A vida ainda pulsa para além dos fanatismos religiosos, por Gisele Pereira

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Acreditar que uma mulher após ter sofrido violência sexual deve gestar por até 9 meses é um senso perverso da realidade.

(CartaCapital, 15/11/2017 – acesse no site de origem)

A propósito do “queimem a bruxa” e “morram aborteiras” me lembrei de um texto de fato memorável de Saramago publicado na Folha de São Paulo em setembro de 2001, não é preciso dizer a ocasião que o motivou. O texto intitulado O fator Deus recordava que “de algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus.”

“Quando eles queimam as bruxas,
é porque acreditam na magia!”
Judith Butler

Não é novo, muito menos espantoso, o paradoxo da virulência da pretensa “defesa da vida” também em nome de Deus. A moral que lhes sustenta na defesa de um embrião é ineficaz para coibir o desatino virulento que desconsidera, quando não exige de maneira envaidecida, a morte de mulheres. À moda medieval ou contemporânea, não importa, desde que aquelas que ousam decidir sejam eliminadas. Afinal, “defender a vida” de forma abstrata e covarde é o que mais importa.

A PEC 181, aprovada pela comissão especial da Câmara tem como objetivo proibir que mulheres tenham direito a serviços públicos, seguros e gratuitos de interrupção de gravidez em qualquer circunstância, ou seja, até mesmo em caso de estupro e de fetos anencéfalos.

O ataque a esses dois permissivos legais é emblemático do quão abstrato é o conceito de vida para os fundamentalistas. Afinal, buscam na suposta literalidade dos fundamentos (textos sagrados) explicações para o que é a existência.  A verdade é que dificilmente a encontrarão em páginas editadas, embaladas e expostas em vitrines de livrarias sob o nome de “bíblia sagrada”. Parece razoável, mas em tempos sombrios, o óbvio sofre as mais duras censuras.

E falando em razoabilidade, acreditar que uma mulher após ter sofrido violência sexual deve gestar por até 9 meses, e em seguida assumir os cuidados por uma nova vida, ou mesmo, simplesmente deixá-la aos cuidados de outrem, mais que uma ofensa a simples razão, é um senso perverso da realidade.

Aqueles 18 homens que votaram pela PEC 181, apoiados por boa parcela conservadora, desprezam  em primeiro lugar o impacto das marcas indeléveis deixadas na vida das mulheres que passam por esta experiência abominável. Do fundo à superfície, 18 homens praticaram desprezo violento pelas mulheres. De outra parte não nutrem nenhum tipo de empatia por esta vida pós uterina que, além dos obstáculos que enfrentará, vem carregada com o peso de ser fruto de uma violência hedionda.

Não há como forçar uma mulher a ignorar suas dores, cicatrizar suas feridas e isolar o desenvolvimento de uma nova pessoa, que se dá dentro e dependente dela mesma, de todo sofrimento que passou. Se assim o conseguir, será somente por um ato absolutamente voluntário, o que mesmo assim não significa que seja um processo desprovido de dor e conflitos. Ninguém assumirá este peso em seu lugar. Ninguém deveria, portanto, ter o direito de decidir por ela.

De outro lado, quando falamos de um feto anencéfalo estamos dizendo que não há sobrevida extra uterina, não existe vida! Neste caso querem forçar uma mulher que teve suas expectativas frustradas a dar seguimento a uma gestação que não resultará em um filho. Passar seus dias, seus meses sentindo os incômodos de uma gestação que não resultará em vida, passará por uma cirurgia que envolve inúmeros riscos para trazer ao mundo um filho natimorto que nunca amamentará, mas que terá que dar um nome, registrar, enterrar… Também não parece óbvio que cabe a ela tomar a decisão de passar por todo este difícil processo?

A imposição da maternidade como destino às mulheres desconsidera o que de fato toda essa experiência de gestação e maternidade significa! Essa imposição desconsidera o sofrimento daquelas que não querem, como daquelas que querem, mas não sob determinadas circunstâncias adversas. Desconsidera nós todas porque não considera que nossas vidas importam.

Nunca é demais lembrar que desconsideradas são as mulheres que não possuem as condições econômicas para realizar o procedimento de interrupção de maneira segura e sigilosa, ainda que ilegalmente.

Por outro lado nossa vida ainda pulsa! Mulheres foram às ruas no dia 13 de novembro, segunda-feira, para mostrar que estão vivas, bem vivas, e que vivas nos queremos!

Católicas pelo Direito de Decidir, Evangélicas pela Igualdade de Gênero, Rede Ecumênica de Juventude, Cristãs de Esquerda, entre outros grupos e mulheres religiosas estiveram juntas nesta luta, buscando em suas próprias cosmogonias a força e a justificação para se contrapor também ao domínio patriarcal da religião que nos usurpa o direito sagrado a decidir sobre nossas próprias vidas.

As feministas do campo religioso mostraram que a experiência da fé para além dos dogmas, doutrinas e moral conservadoras, também pode ser cheia de vida, de amor, liberdade e respeito à dignidade humana em toda a sua plenitude. Mas que para isso é preciso uma mudança estrutural radical nesta ordem que querem manter a todo custo, às custas de nossas vidas.

Nada assusta mais o poder patriarcal que mulheres que sabem e exigem o seu direito de decidir. Como bem disse Judith Butler: “quando eles queimam as bruxas, é porque acreditam na magia!”. Nossa força espiritual e política não deixará que desconsiderem nossas vidas.

Gisele Pereira, historiadora e cientista da religião, professora do Ensino Básico; integrante da equipe de coordenação de Católicas pelo Direito de Decidir. 

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