Morte, julgamento e prisão: elas abortaram e falam sobre a “culpa”

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(Universa, 29/01/2019 – acesse no site de origem)

Abortar é um crime no Brasil desde 1985, de acordo com o Código Penal. Uma mulher que causar ou autorizar a interrupção da gravidez pode ficar detida de um a três anos. Ainda assim, de acordo com a Pesquisa Nacional do Aborto, mais de meio milhão de mulheres abortam anualmente no Brasil. O procedimento é “acessível”: pode ser feito com um remédio que custa R$ 500 ou por procedimentos cujo valor fica por volta de R$ 5 mil. Assim, é bem possível que você divida a baia do trabalho ou beba uma cerveja com uma mulher que já fez um aborto.

Muitas das pessoas que passaram pela situação não se arrependem da decisão, mas se sentem “culpadas”. As causas da angústia podem ser a religiosidade — as mulheres acreditam que serão punidas por uma força maior —, o medo de serem denunciadas por médicos e também de ser o alvo de dedos acusadores de conhecidos.

A Universa conversou com algumas mulheres que vivem todos os dias com esse peso nas costas. Veja:

 

“Achei que não seria mãe”
“Eu fiz um aborto há 10 anos. Fiquei com medo de tomar o remédio, então fiz o aborto em um hospital. Antes de tomar uma decisão, marquei uma consulta para entender o procedimento e ter mais informações.

Depois da consulta, voltei para casa para pensar e conversar com o pai da criança. Quando contei, ele jogou a decisão na minha mão. Disse que eu podia fazer o que eu quisesse, que eu podia ter o filho, mas que ele não queria o bebê. Como me vi sozinha, fiquei com medo. Então fui ao banco, fiz um empréstimo de R$ 3 mil e agendei o procedimento.

Fui para o hospital sozinha. Na verdade, eu não estava certa da decisão quando cheguei lá. Até pensei em voltar atrás, mas foi o medo de enfrentar tudo sozinha que fez com que eu abortasse. Então só fui.

Depois do procedimento, eu vivi um pesadelo por uns quatro meses por estar me sentindo culpada. Chorava bastante, emagreci muito. Foi uma tortura psicológica, mas não cheguei a ter depressão. Até hoje eu me sinto assim, mesmo já tendo atualmente uma filha e com um outro bebê a caminho. Fiquei com medo de ficar infértil, achei que Deus ia me castigar e nunca mais poderia ser mãe.

Como se fosse uma decisão que me afetaria a vida toda. Nunca contei que fiz um aborto para nenhum médico.

Só o tempo me fez entender. Não me arrependo do que fiz, porque era o que eu tinha que fazer. A parte que me pega é que fui covarde só porque fiquei com medo de fazer tudo sozinha. Eu podia ter desenrolado aquela situação. Mas ficou como um aprendizado, me ajudou a enfrentar as coisas de uma maneira melhor.”

Carolina Sanchez, 28, analista de sinistros, de São Paulo (SP)

 

“Sentia que todo mundo me julgaria”
“Meu marido tinha acabado de se formar em medicina e fomos morar em um apartamento pequeno no centro de São Paulo (SP). Não tínhamos nada de dinheiro. Os primeiros plantões deram calote no meu marido, eu era freelancer e não tinha renda definida. O pouco que conseguimos juntar, gastamos mobiliando a casa. Exatos 20 dias após mudarmos, descobri que estava grávida.

Eu nunca tinha pensado na possibilidade de ser mãe. Eu já fazia parte do grupo das mulheres “estranhas” que não queriam ter filhos. A partir dali, entrei também para outro grupo: o das mulheres que abortam.

Eu tinha muito medo de morrer. Meu marido tinha acabado de sair do internato, onde viu mulheres chegando no Pronto-Socorro com hemorragia por terem usado remédio. Ou elas morriam ali mesmo no hospital ou o médico-professor ligava para a polícia buscá-la. Achei que seria a próxima, por isso decidi fazer o procedimento em uma clínica.

