Quando o preconceito pode matar, por Luiz Antônio Teixeira Jr.

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(O Globo, 04/04/2014) A vacinação nacional contra o HPV, o vírus transmitido sexualmente que é o principal causador do câncer de colo de útero, teve início em 10 de março para todas as meninas entre 11 e 13 anos de idade, com o objetivo de imunizar 80% deste público-alvo em todo o país. A campanha, no entanto, vem enfrentando resistências, principalmente por parte de religiosos e dos pais que temem estar de alguma forma estimulando a iniciação sexual precoce de suas filhas.

É compreensível que pais e mães tenham uma preocupação a respeito de uma vacina que age como profilaxia a uma doença grave que pode ser causada por transmissão sexual, já que este assunto é permeado por tabus e dogmas. Mas é importante ressaltar o caráter preventivo e de longo prazo desta vacina, que vai imunizar as meninas para que, até a vida adulta, elas estejam protegidas contra esta que é uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns em todo o planeta.

Para se ter uma ideia, o câncer de colo de útero, que tem como principal causa a infecção pelo HPV, é o terceiro tipo mais frequente entre as mulheres brasileiras, e causa nada menos que 270 mil mortes por ano em todo o mundo. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer estima o surgimento de 15 mil novos casos, e cerca de 4.800 óbitos em 2014. A imunização é uma proteção para toda a vida, para evitar que milhares de mulheres morram por causa de uma doença que pode ser prevenida.

Por isso, mais de 50 países já adotaram com sucesso a vacinação, sempre começando em faixas etárias que ainda não iniciaram sua vida sexual, por esta ser também uma idade em que se consegue obter a melhor resposta imunológica para a vacina. A metodologia adotada pelo Brasil segue o modelo recomendado pela Organização Pan-Americana de Saúde, e visa ao médio e ao longo prazos, imunizando as meninas hoje para que as mulheres do futuro não corram o risco de desenvolver esta doença. É importante destacar também a segurança da vacina, que já teve 134 milhões de doses distribuídas desde 2006 em todo o mundo, sem ter causado as reações adversas que vêm sendo falsamente noticiadas na internet.

Esta vacinação é uma conquista importante, que disponibiliza para a população uma arma contra esta doença — até então disponível apenas para quem pagasse caro por ela (cada uma das três doses necessárias custava R$ 400 em clínicas privadas). É mais um instrumento que, aliado a exames regulares e visitas ao médico, vai evitar a morte de milhares de mulheres todos os anos. A desinformação e o preconceito, neste caso, podem matar.

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