Zika: Causalidade, risco e incerteza

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(Folha de S.Paulo, 22/03/2016) Em artigo recente nesta Folha, o professor Alexandre Chiavegatto Filho lembrou-nos que a relação entre o vírus da Zika e a ocorrência da síndrome encefálica depende do estabelecimento de causalidade. No seu entender, estamos perdendo bilhões de reais e milhares de nascimentos são evitados por razões mal comprovadas. Para ele, um estudo genômico é necessário, embora este possa “levar algum tempo”.
De fato, mas parafraseando Keynes, nesse “algum tempo” estaremos todos mortos.

O que não ocorre ao professor Chiavegatto é que o tradicional enfoque bacteriologista se tornou limitado para a ciência moderna. Nem causa nem efeito podem ser estabelecidos com absoluta precisão, pois em ciência a observação depende sempre do instrumento usado. A lógica positivista de uma certeza científica calcada em causalidade, perde espaço para as inferências prováveis. A força dessa inferência, ao se testar a ocorrência e a não ocorrência de uma doença em diferentes grupos sob condições controladas é a lógica para configurar a força de um fator de risco, traduzindo uma incerteza.

Leia mais: Zika realmente causa microcefalia?, por Alexandre Chiavegatto Filho (Folha de S.Paulo, 01/03/2016)

Cabe lembrar que, nesse processo matemático necessário, nem as variáveis são completamente aleatórias nem as inferências são absolutamente neutras.

Uma escolha aleatória requer algoritmos os quais, em última análise, operam sob uma função determinística.

Inferências decorrem de pressupostos teóricos, de forma que só se acha aquilo que se procura. Afirmar que se determinou a “causa” por um “estudo randômico” é, portanto, uma pretensão.

Assim, o vírus da zika, a genética, as condições de vida e saúde, as condições de exposição ambiental e ocupacional e demais aspectos, são fatores que podem ser configurados enquanto fatores de risco, estabelecendo maior ou menor probabilidade para ocorrência da doença.

Com isso o cenário muda. Na lógica da causalidade a demanda é a bala de prata nas suas diferentes formas, como a vacina, o mosquito transgênico, além dos larvicidas e inseticidas. Na lógica dos fatores de risco nos deparamos com a morfogênese do próprio vírus, com a pobreza, com as condições de saneamento, com o descaso na coleta de resíduos sólidos e no arruamento das vias públicas, por exemplo.

Esses aspectos concorrem formando um contexto possível e não um encadeamento causal necessário até o dano.

Na lógica da causalidade, prevalecendo condições de necessidade, barragens rompem porque “houve abalo sísmico” ou porque “choveu muito”. Na lógica dos fatores riscos, há condições de possibilidade, estabelecidas na tecnologia, na organização e no ambiente envolvido.

É na lógica de fatores de riscos e não de causa que se pode reconhecer o valor incomensurável da intuição clínica, como no caso da médica Adriana Melo, em semelhança ao ocorrido com a exposição à talidomida. É o estranhamento para com a realidade que despertou a sua incerteza.

Agora, na demanda da ação, enquanto a causalidade se propõe a excluir a incerteza, a lógica de riscos não deixa que ela se perca, porque a probabilidade calculada é o próprio acaso medido, ou o tamanho da incerteza.

Mas se é a vida que está sob a incerteza, o agir requer precaução. Sob o princípio da precaução, adotado pelos órgãos dos governos, não se espera a prova em contrário, como reclamada pelo professor Chiavegatto. A justificativa da forma do agir não é o conhecimento disponível, mas sim a falta dele.

Até o século passado, milhares de crianças sofreram retardo mental por exposição ao chumbo contido na tinta branca de seus berços. Isso foi possível porque, tal como para a relação câncer-tabagismo, não havia uma relação de causalidade indubitável. Isso também custou bilhões de dólares nos EUA.

A economia é capaz de dar preço até mesmo aos recursos naturais. Mas seria capaz de fazer o mesmo para a dignidade perdida por uma criança, cujo mundo estará repleto de dor e carente de sentido?

Acesse no site de origem:  Zika: Causalidade, risco e incerteza, por Renato Rocha Lieber (Folha de S.Paulo, 22/03/2016)

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