Pânico e dilemas da zika chegam aos EUA, 1 ano após se espalhar pelo Brasil

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Objeção moral de médicos jamais deveria ser barreira para a mulher ter acesso a todos os serviços que impeçam as consequências potencialmente trágicas da zika, diz Congresso de Obstetras dos EUA

(Folha de S. Paulo, 18/09/2016 – Acesse no site de origem) 

“É menina”, diz a administradora Luciana Coelho, 38. “Vai se chamar Louise.” Grávida de sete meses, a paulista já decorou o quarto (“um mix de ursinhos e anjos dourados”) e organizou seu chá de bebê –usou faixa tipo miss onde se lia “mommy” (mamãe) e cortou o bolo branco com glacê rosa, as mesmas cores do seu vestido longo.

Duas semanas antes da festa, contudo, o site da CNN, um dos principais canais de notícia dos EUA, exibia uma capa assustadora. “Eles estão aqui”, dizia, acompanhada da foto de um Aedes aegypti.

Era para a vida ser doce em Celebration, comunidade projetada pela Disney em Orlando (Flórida). Coelho, que estuda inglês, para lá se mudou em janeiro, com o marido e os outros filhos, Victor, 13, e Victoria, 9. O vírus da zika chegou junto aos EUA, um ano após se espalhar pelo Brasil.

Até o último dia 7, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, 43 pessoas foram infectadas por mosquitos nativos dos EUA, 1,5% do total de casos no país, de 2.964; a maioria contraiu o vírus em viagens.

Por ora, o país computou 17 bebês com danos de nascença, sem especificar quais (se era microcefalia, por exemplo). O Estado mais afetado é a Flórida, em que se estima que vivam 300 mil brasileiros e onde se situam dois ímãs turísticos, Miami e Orlando.

O governo estadual ofereceu testes gratuitos para zika, e em um mês 86 grávidas receberam o resultado positivo. Coelho mora a 380 km do epicentro da epidemia, Miami, e mesmo assim teme engrossar a estatística. Evita ao máximo sair de casa e, quando sai, lambuza-se de repelente –gasta US$ 30 (R$ 100) por mês com os produtos.

Há também o medo de que a zika aja como repelente para o turismo na Flórida, que movimenta US$ 82 bilhões anuais. Parques de diversão já oferecem proteção contra os mosquitos, assim como o álcool em gel virou moda em banheiros após a onda de gripe. A Disney abriu uma seção em seu site, enfeitada com a fadinha azul de “Bela Adormecida”, com medidas de precaução contra o vírus.

Para especialistas, é questão de tempo até que os mosquitos cheguem a Orlando. O pânico cruzou o país: em Nova York (520 casos, todos relacionados a viagens), grandes redes de farmácia exibem “repelentes antizika” no balcão, ponto nobre das vendas.

Fim da picada
O assunto virou até queda de braço política: na semana retrasada, senadores democratas bloquearam um plano que liberaria US$ 1,1 bilhão para combater a epidemia. Motivo: proposto por republicanos, o projeto impede a alocação de recursos na Planned Parenthood, organização que dá assistência a mulheres e distribui contraceptivos –o país registrou ao menos 24 casos de contágio por ato sexual.

Pró-aborto, a rede de clínicas é alvo de fúria de conservadores, que já a acusaram de lucrar com a venda de partes de feto para pesquisa (o que foi negado). Para democratas, seria precedente perigoso minar a ação da entidade.

Familiar ao Brasil, a discussão também se instalou nos EUA –o aborto deve ser permitido para grávidas contaminadas? O dilema moral: o procedimento seria feito antes mesmo de saber se o feto tem defeitos congênitos, já que o diagnóstico só se dá com a gestação avançada (aí, seria tarde para tirar o bebê).

“O Congresso deveria poder cuidar de emergências médicas sem financiar grupo esquerdista pró-aborto”, diz Tony Perkins, presidente do Conselho de Pesquisa da Família e aliado do presidenciável republicano, Donald Trump.

Ele bate de frente com o presidente do Congresso Americano de Obstetras e Ginecologistas, Thomas Gellhaus. “A objeção moral de um médico jamais deveria ser barreira para a mulher ter acesso a todos os serviços que impeçam as consequências potencialmente trágicas da zika”, afirma.

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Evangélica, Luciana Coelho não cogitaria o aborto em hipótese alguma: “Sou a favor da vida. Não podemos decidir quem vai ou quem fica”. Nativa de Miami e da mesma fé, Jessie (que preferiu omitir sobrenome), 22, conta que interrompeu a gravidez ao descobrir que contraiu o vírus. “Eu amo Deus, e sei que ele entenderá que eu não tenria como pagar as contas médicas se algo desse errado.”

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