Pedi o contato do médico com uma amiga e fui à consulta. Ele me explicou o procedimento, a anestesia, o pós-cirúrgico e o valor. Voltei alguns dias depois para fazer o aborto, que não demorou mais de 15 minutos.

Não me arrependo de ter abortado. Eu continuo não me vendo como mãe e muito menos como mãe naquela época. O que te faz sentir culpa é a cultura social. Não é muito diferente da culpa que sinto quando saio de shorts em um dia de verão e sou assediada.

A sociedade sente-se à vontade para opinar sobre o corpo das mulheres. Muita gente aborta, mas as mulheres têm muito medo de serem julgadas caso contem isso numa mesa de bar. Eu tinha medo de que meus amigos apontassem os dedos para mim por causa da minha decisão. Não tenho religião, mas achava o tempo todo que ia para o inferno e que Deus nunca iria me perdoar. Eu também morria de medo de ser denunciada. Eu me sentia como uma traficante.

Esse sentimento murchou há pouco tempo, quando uma amiga que mora na Austrália engravidou e abortou legalmente. Lá, ela conseguiu conversar sobre o assunto no bar, na yoga, no trabalho. Assim como conversa sobre a pinta que tirou ou o silicone que colocou. Ela me abriu os olhos para que eu entendesse que a culpa que sentia não era minha, era do outro. Eu escolhi, portanto, não carregá-la mais.”

M. M., 29, jornalista, de São Paulo (SP)

 

“Tinha medo de ser denunciada”
“Eu estava com 18 anos, tinha acabado de entrar na faculdade, mudei de cidade para fazer o curso. Estava começando a me relacionar com um cara que foi meu melhor amigo a vida toda. A gente estava junto há seis meses.

Na festa do meu aniversário daquele ano, que comemorei na minha cidade-natal, as pessoas comentaram que os meus seios estavam enormes e resolvi fazer o exame. Fui ao hospital e fui atendida por uma pessoa que conhecia minha mãe, mas não me preocupei por causa da ética médica.

O exame deu positivo. Quis morrer, liguei para o meu namorado e chorei muito. Eu ficaria o mês todo na minha cidade por causa das férias, então ele foi para lá também. Decidimos que não teríamos o bebê. Nem por um segundo pensei em continuar a gravidez.

Acho que este é o meu único ‘arrependimento’. Eu tomei a decisão certa, mas de forma errada. Se eu tivesse pensado melhor, teria chegado à mesma conclusão, porém eu não teria um peso tão grande por tanto tempo.

Um amigo conseguiu o remédio para interromper a gravidez. Para pagá-lo, peguei todo o dinheiro que tinha na conta e o salário do meu estágio. Em alguns dias, recebemos a caixa de remédio.

A gente estava bastante desesperado em relação ao tempo, porque ele estava passando. Voltei para a cidade onde estudava e fiz os procedimentos em casa, sozinha. Meu namorado disse que não poderia me acompanhar porque tinha coisas para fazer. Foi horrível.

Passei muito mal. Vomitava e tive diarreia de dor. Achei que ia morrer, mas não podia falar com ninguém sobre o que estava fazendo. Em um momento de desespero, fui ao hospital e sentei na recepção, sem falar com ninguém. É que eu pensava que, se eu começasse a perder a consciência, ali alguém poderia me ajudar.

A gente namorou por oito anos, mas evitou falar sobre o assunto por muito tempo. Ele tinha muito medo que eu contasse o que rolou para alguém, quem quer que fosse. Isso me deixava ainda mais culpada.

Depois do aborto, demorei dois anos para ir ao ginecologista com medo de ele perceber alguma coisa, achava que ele poderia desconfiar e me denunciar. Achava que estava podre por dentro. Tive esse medo por 10 anos, mas as coisas melhoraram quando o crime prescreveu.

Além disso, achava que tinha feito algo muito errado, que Deus iria me punir por isso. Eu sempre tive muito medo de não poder ter filhos depois disso, mesmo eu sabendo que estava tudo bem com a minha saúde. Atualmente, estou grávida.”

M.P, publicitária, 30 anos, de Belo Horizonte (MG)

 

Natália Eiras

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