Estudo aponta violências diversas contra grávidas

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(Correio Braziliense, 31/05/2015) Decisões básicas, como o tipo de parto ou o local onde ele será realizado, muitas vezes, são negadas à gestante, que, por falta de informação ou de infraestrutura, tem seus direitos violados

A decisão entre uma cesárea programada e um parto natural, a escolha do local onde dar à luz. Esses são questionamentos que acompanham os nove meses de gravidez. Dúvidas que aparecem para mães de primeira viagem e para as que já viveram uma gestação. Nesse momento, a informação confiável permite à mulher decidir o que é melhor para ela e para o bebê. Mas nem sempre a vontade prevalece diante das condições encontradas e, muitas vezes, a gestante é exposta ao risco de morrer, conforme mostra estudo divulgado pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), na última quinta-feira. Obstáculos, como falta de resposta  para as dúvidas, poucas salas de parto normal, impossibilidade de estar acompanhada pelo companheiro e demanda maior que oferta nas maternidades, interpõem-se no caminho da grávida. Em alguns casos, para  seguir o que considera mais adequado, é preciso romper paradigmas.

Leia mais:
Hospital deve tornar todo tipo de parto seguro, diz diretor do Santa Joana (O Estado de S. Paulo, 30/05/2015)

Saiba por que os Centros de Parto Normal favorecem a saúde das mães e bebês (Blog da Saúde, 26/05/2015)

A estudante Luísa Cristina de Andrade Petit, 21 anos, tem plano de saúde particular, mas escolheu ter a pequena Luna na Casa de Parto de São Sebastião. Desde o início da gestação, a jovem buscou informações. Conversou com amigas, tias, pesquisou na internet e leu muito a respeito do momento de parir. A forma como Luna nasceria foi assunto nas consultas, do pré-natal ao oitavo mês de gravidez. “Fazia o acompanhamento com um médico do convênio. Quando disse que queria ter minha filha na Casa de Parto de São Sebastião, ele não se opôs. Disse que poderia fazer meu parto natural, mas que custaria entre R$ 10 mil e R$ 20 mil. No fim, afirmou que a escolha era minha”, relembra Luísa.

Receio

A jovem tinha ouvido falar do local por uma amiga. Como queria um parto humanizado, sem intervenções desnecessárias e o mais natural possível, Luísa avaliou que a casa de parto do GDF era a melhor alternativa. “Naquela época, aqui em Brasília, ainda não tinha outras opções. Mal se falava nisso. Eu tinha pavor de chegar em um hospital e ter uma cesárea ou me obrigarem a fazer algo que eu não queria”, explica. Antes de o desejo ser concretizado, Luísa visitou a unidade de atendimento com a mãe, que tinha receios quanto à estrutura em situações de intercorrências. “Mas a visita foi ótima. Eles nos mostraram o local e nos explicaram os tipos de gestante que podem ser atendidos lá.” O pai foi o único contrário, mas não proibiu a escolha da filha.

Na madrugada de 4 de março de 2013, as contrações começaram. Ela pediu à mãe para ir direto à casa de parto. Passou pela triagem, exame de toque e, por fim, foi levada a um quarto. “Queria ter a Luna dentro da água, mas a banheira estava em manutenção. Então, fiquei de cócoras, debaixo do chuveiro. Meu namorado e minha mãe estavam comigo, além do enfermeiro”, conta. Três horas e meia depois, a serelepe Luna veio ao mundo. Dois anos depois, Luísa acredita que a postura do médico e a confiança no enfermeiro que a atendeu foram importantes. Além disso, teve o poder de escolha respeitado.

As mulheres precisam estar bem informadas para parir como desejam, explica a professora da Universidade de Brasília (UnB) e presidente da Rede pela Humanização do Parto e Nascimento (Rehuna), Daphne Rattner. “É importante fazer preparação para o parto, conhecer o que é gravidez e o que é parir, e se cuidar bem, com preparo físico e emocional”, explica. Segundo ela, o conhecimento auxilia até mesmo na escolha do tipo de parto.

