Margareth Arilha fala sobre o Brasil, aborto, feminismo e zika

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(Época, 22/05/2016) Para a psicanalista, é hora de o país olhar os próprios erros e voltar a dialogar nos níveis mais cotidianos, em busca de um caminho diferente

A psicanalista Margareth Arilha é doutora em saúde pública e trabalha, desde a década de 1980, com pesquisas sobre gênero, saúde reprodutiva e políticas públicas. Foi assessora por seis anos da UNFPA, braço da Organização das Nações Unidas responsável por questões populacionais. Margareth milita há mais de 30 anos pelos direitos reprodutivos da mulher. Mas é sua formação em psicologia social que a pesquisadora, hoje no Núcleo de Estudos da População Elza Berquó, da Unicamp, recorre para tentar compreender o momento do Brasil. Margareth acredita que os brasileiros passarão por um período de recolhimento para assimilar a frustração de um projeto que deu errado e mergulhou o país na recessão. Embora esse luto seja necessário, Maragareth ressalta que ele não pode gerar uma depressão. “O sonho do Brasil emancipador, que ia crescer economicamente e, eventualmente, construiria mais cidadania, está trancado. Vai competir à minha geração em conexão com os mais jovens não deixar esse sonho se perder.”

 Margareth Arilhas, Psicanalista e Pesquisadora do Cebrap/Unicamp. (Foto: Anna Carolina Negri/ÉPOCA)

Margareth Arilha, psicanalista e pesquisadora do Cebrap e da Unicamp (Foto: Anna Carolina Negri/ÉPOCA)

ÉPOCA – Como a senhora recebe a notícia de um ministério sem mulheres como o anunciado por Michel Temer?
Margareth Arilha
– Estávamos habituados a ter corpos de mulheres e de negros participando em esferas de poder. A primeira experiência que tive desse tipo foi em 1983, no primeiro Conselho Estadual da Mulher, no governo (Franco) Montoro. As mulheres negras demandaram presença. Quando vemos um conjunto de homens brancos assumindo, é uma cena démodé. Também é certo que só a presença de mulheres nem sempre quer dizer alguma coisa. O que se poderia começar a pensar é se é suficiente ter secretarias específicas ou se, depois de 30 anos, não estamos no momento de um governo em que todos os ministérios pensem as questões da desigualdade de gênero ou de raça. Quero que todos olhem para essas questões e produzam políticas de superação dessas desigualdades. Gostaria de saber se a presença de uma mulher no BNDES (Maria Sílvia Bastos Marques) vai resguardar a preocupação de que políticas de gênero sejam instaladas. Com a indicação da professora Flávia Piovesan para a Secretaria de Direitos Humanos, tenho certeza de que serão. Ela é o quadro mais bem preparado para essa posição.

ÉPOCA – Como a senhora avalia o clima do país?
Margareth
– Moro em Jundiaí (interior de São Paulo), cidade bem estruturada, que cresceu muito de uns anos para cá. É uma cidade próspera. Mesmo lá, tenho visto as pessoas introvertidas, menos divertidas, mais cabisbaixas. Mais focadas no trabalho, num sentimento de “Deixa eu cuidar da minha vida”, como quem está cansado do que tem vivido no mundo público, das cenas que tem sido obrigado a ver, sem conseguir prever o futuro. Esse sentimento vem se agravando há uns seis meses. A desesperança, a impotência, a fragilidade, a angústia. De um lado, há uma cena pública muito acalorada. De outro, as pessoas estão metidas em si mesmas.

ÉPOCA – Quais as consequências dessa frustração?
Margareth
– Elas não precisam ser ruins. O Brasil precisa um pouco disso. É interessante um recolhimento, do ponto de vista psicossocial. “Eu estava acreditando e agora não tenho perspectivas. O que aconteceu?” Todo baque pode ser produtivo, desde que usado como um momento de questionamento, de elaboração. Não se permita que isso gere uma depressão, mas que seja uma força propulsora. Houve uma esperança de grande transformação, uma crença colocada nos governos de Lula e Dilma. Havia expectativa com o partido da ética, da transparência, de empoderamento das classes populares. Parte disso aconteceu, mas não se manteve.

ÉPOCA – O que vem depois desse recolhimento?
Margareth
– O sonho do Brasil emancipador, que ia crescer economicamente e, eventualmente, construiria mais cidadania, está trancado. Vai competir à minha geração em conexão com os mais jovens não deixar esse sonho se perder. O necessário é um processo de reflexão. O Brasil precisa construir uma nova narrativa sobre si mesmo. Precisa assimilar e aceitar os erros que cometeu. Temos essa dificuldade, de tirar o próprio véu e olhar para os fatos. A situação do avanço das bancadas conservadoras no Legislativo, por exemplo, não é uma novidade. Isso está posto há alguns anos. E nós vamos passando por cima dos diálogos, como fazemos com a educação. Vamos ter de reconstruir o Brasil. E vamos ter de fazer isso através da educação. Não só a educação formal, mas com a sociedade civil. Olhar para quem está do seu lado e conversar sobre qualquer coisa que você possa trazer de esclarecimento, de motivação, de empatia.

