Campanha reúne histórias reais e revela barreiras enfrentadas por mulheres que realizaram aborto no Brasil

11 de agosto, 2026 Por Estúdio Verbo

Com site e perfil no Instagram, Seguras para Decidir busca ampliar o debate público sobre aborto e convida mulheres a compartilharem suas experiências de forma segura e anônima

São Paulo, 10 de agosto de 2026 – O aborto já é uma realidade no Brasil. A possibilidade de decidir e atravessar essa experiência com informação, acolhimento e segurança, no entanto, ainda não é garantida a todas as mulheres. Barreiras no acesso aos serviços de saúde, falta de informações confiáveis, desigualdades econômicas, raciais e territoriais, medo de julgamento e risco de punição tornam o procedimento inseguro, inclusive em situações nas quais ele é permitido pela legislação brasileira.

É a partir dessa realidade que Católicas pelo Direito de Decidir lança nesta segunda-feira (10) a campanha Seguras para Decidir. A iniciativa coloca no ar o site segurasparadecidir.org e o perfil @segurasparadecidir no Instagram, reunindo dados, informações e relatos reais sobre o aborto no Brasil. São depoimentos de mulheres comuns, cujas experiências muitas vezes permanecem em silêncio, embora façam parte da vida de famílias, círculos de amizade, ambientes de trabalho e comunidades em todo o país. As histórias são publicadas com consentimento e preservação do anonimato, e outras mulheres também podem enviar seus relatos de forma segura pelo site da campanha.

“O aborto já faz parte da vida das mulheres brasileiras, mas continua sendo vivido no silêncio. Cada história carrega decisões, contextos e sentimentos complexos, que se estendem para além do momento da escolha. Para muitas mulheres, o estigma e o medo da punição permanecem com elas pela vida inteira. Falar sobre aborto é reconhecer uma realidade que já existe. E que afeta a vida de milhares de famílias no país”, afirma Denise Mascarenha, coordenadora executiva de Católicas pelo Direito de Decidir.

Segundo a Pesquisa Nacional do Aborto, uma em cada sete mulheres brasileiras já interrompeu uma gravidez. Todos os anos, cerca de 500 mil mulheres realizam o procedimento no país. Embora revelem que o aborto faz parte da vida de muitas brasileiras, esses números também expõem uma realidade marcada por profundas desigualdades.

O mesmo levantamento indica que mulheres negras, de baixa renda e que vivem em contextos de maior vulnerabilidade enfrentam mais barreiras e estão mais expostas às consequências dos abortos inseguros: mulheres negras têm maior probabilidade de realizar um aborto do que mulheres brancas, representam quase 60% das mortes maternas relacionadas ao procedimento e apresentam uma razão de mortalidade materna por aborto 39% maior.

No Brasil, o aborto é permitido quando a gravidez resulta de estupro, quando representa risco à vida da pessoa gestante ou quando há diagnóstico de anencefalia fetal. Nessas situações, o procedimento deve ser oferecido de forma segura e gratuita pelo Sistema Único de Saúde. Ainda assim, o acesso ao aborto legal pode ser atravessado por demora, desinformação, recusa de atendimento e judicialização. Uma das histórias reunidas pela campanha evidencia essas barreiras ao relatar a trajetória de uma mulher que, mesmo diante de risco à própria vida e com indicação médica, precisou recorrer à Justiça antes de conseguir interromper a gestação e iniciar o tratamento contra o câncer.

Fora dessas três situações, tanto quem realiza o aborto quanto outras pessoas envolvidas no procedimento podem responder criminalmente. De acordo com uma pesquisa do Instituto Update de 2025, 72% das mulheres, independentemente de opiniões pessoais sobre o aborto, concordam que prender não é solução. O dado mostra que apoio e acolhimento são caminhos mais valorizados do que a criminalização.

“As violações e perseguições contra quem realiza um aborto são uma forma de violência de gênero. A legislação atual não atende às demandas concretas das mulheres e cria um cenário de medo e insegurança tanto para quem busca o procedimento quanto para os profissionais que o realizam”, diz Denise Mascarenha.

“Somente a descriminalização pode promover espaços seguros para decidir pela interrupção de uma gestação e garantir direitos constitucionais e reprodutivos. Precisamos criar condições para que esse debate seja feito com informação, respeito e cuidado, porque são mulheres reais que vivem essas experiências todos os dias”, completa.

Visite a campanha em segurasparadecidir.org.

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