Brasil tem 91 mil suspeitas de zika; dengue e chikungunya avançam

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(Folha de S.Paulo, 26/04/2016) Em pouco mais de dois meses, o Brasil registrou ao menos 91.387 casos prováveis de infecção pelo vírus da zika e vive um novo avanço de dengue e chikungunya, doenças transmitidas pelo mesmo vetor, o mosquito Aedes aegypti. Para o Ministério da Saúde, a situação indica que o país continua a viver uma “tríplice epidemia”.

Os dados de casos prováveis de zika, inéditos, são de boletim epidemiológico divulgado nesta terça-feira (26) pelo Ministério da Saúde. Até então, o país não tinha um sistema de notificação de casos suspeitos de infecção pelo vírus, identificado no Nordeste em abril de 2015.

A opção por tornar a notificação obrigatória ocorreu em fevereiro, quatro meses após o vírus ser associado ao aumento de casos de bebês nascidos com microcefalia, situação que levou o país a decretar emergência em saúde.

Desde outubro, quando iniciaram as investigações, até o dia 23 de abril, já são 1.198 casos confirmados de microcefalia e outros 3.710 ainda em investigação.

Do total de casos de zika, 7.584 são de gestantes atendidas com sintomas da doença, como manchas vermelhas no corpo e coceira, entre outros. Destas, 2.844 já tiveram o diagnóstico confirmado após exames.

Os novos dados mostram que o vírus zika continua a circular no Brasil, mas agora com intensidade maior também em outras regiões além do Nordeste, onde foi confirmado pela primeira vez. Ao todo, os casos estão distribuídos em 1.359 municípios.

“Isso significa um alastramento grande da doença em várias regiões do país, em especial sabendo que, para cada caso de zika notificado, deve haver quatro a cinco casos assintomáticos. E muitos casos sintomáticos não são notificados por se tratar de uma doença leve”, afirma o diretor do departamento de doenças transmissíveis do Ministério da Saúde, Cláudio Maierovitch.

Para o diretor, o número real de casos de zika é ainda maior. “O número é muito superior do que o que está em nossas estatísticas”, completa.

Na comparação entre os Estados, o Rio de Janeiro lidera em número de casos, com 25.930 atendimentos de pacientes com quadro provável de zika. O total é semelhante ao registrado na Bahia, com 25.061 casos.

Já o Mato Grosso, terceiro em número de registros, chama a atenção por ter a maior incidência de casos de zika no país: são 491,7 casos a cada 100 mil habitantes. Essa proporção é dez vezes maior do que a média nacional, de 44,7 casos a cada 100 mil habitantes.

Outra possibilidade, porém, é que os dados sejam superiores em locais onde há melhor organização do sistema de vigilância e, assim, maior contabilização dos casos.

Neste caso, embora os dados indiquem uma alta circulação de zika em alguns Estados, pode haver também outros com índices altos, mas não informados. “Alguns Estados ainda podem estar demorando mais para fazer a notificação”, diz Maierovitch.

AVANÇO DA CHIKUNGUNYA

Além da zika, também crescem no país os registros de chikungunya, cujo vírus foi identificado no país no segundo semestre de 2014. Já são 39.017 casos prováveis da doença somente nos três primeiros meses deste ano, de acordo com o boletim do Ministério da Saúde, que considera os dados entre 3 de janeiro e 2 de abril. No mesmo período de 2015, eram 7.412 registros – um aumento de 426%.

Naquela época, o vírus chikungunya tinha circulação confirmada em poucos municípios. Os principais eram Oiapoque, no Amapá, e Feira de Santana, na Bahia. Agora, todos os Estados já registram casos suspeitos da doença, incluindo capitais – são 1.126 cidades no total.

“Se ao longo de uma epidemia o vírus entra em municípios grandes e regiões metropolitanas, temos um aumento de casos”, afirma o diretor. “Neste ano superamos bastante o número de casos no ano passado e estamos vendo um número de municípios afetados muito maior. Isso é caso de muita apreensão para o Ministério da Saúde e as secretarias de Saúde como um todo”, diz Maierovitch.

A preocupação ocorre porque, além do aumento de casos, também cresceu o número de mortes por chikungunya: já são 15, dez a mais do que o registrado no boletim anterior. Em Pernambuco, há mais de 100 casos em
investigação que podem estar associados ao vírus.

“Tudo isso tem que ser investigado. Não esperávamos mortes, assim como aconteceu com zika”, relata.

Segundo o diretor, é preciso verificar se há outros fatores associados que levaram às mortes, como histórico de outras doenças relacionadas, uso de medicamentos, por exemplo.

EPIDEMIA DE DENGUE

O boletim do Ministério da Saúde aponta também um novo avanço nos casos de dengue, uma das mais conhecidas doenças transmitidas pelo Aedes aegypti.

Após alcançar em 2015 número recorde de casos de dengue, o país registra uma nova epidemia também neste ano. Isso indica que, além de um aumento de casos nos últimos meses, o Brasil também já apresenta alta incidência da doença, com 392,5 casos a cada 100 mil habitantes.

A Organização Mundial de Saúde considera que há epidemia quando há mais 300 casos de dengue a cada 100 mil habitantes. Ao menos 11 Estados estão acima deste parâmetro.

Em todo o país, são 802.429 casos prováveis de dengue, um aumento de 13% em relação ao registrado no mesmo período do ano passado. O boletim abrange dados contabilizados entre os dias 3 de janeiro a 2 de abril.

Já o número de mortes confirmadas por dengue diminuiu neste mesmo período. Neste ano, são 140 casos. Já nos três primeiros meses de 2015, eram 427, uma redução de 67%. Há, no entanto, ainda 307 mortes em investigação, o que pode elevar o número de casos.

Para o Ministério da Saúde, a boa notícia é que, apesar do alto número de registros de dengue, os dados indicam uma redução no ritmo de notificação de novos casos desde fevereiro. Ou seja: a dengue teria avançado antecipadamente, antes do período esperado, e já teria atingido seu auge neste ano.

“Se a curva seguisse o desenho [dos gráficos do ano passado], a tendência seria que vivêssemos a pior epidemia de novo de nossa história. Mas no fim de fevereiro começamos a observar a redução no número de casos semanais”, relata Maierovitch. “A nossa expectativa é que essa curva continue caindo expressando as medidas de prevenção”, afirma.

Segundo ele, a queda pode ser explicada pelo reforço nas medidas de controle do vetor, como visitas a imóveis de todo o país em busca de focos do mosquito. Além da dengue, a expectativa é que estas ações tragam também uma redução de casos de zika e chikungunya a partir deste mês.

“Admitindo que a partir de 1º de janeiro começamos a ter ação concentrada, e sabendo que 100% dos imóveis foram visitados até o fim de fevereiro, devemos ter tido uma redução na infestação por mosquitos”, afirma. “Nosso sistema trabalha com delay para chegada de informações de 15 a 30 dias. Isso traz a expectativa de que, de abril em diante, possamos observar a queda”, relata o diretor.

Nátalia Cancian 

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