ÉPOCA – Como construir esse diálogo depois de um período de tanto acirramento?
Margareth
– É difícil quando as posições são tão extremas. Mas sempre acreditei no diálogo, em qualquer nível. É o que pode criar um ambiente de transformação. No Brasil, incrementou-se a capacidade de consumo, mas não a educação e a cidadania. Sem isso, não vamos a lugar nenhum. De novo, a gente cai na educação, mas temos de sair só do livro formal. Demora formar uma pessoa para ela ter capacidade de diálogo, de intervenção. Devemos incrementar mais os diálogos do cotidiano. Apesar das desgraças políticas e econômicas, as pessoas seguem vivendo suas vidas. É aí que devemos intervir. Ninguém dialoga sobre suas opiniões, as diferentes visões de mundo… Será que não dá para fazer uma ponte, um aprender com o outro? Com um Jair Bolsonaro e um Jean Wyllys, talvez seja impossível essa tolerância. Mas as diferenças não estão tão radicalizadas na tessitura do convívio cotidiano. A novidade, a inovação vai sair daí.

ÉPOCA – Que riscos uma bancada conservadora no Congresso representa para as mulheres?
Margareth
– Quando eu acompanhava os debates sobre aborto no Congresso, várias vezes pensava, ao ler relatórios, “mais uma vez esse Eduardo Cunha”. Todo mundo falava dele. Resolvi ler o parecer que ele escreveu. Era um parecer terrível do ponto de vista ideológico, mas brilhante tecnicamente. E eu disse a colegas que tinha alguma coisa mudando ali. Cunha sempre disputava a relatoria dos processos de lei que discutiam o aborto e fazia pareceres muito bem-feitos. É muita habilidade legislativa para usar as regras a seu favor, com uma visão clara de aonde chegar com isso. Antes de ser afastado do cargo, Cunha manobrou para constituir uma comissão (de Defesa dos Direitos da Mulher). Mesmo tendo algumas mulheres na presidência e nas vice-presidências, o conjunto de titulares e suplentes será predominantemente masculino. O risco de retrocesso é muito alto.

ÉPOCA – O governo Dilma conquistou algum avanço?
Margareth
– Efetivamente, as políticas de saúde para as mulheres aconteceram? Não, mas muitas coisas não aconteceram. E não é culpa só do conservadorismo. O debate sobre aborto no Brasil, por exemplo. Será que não houve erro na forma como o debate foi conduzido pelos movimentos sociais? Será que foi bom aceitar não fazer o debate durante as campanhas eleitorais? Eu não estava de acordo com essa postura. Temos de olhar para as coisas que nós não fizemos bem como país. “Esse corpo estava doente e eu não percebi” ou “eu fiz de conta que não vi”. Havia alguns cânceres que não percebemos, ou não tínhamos os remédios adequados, ou fingíamos que não existiam.

ÉPOCA – Temos visto movimentos sociais expressivos, como os feministas e os estudantis. O que eles podem fazer para conseguir resultados mais efetivos?
Margareth
– Estou num projeto sobre zika da Faculdade de Medicina de Jundiaí. Coordeno a parte de saúde mental. Tenho visto o sofrimento e a dor das mulheres no campo da reprodução. A quantidade de perdas, de abortos espontâneos, a tristeza na hora de um nascimento e a pouca percepção de onde ela está inserida, a ausência de acompanhamento e acompanhantes. Dia desses, uma moça de 28 anos me diz: “Eu tô com o quê? Micro o quê? Mas que bicho é esse? É um bicho que deixa a criança meio boba, não é?”. Ela não imagina que, a uma hora da cidade dela, existe um movimento feminista. Devemos sair dos grandes centros. Novamente: expandir o diálogo. Existe uma realidade interessante acontecendo nas capitais, mas, quando você vai para as periferias, nada.

ÉPOCA – Por que o Brasil, depois de três presidentes alinhados à esquerda, não consegue impor uma agenda progressista?
Margareth
– Quando fomos às ruas pelas Diretas Já, há 30 anos, era impossível usar a expressão “planejamento familiar”. Não havia políticas públicas de saúde para as mulheres, havia barreiras enormes nas visões dos partidos, sem falar das barreiras impostas pelas igrejas. Houve uma evolução enorme. Hoje, em um serviço de saúde, a pessoa lhe pergunta qual anticoncepcional você usa, sem constrangimentos. O que parece pouco tempo para mudanças, do ponto de vista histórico, é um tempo curtíssimo. Agora, estávamos num processo de desenvolvimento dessas perspectivas de centro-esquerda. Mas, mesmo nesses processos, deixamos a desejar.

Flávia Tavares

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