Longe do planejado

Por mais que a mulher se prepare, nem sempre o parto ocorre como o planejado. A dona de casa Lilian Leite de Oliveira, 35 anos, passou por duas experiências diferentes. A primeira, aos 18 anos, no nascimento da filha mais velha, Clarice. Na época, Lilian morava em Luziânia. A bolsa rompeu, mas ela não entrou em trabalho de parto. “Era muito novinha. Não tinha experiência. Fiquei em casa esperando a dor, que nunca chegava. Fui para uma consulta de rotina à tarde e a médica fez o maior escândalo e me levou direto para a cirurgia em um hospital particular”, conta.

Na segunda gestação, de Pedro Lucas, ela fez metade do pré-natal na rede privada e a outra metade no atendimento público. Como estava sem convênio e tinha boas recomendações do Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib), Lilian escolheu ter o filho lá. Chegou ao hospital sangrando muito, sem dilatação, e ficou em observação por mais de 10 horas. “No começou, imaginei que seria um caos, mas ocorreu tudo bem.” Os únicos inconvenientes foram o fato de não ter acompanhante na hora do parto e a falta de privacidade no pós-parto. Enquanto se recuperava, ela dividiu o quarto com mais três mulheres. “Eu sabia dos meus direitos. Durante o pré-natal, reclamei muito porque meu marido não poderia entrar na sala comigo. É uma hora em que você precisa de apoio emocional, mas eles falaram que meu direito ia só até o parto normal.”

Palavra de especialista

Falta informação

“O pré-natal é, em geral, muito voltado para a questão fisiológica, principalmente na rede pública de saúde. Na rede particular, alguns profissionais de saúde já têm a preocupação de perguntar como a mulher se sente, mas não é algo estabelecido. Ainda assim, o parto é um tema pouco abordado e frequentemente associado à dor e ao sofrimento. Isso deixa a mulher muito insegura. Por isso, é importante que as gestantes, que os casais busquem se informar sobre as mudanças da gravidez e sobre as opções de parto, para que a escolha seja, de fato, escolha, não indução. O empoderamento, nesse momento, é fundamental, para que a mulher se aproprie, cada vez mais, da gestação e do processo de parto.”

Natalia Almeida Tostes é psicóloga clínica

“Eu tinha pavor de chegar em um hospital e ter uma cesárea ou me obrigarem a fazer algo que eu não queria”

Luísa Cristina de Andrade Petit, estudante

“Eu sabia dos meus direitos. Durante o pré-natal, reclamei muito porque meu marido não poderia entrar na sala comigo. É uma hora em que você precisa de apoio emocional, mas eles falaram que meu direito ia só até o parto normal”

Lilian Leite de Oliveira dona de casa

“O médico diz que está tudo normal. Mas esse normal é relativo, porque está tudo mudando no meu corpo. A gente quer saber por que está bem. Levei minha filha para participar do grupo para que ela tenha segurança”

Maria Izabel Rodrigues, mãe de Iohana, grávida aos 15 anos

A busca por segurança

A troca de informações e de experiências traz segurança e empoderamento para a gestante. Maria Izabel Rodrigues, 46 anos, frequentou o Grupo de Gestantes do Hospital Universitário de Brasília (HUB) há 15 anos. Ela se preparava para o nascimento de Iohana. Hoje, acompanha a filha adolescente, grávida de 11 semanas. “O acompanhamento em grupo de gestantes é muito importante porque, quando você chega na rede pública, não tem um acolhimento. Geralmente, é tudo muito sistemático, frio”, afirma Izabel. Para ela, faltam mais esclarecimentos das mudanças sofridas pela mulher. “O médico diz que está tudo normal. Mas esse normal é relativo, porque está tudo mudando no meu corpo. A gente quer saber por que está bem. Levei minha filha para participar do grupo para que ela tenha segurança”, explica.

