhor por quem há tanto tempo se dedica ao enfrentamento da Aids no Brasil e no mundo. Cabe aqui refutar a proposta do uso de antirretrovirais como profilaxia préexposição a homossexuais masculinos e outros grupos de risco.

Ensaios clínicos como os que avalizaram o uso de antirretrovirais são realizados em condições ideais, distantes do “mundo real”. Como se sabe, na cardiologia, por exemplo, participantes de ensaios clínicos representam não mais do que um terço dos cardíacos hospitalizados.

Os próprios autores do estudo identificaram a presença do medicamento em apenas metade dos sorteados para tomar o remédio e que, após um ano, houve aumento significativo –considerado pequeno pelos pesquisadores– da frequência de sexo inseguro entre os usuários do coquetel antirretroviral.

Fazer uso da profilaxia pré-exposição não é um fato novo na história da saúde pública. Ensaios clínicos revelaram há 25 anos que a aspirina reduz a chance de um infarto do miocárdio. Mas, por que não se propõe que se adicione aspirina ao café da manhã? Pela razão que a prescrição de medicamentos deve continuar sendo foro íntimo da relação médico-paciente.

Os antirretrovirais aumentam a frequência de náuseas e enjoos e pioram a função renal. Isso implica maior responsabilidade médica para decidir quem poderá fazer uso desse coquetel.

Além desse enfoque individual, há um aspecto coletivo, talvez mais grave: o aumento de resistência a antirretrovirais pode prejudicar quem está doente.

Por último, mas não menos importante, é o custo estimado de aproximadamente R$ 40 mil por indivíduo a cada ano. Como se conclui pela leitura do artigo dos proponentes da profilaxia pré-exposição, de cada cincos pessoas tratadas apenas um caso é evitado. Assim, o valor chegaria a R$ 200 mil por infecção evitada por ano.

A conta dessa proposição será paga pelos sistemas de saúde de cada país, ou seja, haverá transferência maciça de recursos de outras áreas já subfinanciadas para pagar o custo do coquetel antirretroviral proposto pela OMS.

Os argumentos anteriores, mais essa transferência de recursos nos sistemas de saúde, nos remete à hegemonia do complexo médico-industrial denunciada por Relman: “Temos que nos proteger das influências indevidas”.

Acesse o PDF: Antirretroviral não traz garantias, por Paulo Lotufo (Folha S. Paulo, 02/08/2014)

 

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