Maternidades de SP lotam antes de grandes feriados

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(Folha de S.Paulo, 29/05/2014) A duas semanas da Copa, a seguinte situação está prestes a se repetir: maternidades privadas lotadas nos dias anteriores aos feriados prolongados e vazias nessas datas.

Levantamento da Folha sobre nascimentos em cinco maternidades de São Paulo em 2013 mostra que as cesáreas são ainda mais frequentes em feriados emendados.

A consequência para os bebês, dizem os médicos, é a prematuridade, que aumenta as internações em UTIs neonatais. Para as grávidas em trabalho de parto, o risco é não achar vaga nos hospitais.

Pelo Sinasc (Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos), da prefeitura, o total de cesáreas foi 68% maior na semana anterior ao Natal em relação à semana seguinte, de festas. O mesmo ocorreu em outros feriados. Quando o feriado é numa quinta, a quarta tem 47% mais cesarianas.

Com a chegada da Copa, o pediatra Ricardo Chaves, do Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Rio, diz temer pela saúde dos bebês que nascerem prematuramente.

Para ele, o agendamento dos partos pode trazer riscos. “Não combinamos’ com o bebê de ele nascer naquele dia. E, se combinamos, ele falou que está pronto?”

Chaves diz que os médicos se baseiam na ultrassonografia para determinar o tempo de gestação, mas a avaliação tem margem de erro de 15 dias, para mais ou para menos.

Muitos médicos, segundo o pediatra, fazem a cesariana quando o ultrassom aponta 38 ou 39 semanas, mas o bebê pode estar com 36 semanas, ou seja, prematuro.

“Na mesma proporção que as maternidades ficam lotadas, as UTIs neonatais ficam cheias de bebês com problemas respiratórios por terem nascido antes da hora”, diz.

Segundo a obstetra Carla Polido, professora da UFSCar, as cesarianas sem indicação médica predominam no Brasil. No país, 52% dos partos são feitos pela cirurgia. A Organização Mundial da Saúde recomenda 15%. Na rede privada, o índice supera 80%, como será divulgado hoje (29/5) na pesquisa feita pela Fiocruz “Nascer no Brasil”, com quase 24 mil mulheres.

Dias antes do feriado de 1º de maio, as maternidades dispensavam pacientes logo na recepção. Foi o que aconteceu com a administradora Danielle Coutinho, 33, que chegou ao hospital São Luiz, no Itaim Bibi (zona oeste), em trabalho de parto na madrugada de 25 de abril. “Eu não tinha condições de sair de lá.”

Danielle, que queria o parto normal, acabou encaminhada para uma cesárea devido a uma complicação.

Com um bebê de 40 dias, a assessora de investimentos Jéssica de Paula Baeta teve uma infecção urinária que atingiu os rins. Precisava ser internada na maternidade com a filha, já que o bebê se alimenta só de leite materno.

Em 24 de abril, no São Luiz, foi informada de que só poderia ficar no pronto-socorro, pois não havia quartos disponíveis. “Tentaram os hospitais Albert Einstein, Santa Joana, Santa Catarina, e não havia vaga”, diz Jéssica, que pode optar pelo atendimento em casa, disponível em seu plano de saúde. “E se não pudesse?”

O São Luiz afirma que houve aumento de demanda na semana anterior ao feriado, mas que as pacientes receberam atendimento necessário.

Colaboraram ANDRÉ MONTEIRO e MARCELO SOARES

‘Programei meu parto como se estivesse planejando um projeto’

Meu filho nasceu às vésperas da Páscoa de 2013. Não houve pressão médica para isso. A decisão foi minha.

Vi que completaria 38 semanas na Semana Santa. Comecei a fazer contas, como se estivesse planejando um projeto. Decidi que ele nasceria na quarta-feira, assim, estaria no hospital na Sexta-Feira Santa, feriado, e as pessoas poderiam nos visitar.

O que eu não sabia é que o bebê tem uma janela de cinco semanas para nascer. Isso significa que posso ter forçado o nascimento de meu filho até um mês antes do normal.

Quando estava no quarto, após o parto, minha médica ligou, dizendo que era perfeitamente normal e que eu não deveria me alarmar, pois até ela tinha ficado na UTI ao nascer. Reuni forças para perguntar: “Ele está na UTI?”.

Meu marido subiu do berçário dizendo que ele ficaria um ou dois dias na UTI com oxigênio. Fui de cadeira de rodas até lá. Não era “só” oxigênio. Ele estava em um aparelho que o ajudava a respirar, além de ter acesso para soro em seu pezinho.

As enfermeiras perguntavam por que ele havia nascido prematuro. E eu dizia: ele não é prematuro. As 24 horas se transformaram em longos oito dias na UTI.

Em casa, lendo sobre o assunto, descobri que o trabalho de parto prepara o pulmão do bebê. Todo bebê tem água no pulmão, que expele ao nascer. O meu não expeliu porque não teve trabalho de parto. E fui descobrindo o que minha ignorância tinha impedido de acontecer.

Embora não haja resquícios de doenças, ele teve, depois que entrou na escolinha, três problemas respiratórios. Peso e altura são sempre um pouco baixos, como se fosse mesmo prematuro.

Reconheço o valor de uma cesárea necessária, mas agendar um parto a partir do calendário? Foi um absurdo.

Hoje, estou grávida do meu segundo filho. Se tudo correr bem e eu tiver uma gestação de baixo risco, devo fazer meu parto em casa.

VIVIAN REGINA MARQUES, 31, empresária, é mãe de Joaquim e está grávida do segundo filho.

Entidades médicas reconhecem que existe lotação

As duas principais entidades que representam os obstetras e ginecologistas reconhecem que a lotação das maternidades às vésperas de feriados é recorrente e dizem que a única explicação é o “parto com hora marcada”.

O médico Corintio Mariani Neto, secretário-geral da Sogesp (Associação de Obstetricia e Ginecologia de SP), diz que as cesáreas são agendadas por comodidade do profissional e da gestante.

Ele recomenda que os profissionais aguardem a mulher entrar em trabalho de parto e, caso agendem uma cesárea, optem em fazer isso após a 39ª semana de gestação.

A obstetra Brena Melo, conselheira da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), diz que as gestantes precisam se informar sobre os riscos antes de aceitar agendar o parto.

Em boa parte da Europa, as cesáreas eletivas não acontecem sem real indicação.

Nesses países, as gestantes em geral são atendidas por parteiras, que encaminham o caso para os médicos apenas quando há alguma intercorrência mais grave.

As direções dos hospitais Santa Joana e Pro Matre informaram que os agendamentos são controlados e que é dada preferência para internações de urgência.

O Einstein disse que na semana que antecedeu o último feriado houve o número habitual de cesáreas agendadas. O hospital Santa Catarina informou que “seus leitos atuais atendem a demanda relacionada aos partos emergenciais”.

Acesse os PDFs: Maternidades de SP lotam antes de grandes feriados‘Programei meu parto como se estivesse planejando um projeto’ e Entidades médicas reconhecem que existe lotação (Folha de S.Paulo, 29/05/2014)

 

 

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