A busca pelo protagonismo e pelo empoderamento permeia as experiências de Iohana Cristina Silva de Azevedo, 15 anos. “Eu sou adolescente e, muitas vezes, quando digo para as pessoas que estou grávida, recebo olhares que dizem “nossa, mas você é tão nova. É uma criança parindo outra”. Quero me sentir capaz de parir, de ser mãe”, desabafa. Para ela, o convívio com outras gestantes enriquece a própria experiência. “Me senti acolhida, porque a gente fica em dúvida com muitas coisas. E, no grupo, elas são explicadas. Vejo também que passo pelas mesmas coisas que outras passam”, diz. Para a garota, corpo e coração se preparam para o momento do parto, como um amadurecimento. “Minha preocupação é com o momento do parto, porque tenho medo de não sentir o que as gestantes costumam sentir. Penso em fazer o parto normal, porque quero sentir a experiência. Quero sentir nascer também uma outra Iohana”, planeja.

Oferta é restrita

A superlotação do atendimento de saúde deixa ainda mais distante a aplicação da humanização no atendimento à parturiente e ao bebê. No DF, houve um sutil aumento de leitos obstétricos, entre 2010 e 2014, de acordo com estudo elaborado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM-DF). A pesquisa avaliou a quantidade de leitos disponíveis na rede pública de saúde. Em 2010, eram 554 leitos obstétricos na rede e, em 2014, 597. O incremento se deveu ao aumento da população local, na avaliação da presidente do Conselho Regional de Medicina, Martha Gomes. “Foi uma questão de necessidade de investimento, em razão da grande quantidade de pessoas em idade fértil e da migração de moradores das cidades do Entorno para cá, em busca de melhor atendimento.”

Já em relação a leitos pediátricos, a diminuição foi significativa. Passou-se de 759 para 570 – uma redução de 33% em quatro anos. A situação se explica pela ausência de profissionais na área, o que levou ao fechamento de unidades de atendimento especializadas. “Houve um desinteresse dos jovens para se formar em pediatria por causa das condições precárias de trabalho. Tempos depois, iniciou-se um movimento de valorização da carreira, mas a falta de pediatras ainda é muito grave”, avalia Martha. Segundo ela, questões como sobrecarga de trabalho, falta de insumos e grande demanda dificultam a aplicação do atendimento humanizado. “É muito difícil você oferecer um atendimento sem equipe, sob pressão.

COLABOROU FLÁVIA MAIA

Polêmica na pediatria

Há uma semana, encerrou-se a consulta pública Diretrizes de atenção à gestante: a operação cesariana, colocada para avaliação da sociedade e da comunidade médica pelo Ministério da Saúde. A questão da presença de um especialista em reanimação neonatal foi bastante polemizada, durante o evento. Isso porque o texto considera que, durante uma cesárea em que não há risco para gestante nem evidência de sofrimento fetal, não é imprescindível a presença de um pediatra. A Sociedade Brasileira de Pediatria reagiu, afirmando que não é possível prever ausência de risco. “Crianças que nascem de cesariana eletiva são as que mais precisam de assistência para respiração. Não são só os casos de gravidez de risco que demandam ventilação mecânica do recém-nascido”, critica o presidente da SBP, Eduardo Vaz. O Ministério da Saúde rebate as críticas, apesar de a consideração constar do texto. “O documento reforça a importância da presença de um profissional adequadamente treinado em reanimação neonatal (como pediatra, neonatologista, enfermeiro obstetra, enfermeiro neonatal, entre outros) em cesariana realizada sob anestesia geral ou se tiver evidência de sofrimento fetal. É importante esclarecer que essa orientação não exclui a presença desses profissionais em outras situações de parto e atendimento ao recém-nascido. O Ministério da Saúde reforça ainda a importância da contribuição de entidades médicas e da população em geral para a consulta pública, que esteve aberta até o dia 25 deste mês. No momento, as contribuições enviadas estão sendo analisadas pelo Ministério da Saúde”, informou a pasta, por meio de nota.

Sofrimento e mortalidade

Dificuldade de estrutura e de aplicação de políticas públicas são as barreiras mais comuns interpostas às gestantes. Parir, no Distrito Federal, torna-se, em vários casos, sinônimo de dificuldades e incertezas de atendimento adequado. As poucas vagas em maternidades públicas, as raras salas de parto humanizado em hospitais privados e o desrespeito à lei do acompanhante são problemas recorrentes. O resultado das violações diversas expõe a mulher a mais riscos de morrer por complicações no parto do que por assassinato. Levantamento divulgado pela Codeplan, esta semana, mostra que o índice de mortalidade materna é 53,9 para cada 100 mil bebês nascidos vivos. Em comparação, a taxa de homicídios de mulheres é de 30,3 para cada 100 mil habitantes. Os dados são do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. Entre 2009 e 2013, ocorreram 106 mortes maternas na capital.

