Realização de mamografia aos 40 anos gera polêmica em debate na Procuradoria da Mulher

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(Senado Notícias, 15/10/2015) A polêmica a respeito da realização de mamografias de rastreamento visando à detecção precoce de câncer de mama em mulheres a partir de 40 anos surgiu em uma audiência pública promovida pela Procuradoria da Mulher, nesta quinta-feira (15).

Se por um lado o Ministério da Saúde enfoca o rastreamento acima de 50 anos, por considerar mais efetiva na redução da mortalidade, a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) defende que não se deixe desamparadas as mulheres com idade entre 40 a 49 anos, que representam 25% das mulheres com risco de desenvolver a doença.

Ao citar estudos com populações de países europeus e recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) que desaconselham o rastreamento nas mulheres mais jovens, o coordenador-geral de Média e Alta Complexidade do Ministério da Saúde, José Eduardo Fogolin, apontou o elevado risco de falsos positivos ou de detecção de tumores que não se tornariam câncer nesse grupo, o que gera tratamentos desnecessários, para justificar o exame mamográfico aos 50 anos. É a partir desta idade que se concentra a maioria dos casos da doença, observou. Caso contrário não supera os riscos, como a exposição à radiação.

— Não é o Ministério da Saúde que fala, é a OMS — disse Fogolin.

Fogolin ressaltou que as mamografias não foram eliminadas para mulheres mais novas e que, havendo orientação médica nesse sentido — considerados fatores de risco como histórico familiar ou suspeitas que precisem de elucidação — não existe limitação de idade para acesso ao exame pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

O presidente da SBM, Ruffo de Freitas, por sua vez, lembrou que a incidência de câncer de mama tem se elevado em todas as faixas etárias no Brasil e no mundo, mas especialmente entre 40 e 59 anos, numa taxa de 5,5% ao ano. Para ele, excluir as mulheres até 49 anos da realização de exames preventivos, prática que tem sido adotada pelo Ministério da Saúde ao fazer campanhas somente para as mulheres mais velhas, é restringir direitos.

Ruffo também citou estudos que detectaram redução da mortalidade de mulheres que fizeram com regularidade o rastreamento antes dos 50. No Canadá, a redução chegou a 44% e, no Reino Unido, a 25%. Por isso, a SBM recomenda o exame a partir dos 40 anualmente.

— Isso faz a diferença, e pode salvar a vida de mulheres — defendeu.

O médico da SBM lembrou ainda que, ao detectar o tumor inicialmente, já é possível realizar a mastectomia sem que a mulher precise enfrentar quimioterapia para reduzir o câncer. Isso significa mais economia para o governo, já que uma mamografia é bem mais barata que o procedimento cirúrgico.

A senadora Lucia Vania (PSB-GO), que presidiu a reunião, e a deputada Carmen Zanotto (PPS-SC) defenderam o direito à realização do rastreamento para as mulheres de 40 anos. Proposta nesse sentido foi aprovada pela CAS esta semana. A deputada é a autora de lei que obriga o Ministério da Saúde a disponibilizar o exame de mamografia a partir dos 40 anos de idade.

Financiamento

José Eduardo Fogolin anunciou a realização de oficinas para detalhar um plano de ação em oncologia para expandir a radioterapia no país. Ele explicou que houve aquisição de 80 aceleradores lineares para a realização do procedimento, mas que, junto com a compra, é necessário fazer a construção de uma espécie de bunker, já que o aparelho lida com energia nuclear, o que tem atrasado o uso.

— Alguns estados brasileiros têm déficit visível de aparelhos de radioterapia, mas em outras ele é subutilizado. A previsão é de que, em quatro anos, com o plano de ação, se reduza essa lacuna — explicou.

O gestor também alertou para a urgência em se discutir o financiamento do sistema público de saúde. Ao contrário do que costumeiramente se difunde, disse Fogolin, o problema não é necessariamente de gestão, mas também de financiamento. Na opinião dele, os recursos para bancar o sistema gratuito e universal a mais de 200 milhões de habitantes precisam ser revistos, pois há riscos de ele não ser mais sustentável. Ele incentivou todos a participarem da Conferência Nacional de Saúde, a ser realizada em dezembro, para discutir o tema.

Aspectos psicológicos

A vice-presidente da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia, Giselle de Fátima, destacou aspectos psicológicos que atingem a mulher com câncer de mama e toda a sua família. A auto-imagem é impactada quando ela perde o cabelo, emagrece, não se reconhece na frente do espelho, perde a independência, não se sente mais mulher.

— Agora ela é só uma mulher com câncer, e isso afeta seu funcionamento biopsicossocial — disse.

Ela ressaltou que toda a família também se desestrutura, seja pelo medo da morte, seja pela impossibilidade de a pessoa que costumeiramente trata dos detalhes da estrutura familiar continuar a cuidar da casa. Por isso, é importante que se ofereça a assistência psicológica à doente e à sua família, que está prevista em lei, mas é encarada como um luxo.

— Trato humanizado dos profissionais que atuam no combate ao câncer, suporte psicossocial e apoio à família são essenciais — afirmou.

A professora Antonieta Lucena trouxe sua experiência como paciente em tratamento. Com histórico familiar de câncer de mama, ela faz mamografia de rastreamento desde os 30 anos. Apesar de ter feito a última em fevereiro de 2014, em junho suspeitou do endurecimento repentino do bico do seio esquerdo. Foram três meses de erros médicos, de confusões com displasias mamárias, até o diagnóstico. Ela precisou passar por quimioterapia para reduzir o tumor e, em maio de 2015, fez a mastectomia radical. Há quase dois meses fez sua última sessão de radioterapia e, após se recuperar, fará a reconstrução.

A audiência pública promovida pela Procuradoria da Mulher integra o projeto Pauta Feminina, que uma vez por mês debate um assunto de interesse das mulheres. É um evento conjunto com a Procuradora da Mulher da Câmara dos Deputados.

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