Sob a mira dos conservadores, clínicas de aborto fecham nos EUA

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Procedimento é legal, mas seis Estados só têm um centro autorizado; Kentucky pode ficar sem

(Folha de S.Paulo, 27/02/2018 – acesse no site de origem)

Uma faixa branca na calçada em frente à última clínica de aborto do Kentucky, um Estado rural e conservador no miolo dos EUA, funciona como um cordão de isolamento. Alertas em letras pretas maiúsculas pedem que ninguém ultrapasse aquele ponto, mas manifestantes atropelaram a ordem, escrevendo por cima “Deus domina”.

Mulheres que chegam para consultas atravessam um corredor polonês de religiosos contra o aborto brandindo cartazes e terços. Alguns rezam e outros gritam que elas não vão deixar de ser “a mãe do bebê que vão matar”.

“Isso está arruinando o nosso país”, dizia a enfermeira aposentada Myrna Owen, na entrada do prédio. “Corta o meu coração saber que essas mulheres entram aqui para matar seus filhos. Elas vão se arrepender ainda, vão ter muitos pesadelos com isso.”

Um alarme agudo soa sempre que alguém passa pelas portas de metal da clínica, e uma enfermeira surge atrás do balcão protegido por um vidro blindado. Ela só deixa entrar quem tem hora marcada, e os corredores, mesmo o que leva até a sala de espera, ficam fechados o tempo todo.

O pequeno prédio no centro de Louisville, a maior cidade do Kentucky, está agora no olho do furacão de uma batalha acirrada contra o direito de interromper a gravidez conquistado há 45 anos pelas mulheres americanas.

Outros cinco Estados do país —Dakota do Norte, Dakota do Sul, Mississipi, Virgínia Ocidental e Wyoming também só têm uma clínica de aborto depois que várias fecharam as portas ao entrar na mira de governos regionais conservadores, mas o Kentucky pode se tornar o primeiro deles sem nenhuma.

Faz um ano que o último centro autorizado a fazer esses atendimentos aqui tenta continuar aberto depois de ser desafiado nos tribunais pelo governo estadual, que passou a fazer novas exigências para que a clínica opere.

Uma delas obriga médicos a realizar um ultrassom antes da cirurgia e deixar que a mulher escute os batimentos cardíacos do bebê, na tentativa de demovê-la. Outra exige que as clínicas tenham acordos de remoção e transporte de pacientes para hospitais em casos de emergência, o que todo centro médico já precisa fazer por lei.

“Todo o sistema está armado para dissuadir a mulher de abortar e seguir adiante com uma gravidez indesejada em vez de escolher o que é melhor para ela”, diz Elizabeth Nash, especialista em legislação sobre o aborto neste país onde cada Estado pode elaborar regras diferentes, criando o que ela chama de “colcha de retalhos” jurídica.

CERCO

O cerco ao aborto, alvo de mais de 400 novas restrições em 33 Estados ao longo dos últimos sete anos, vem se fechando cada vez mais desde que Donald Trump assumiu o comando da Casa Branca.

Mesmo que o governo federal não possa se intrometer na questão, o presidente vem apontando juízes ultraconservadores para postos nos principais tribunais, podendo alterar a interpretação da lei até na Suprema Corte e, temem os oponentes, abrir o caminho para uma eventual extinção do aborto.

“Temos um governo federal muito hostil ao aborto e a possibilidade de ver medidas restritivas avançarem no Congresso”, diz Nash. “Essas são as novas camadas da cebola de regras para acabar com a prestação desses serviços.”

Mas enquanto juízes debatem os limites da lei, a temperatura sobe em Louisville, onde a decisão sobre o destino de sua última clínica pode sair a qualquer momento.

No ano passado, numa das manifestações mais veementes desde a década de 1990, o pastor Joseph Spurgeon, que lidera protestos no Kentucky, levou fiéis para bloquear a entrada da clínica e distribuiu panfletos com retratos de seus médicos e enfermeiros na mira de um fuzil.

“Expor essas pessoas é um ato de Deus, é para que tenham vergonha do que fazem”, diz o pastor. “Eles é que estão cortando crianças em pedacinhos e jogando no lixo. Depois ficam zangados que contamos o que eles fazem, mostramos as fotos. Todo aborto é um assassinato.”

Manifestante com cartaz pendurado no pescoço com a frase 'Escolha a Vida' chega a ato contra o aborto em Washington

Manifestante com cartaz pendurado no pescoço com a frase ‘Escolha a Vida’ chega a ato contra o aborto em Washington (Foto: Eric Thayer – 19.jan.2017/Reuters)

Rusty Thomas, líder da Operação Salve a América, um grupo antiaborto com sede no Texas e tentáculos por todo o país, também se juntou a Spurgeon e tem vindo a Louisville para os protestos.

“Estamos tentando salvar vidas enquanto eles derramam o sangue inocente”, diz Thomas, que chama a clínica de “campo de concentração” e “usina da morte”. “Eles são os criminosos, os terroristas, os caras do mal e perigosos que deveriam ser temidos.”

Mas mulheres que decidiram abortar também temem esses manifestantes. Cheyenne, mulher do agente penitenciário BrandonJohnson, foi insultada na entrada da clínica, contou o marido, que a esperava do lado de fora.

“Eles partem para cima mesmo, gritaram com ela quando nem sabem da nossa situação”, disse Johnson. “Eles acham que somos contra crianças, mas não sabem como foi difícil tomar essa decisão. Também não é fácil saber que eu não vou mais ser pai daqui a pouco, e esse pensamento vai me assombrar.”

O clima agressivo nos arredores da clínica levou ao surgimento de voluntários que escoltam pacientes até a porta para evitar confrontos.

Meg Stern, que também dirige um fundo de apoio a mulheres que precisam de dinheiro para pagar pelo aborto ou de ajuda com transporte, hospedagem e tradução do inglês para outras línguas, está entre esses voluntários.

“Sou perseguida por fazer esse trabalho. Já fui agredida e sou treinada para saber quando alguém está me seguindo”, ela diz, logo depois de deixar a clínica.

“É muito estressante e assustador. Não tenho vergonha de ser uma ativista, mas o povo nessa parte do país só ajuda a perpetuar o estigma do aborto.”

Silas Martí

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