Um dos motivos que levam a esse contexto é a baixa qualificação do pré-natal e a resistência de muitos profissionais em relação à humanização do parto. A abordagem humanizada consiste em uma mudança da forma como o serviço de saúde à gestante e ao bebê é oferecido, conforme explica a professora da UnB e presidente da Rede pela Humanização do Parto e Nascimento (Rehuna), Daphne Rattner. “A humanização trabalha com a ideia de que um parto é o nascimento da mulher e da família, no qual a mulher é protagonista. Quando são necessárias intervenções, ela deve participar da decisão. Os profissionais estão muito orientados a atender às pessoas dentro das conveniências profissionais e de serviço, não estão acostumados a compartilhar a decisão”, detalha.

Em um momento de celebração da vida, a assistente administrativa Sayonara Lopes Gonçalves, 27 anos, teve medo de morrer. O trabalho de parto de Henri, 2 meses, foi longo e difícil. Nara havia se preparado, durante toda a gestação, para um parto normal. Fez exercícios com bola suíça, caminhou, praticou hidroginástica e buscou na internet o máximo de informações sobre o momento. No entanto, teve parada de progressão, ou seja, a dilatação foi interrompida antes de a criança ter espaço para passar pelo canal vaginal. “A dilatação estava ocorrendo normalmente, mas, quando chegou a 9cm, parou. Fiquei horas aguardando para que aumentasse a dilatação, mas não ocorreu. Senti muita dor e chegou um momento em que abracei minha mãe e pedi para que ela cuidasse da Laura, minha filha mais velha. Achei que morreria ali”, relembra.

Nara fez pré-natal na rede particular, mas optou por ter o filho no Hospital Materno-Infantil de Brasília (Hmib), pela possibilidade de estar acompanhada do marido. Durante a cesárea, no entanto, ninguém da família esteve com ela. “Eu li muito a respeito da lei do acompanhante e, nela, está escrito que a gestante tem direito a um acompanhante durante o parto. Não há diferenciação entre normal ou cesárea.” Ela reclama também que, quando comunicou o histórico de parada de progressão e pediu a cesárea, o tratamento da equipe mudou. “Eles começaram a ser grosseiros.” Segundo ela, a experiência foi traumática. “Só fico feliz porque foi o dia em que o Henri nasceu. Mas, do restante, não gosto nem de lembrar”, diz. O pós-parto foi menos tumultuado, mas, ainda assim, difícil. “Estavam mais três mulheres no quarto, meu marido e o companheiro de uma delas”, relembra.

Os direitos da gestante

No pré-natal

A mulher tem direito a acompanhamento especializado durante a gravidez. Ela deve ter acesso a exames, consultas e orientações de forma gratuita. Além disso, tem direito de parir e fazer o pré-natal na mesma unidade em que faz os atendimentos.

Legislação: Lei nº 9.263/1986 e Lei nº 11.634/2007

No momento do parto

A gestante tem direito a um acompanhante, por ela indicado, durante todo o período de trabalho de parto, parto e pós-parto.

Legislação: Lei nº 8.080/1990 e Portaria nº 2.418/2005, do Ministério da Saúde

Durante toda a gestação

A gestante tem direito de receber auxílio financeiro do pai do bebê em quantias suficientes para cobrir despesas relacionadas ao período de gravidez e ao parto ou dele decorrentes.

Legislação: Lei nº 11.804/2008

Para o planejamento familiar

A mulher tem direito ao planejamento familiar, de receber informações sobre métodos e técnicas de regulação da fecundidade ou prevenção da gravidez.

Legislação: Lei nº 9.263/1986

Maryna Lacerda , Roberta Pinheiro

Acesse no site de origem: Estudo aponta violências diversas contra grávidas (Correio Braziliense, 31/05/2015)

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