Zika continua a lesar o cérebro mesmo após o nascimento

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Vírus zika permaneceu ativo por dois meses no organismo de uma criança de São Paulo

(Revista Pesquisa Fapesp, 24/08/2016 – acesse no site de origem) 

Em meio à relativa calmaria que o inverno impôs à epidemia de zika, uma notícia grave surge para deixar todos em alerta: o vírus pode continuar danificando o cérebro dos bebês por semanas após o nascimento. Ainda não se sabe durante quanto tempo o zika permanece ativo no organismo das crianças, mas foi apresentada hoje (24/8) uma das primeiras evidências de que isso pode ocorrer por tempo suficiente para agravar as lesões formadas durante a gestação.

Um grupo de 20 pesquisadores de São Paulo publicou na sessão de correspondências do New England Journal of Medicine, uma das mais prestigiadas revistas médicas do mundo, a descrição do caso de um bebê do sexo masculino que foi infectado pelo vírus ainda durante a gestação e que manteve o zika ativo no organismo por ao menos 67 dias após parto. “Ainda não se havia descrito uma infecção tão prolongada após o nascimento”, afirma o virologista Edison Durigon, da Universidade de São Paulo (USP), um dos autores do estudo.

O menino nasceu no dia 2 de janeiro deste ano em um hospital da capital paulista, ao final de uma gravidez de 40 semanas. Pesava 3.095 gramas e media 48 centímetros (cm) de comprimento. O tamanho de seu crânio, porém, era limítrofe para microcefalia: tinha um perímetro de 32,5 cm – até março o Ministério da Saúde considerava suspeitos os casos de crianças com igual ou inferior a 32 cm. Mas o que chamou a atenção dos médicos foi a testa, mais estreita que o normal, algo comum entre os bebês com microcefalia. Exames de imagem identificaram pequenas lesões (calcificações) no tecido cerebral características de infecções adquiridas durante a gestação.

O bebê foi encaminhado para a Santa Casa de São Paulo, onde passou a ser acompanhado pela equipe do pediatra Eitan Berezin. No final de fevereiro, por iniciativa de Berezin, amostras de sangue do garotinho foram enviadas para o grupo de Durigon na USP. Exames anteriores haviam dado resultado negativo para citomegalovírus, toxoplasmose e rubéola, infecções congênitas que também podem causar lesões cerebrais. Mas faltavam os testes para zika, que são mais complexos e demorados e ainda não estão disponíveis no sistema público de saúde.

Um teste molecular confirmou que o menino tinha o vírus ativo no organismo e exames sorológicos indicaram que a infecção havia ocorrido ainda durante a gestação. Por volta da 26ª semana de gravidez, a mãe apresentou febre, dores de cabeça e manchas vermelhas pelo corpo, menos de um mês depois de seu marido ter retornado de uma viagem ao Nordeste, durante a qual desenvolveu sintomas semelhantes. “Existe a ideia de que as infecções congênitas são mais graves quando ocorrem no início da gestação”, diz Berezin. “Mas, nesse caso, a infecção por zika aparentemente ocorreu mais tarde e também causou danos.”

Como a primeira análise mostrou quantidades elevadas de vírus no sangue, Durigon decidiu procurar por sua presença na saliva e na urina. “Naquela época, por volta do 54º dia após o nascimento, o vírus continuava se reproduzindo e sendo eliminado na urina”, conta o virologista, que integra a Rede de Pesquisa sobre Zika Vírus em São Paulo (Rede Zika), apoiada pela FAPESP. Testes repetidos ao longo das semanas seguintes detectaram a presença de zika até o 67º dia de vida da criança. O aumento na concentração de alguns anticorpos, porém, indicava que, à medida que amadurecia, o sistema imunológico se tornava capaz de combater o vírus.

Os pesquisadores não sabem dizer por quanto tempo o zika continuou ativo. Por volta de meados de março, os pais da criança tiveram dificuldade de seguir com as consultas no hospital e o acompanhamento passou a ser a distância. Mas um exame de ressonância magnética realizado no final de fevereiro indicava que as lesões no cérebro ainda continuavam ativas. “O vírus continuou a se reproduzir e a lesar o tecido cerebral mesmo após o nascimento”, afirma Durigon.

Em agosto, a pedido dos editores do New England, a equipe médica voltou a avaliar o garoto. Ele já estava livre do vírus, mas o exame clínico mostrou que apresentava algumas restrições de movimento: tinha algum grau de paralisia em um dos lados do corpo e dificuldade para segurar objetos. “Esses efeitos só são percebidos à medida que a criança se desenvolve porque é quando deveria começar a adquirir certas habilidades”, explica Berezin. “Para esse garoto, em particular, acho que a fisioterapia pode ajudar a melhorar os movimentos para que ele venha a ter um bom padrão de independência.”

Edison Durigon vê no caso um sinal de alerta. “Não sabemos nada sobre o que ocorre com as crianças que adquirem o vírus após o nascimento”, explica. E conclui: “Estamos em uma espécie de entressafra da epidemia, com o risco de enfrentar em breve uma segunda onda de zika. Deveríamos estar preparados para iniciar o acompanhamento dessas crianças.”

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