Como a crise climática afeta a sexualidade e a reprodução feminina e por que países barram o debate

19 de janeiro, 2026 Folha de S. Paulo Por Geovana Oliveira

  • Casamento infantil, gravidez precoce e perdas gestacionais são consequências do colapso do clima para as mulheres
  • Com receio de facilitar acesso ao aborto, Vaticano e países do Golfo impediram inclusão do tema em textos da COP30

As famílias das terras indígenas de Realejo e Mambira, que ficam na cidade de Crateús, no Ceará, têm tido dificuldades para produzir o próprio alimento nos últimos anos. Um estudo de pesquisadores da UFC (Universidade Federal do Ceará) mostra que o município enfrenta períodos de seca cada vez mais longos e chuvas mais fortes e concentradas.

O relatório Sobre Nossas Terras, Sobre Nossos Corpos, publicado no final do ano passado pela ONG We World em parceria com a Avuar Social, ouviu as mulheres das duas comunidades, que afirmam que a pobreza agravada pelas alterações climáticas tem se refletido em um maior índice de casamento infantil.

Segundo depoimentos de cem pessoas, meninas de 12 ou 13 anos entram em uniões com homens mais velhos em troca de segurança econômica ou abrigo. Embora as comunidades condenem esse tipo de comportamento, diz o relatório, muitas vezes ele é tolerado como resposta à escassez material.

O levantamento, que pesquisou a relação entre mudança climática, gênero e saúde sexual e reprodutiva em comunidades rurais e indígenas no Brasil, no Quênia e na Tanzânia, aponta para a perda de “autonomia sexual e reprodutiva” dessas meninas, que são incentivadas a uma gravidez precoce.

A tendência é confirmada por outros estudos. Em 2022, o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) alertou que a média de casos de casamento de meninas de até 12 anos mais que dobrou em regiões da Etiópia que enfrentavam a estiagem mais grave em décadas.

“As mudanças climáticas costumam ser descritas por ondas de calor, enchentes e secas, mas suas consequências vão muito além disso”, diz Mariana Tavares, assessora de programas da ONG Women Deliver. “Choques climáticos desorganizam os sistemas de saúde, as cadeias de abastecimento e a proteção social, e essas interrupções afetam diretamente a saúde e os direitos sexuais e reprodutivos”.

Na COP30, conferência da ONU sobre mudanças climáticas realizada em novembro em Belém, diplomatas e negociadores tentaram incluir “direitos à saúde sexual e reprodutiva” no Plano de Ação de Gênero, em movimento incentivado por grupos feministas e de direitos humanos.

A menção encorajaria governos e financiadores climáticos a investir em serviços de DSR (direitos sexuais e reprodutivos) resilientes ao clima, como maternidades capazes de operar durante ondas de calor e enchentes, equipes móveis de saúde, estoques de contraceptivos e planos de emergência com cuidados pré-natais e pós-natais. A inclusão, porém, foi barrada pela ação de países conservadores como o Vaticano, além de países do Golfo, segundo observadores e diplomatas ouvidos pela Folha.

Por trás da resistência está o temor de que reconhecer DSR em documentos internacionais possa facilitar o acesso ao aborto. As decisões da COP, no entanto, não são leis vinculantes e não teriam o poder de mudar a legislação doméstica sobre aborto em país algum.

“A preocupação para muitos desses Estados não é o conteúdo climático em si, mas o precedente político que a linguagem direta de DSR poderia estabelecer para futuras discussões de direitos humanos, incluindo acesso a contracepção, aborto seguro e direitos LGBTQIA+”, diz Tavares.

Segundo a ativista, os mesmos Estados e atores atuam há anos para não permitir menção aos direitos sexuais e reprodutivos em outros espaços da ONU, como a Comissão sobre o Status da Mulher e a Comissão sobre População e Desenvolvimento.

Impactos do clima na sexualidade e reprodução feminina

De 2010 a 2020, complicações obstétricas devido a enchentes levaram a mais de 100 mil perdas gestacionais por ano em 33 países em desenvolvimento, conforme estudo publicado em 2024 na revista Nature. Os pesquisadores atribuem o dado a lesões, estresse fisiológico, doenças infecciosas, indisponibilidade de serviços de parto seguro e escassez de água e alimentos.

Florbela Fernandes, representante do UNFPA (agência da ONU para saúde sexual e reprodutiva) no Brasil, afirma que, durante as enchentes no Rio Grande do Sul, muitas mulheres perderam acesso a cuidados de pré-natal, contracepção e serviços de parto seguro porque clínicas foram afetadas ou ficaram inalcançáveis.

Segundo ela, os impactos no Brasil são mais severos para mulheres de comunidades tradicionais, da região Norte e do semiárido do Nordeste. “Enchentes, secas e calor urbano dificultam mobilidade, acesso à saúde e segurança, especialmente para mulheres rurais, indígenas, quilombolas, ribeirinhas e afro-brasileiras”, diz.

A representante do UNFPA afirma ainda que maternidades brasileiras registraram picos de distúrbios hipertensivos e trabalho de parto prematuro durante ondas de calor. Diferentes estudos mostram que o calor extremo causa desidratação, dificulta a regulação da temperatura corporal, eleva a pressão arterial e pode desencadear trabalho de parto prematuro.

Os eventos climáticos extremos também intensificam a violência de gênero, segundo o relatório Colliding Crises publicado em 2025 pela Iniciativa Spotlight da ONU. O estudo aponta que a cada aumento de 1°C na temperatura global há um acréscimo de 4,7% nos casos de violência entre parceiros íntimos.

Temperaturas mais altas elevam a irritabilidade e, segundo o documento, o feminicídio por parceiro íntimo pode aumentar em até 28% durante ondas de calor.

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