É urgente parar de usar “microcefalia” para algo muito mais amplo

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(Marina Pita/Agência Patrícia Galvão, 30/03/2016) Para especialista, correção na terminologia é fundamental para garantir direitos e aprofundar as pesquisas

“Microcefalia é um termo completamente inadequado para usar no caso da síndrome do zika congênita”, afirma o geneticista e especialista em medicina fetal Thomaz Gollop, professor da Universidade de São Paulo. A crítica ao uso equivocado do termo não é preciosismo, pois essa prática, amplamente disseminada pelos profissionais de saúde e da imprensa, tem impacto direto na atenção e garantia de direitos das mulheres e na capacidade de avançar nos estudos para relacionar o vírus a má formações do sistema nervoso central de bebês.

Confira aqui a programação do Seminário Mídia, Zika e os Direitos das Mulheres

Em primeiro lugar, o uso equivocado do termo microcefalia faz com que sejam feitas comparações entre doenças completamente diferentes. Há casos, em que a moleira do bebê fecha precocemente, a cranioestenose, em decorrência de uma síndrome genética, explica Gollop. E, se identificada precocemente, a doença pode ser tratada com cirurgia. Mas não se trata de microcefalia.

Este é o caso, explica o geneticista, de Ana Carolina Dias Cárcere, que ficou conhecida na mídia por ser uma jornalista, supostamente com microencefalia, que aos 24 anos leva uma vida ativa e produtiva. “Ela tem cranioestenose. Foi operada diversas vezes e é absolutamente normal e inteligente. Não tem nada a ver com a síndrome do zika congênita.”

Outros casos levantados pela mídia e criticados por Gollop são de irmãs de idades diferentes e ambas com microcefalia. Estes seriam casos de microencefalia primária, por determinação genética, que também não devem ser comparados com casos de síndrome do zika congênita, que tem como uma de suas consequências – mas não a única – a microcefalia secundária, em que o crânio e o cérebro se desenvolvem normalmente até que, por um evento, ocorre uma lesão. “Pode ocorrer por falta de oxigênio, hemorragia, meningites ou encefalites de origem infecciosa. É o que pode ocorrer no caso de se contrair sífilis na gravidez, por exemplo”, detalha Gollop. Assim, mesmo no caso da microcefalia secundária, não é possível generalizar.

Muito além da microcefalia

O quadro clínico da síndrome do zika congênita por sua vez é muito diversificado. Além da microcefalia estão sendo identificadas calcificações intracranianas, dilatação do sistema nervoso central, acentuada lesão do córtex cerebral, alterações oftalmológicas graves, lesões graves no globo ocular, além de articulações rígidas e dobras no couro cabeludo.

Para o especialista, o fato de haver confusão entre microcefalia e síndrome do zika congênita contribui também  para que seja disseminada uma falsa ideia de tratamento. Alguns governos estariam fazendo autopromoção com promessas de tratamento para os bebês com microcefalia. “No máximo, podemos falar de suporte, mas com resultados limitados”.

Sem entender exatamente do que se trata a síndrome do zika congênita, muitos casos estão sendo colocados na mesma cesta, o que atrapalha o avanço das pesquisas. Também é negado o direito das mulheres de acesso a informação e direito de escolha. Thomaz Gollop falou no Simpósio sobre os Direitos da Mulher, organizado pela Associação dos Advogados de São Paulo (AASP)

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