Quase um século depois da conquista do voto feminino no Brasil (garantido em 1932 e incorporado à Constituição de 1934), os direitos políticos das mulheres continuam atravessados por disputas sobre o lugar e os direitos delas na sociedade. O tema ganha ainda mais intensidade no período que antecede as eleições.
Se antes o objetivo era restringir a participação das mulheres para manter o poder de determinadas elites e a política sob controle masculino, com o voto feminino a disputa passou a ocorrer em torno da capacidade de organizar e direcionar esse eleitorado. O voto deixou de ser apenas um instrumento de participação democrática e passou também a funcionar como ferramenta de manutenção ou transformação do status social vigente.
Ao longo desse período, a própria democracia esteve sob ataque. Períodos de autoritarismo como o Estado Novo(1937-1945) e a ditadura civil-militar (1964-1985) restringiram direitos políticos, enfraqueceram espaços de participação social e interromperam processos democráticos mais amplos. Tanto o impedimento quanto a mobilização do voto feminino sempre estiveram no centro de disputas políticas.
Hoje, a disputa em torno do voto feminino ocorre em outras bases. Em um cenário de reorganização do conservadorismo e da extrema-direita, as mulheres se tornaram peças centrais de estratégias políticas que disputam não apenas votos, mas valores e modelos de sociedade.
Disputa ideológica
As mulheres representam o maior contingente eleitoral do país e ocupam posição central na reprodução da vida social (conceito das ciências sociais que se refere às atividades necessárias para sustentar o cotidiano e o funcionamento da sociedade). Nos dias atuais, debates sobre maternidade, trabalho doméstico, cuidado, feminismo, religião e papéis de gênero ocupam o centro dessa disputa ideológica pelo voto feminino.
Compreender o comportamento eleitoral das mulheres exige olhar para diferentes dimensões da vida social. Afinal, o voto não é resultado apenas de preferências individuais ou do impacto imediato das campanhas eleitorais. Ele é influenciado por fatores diversos, que se combinam de maneiras distintas conforme o contexto social, econômico e cultural. Um dos mais conhecidos é o chamado voto econômico: a tendência de apoiar governantes ou grupos políticos associados a alguma melhora concreta nas condições de vida, seja em renda, emprego, acesso a serviços públicos ou estabilidade econômica.
Essa lógica ajuda a explicar por que políticas públicas, programas sociais, inflação, custo de vida e condições de trabalho costumam ter impacto importante sobre o eleitorado feminino, especialmente entre mulheres responsáveis pelo cuidado cotidiano da família e pela organização da vida doméstica.
O voto também é moldado pelas condições materiais de existência, por experiências acumuladas no cotidiano e a partir do processo de socialização e de construção ideológica pelo qual passamos ao longo da vida. Nossas escolhas políticas são influenciadas pelos ambientes em que vivemos e pelas relações que construímos. Da formação familiar e das escolas que frequentamos aos grupos de amigos, locais de trabalho, organizações políticas e movimentos sociais de que participamos, toda essa trajetória ajuda a moldar como enxergamos o mundo — e, consequentemente, como votamos.
A nossa posição em uma determinada sociedade — definida por fatores como renda, profissão, idade e gênero — também pode influenciar o comportamento eleitoral. Sem descartar as demais explicações, fato é que a estratificação do contingente eleitoral e a formulação de estratégias de convencimento se tornam cada vez mais fundamentais em sociedades complexas e heterogêneas.
De um lado, temos o trabalho produtivo, realizado fora de casa, na produção de mercadorias, na prestação de serviços, na geração de lucro e também na manutenção de políticas públicas como educação e saúde. De outro, existe o trabalho reprodutivo, quase sempre invisível e não remunerado, mas essencial para sustentar a vida social. Ele inclui os cuidados com filhos, idosos, pessoas adoecidas, alimentação, limpeza, gestão da casa e organização da vida familiar — tarefas historicamente atribuídas às mulheres.
A forma como esse cotidiano é organizado se tornou um dos principais campos de disputa do conservadorismo de extrema-direita. O que está em jogo é uma ideologia que reafirma a permanência dos trabalhos invisíveis e de cuidado como responsabilidade prioritária das mulheres, enquanto os homens permanecem livres e donos do seu tempo não apenas para o exercício do trabalho remunerado, mas também para a atividade política.
Feminino vs. feminismo
Nos últimos anos, tivemos a ascensão de mulheres de direita ou extrema-direita ao poder, afeitas à ideologia patriarcal de separação entre o que é para ser feito por mulheres e por homens. Não foi por acaso. Houve planejamento e estratégia para que figuras como Damares Alves, Janaina Paschoal, Bia Kicis, Júlia Zanatta e Carla Zambelli (esta presa na Itália desde julho de 2025) ganhassem tração e relevância no panorama nacional. Para 2026, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis já se lançaram na disputa por uma vaga no Senado, pelo Distrito Federal.
Michelle também é mencionada na disputa presidencial e é uma das figuras centrais na defesa de uma “política feminina” em contraposição à “política feminista”. Em seus discursos, a ex-primeira dama reforça a ideia de uma submissão “saudável”, o que soa contraditório, onde a casa e a vida dos maridos e filhos são prioridade, mesmo que ela tenha uma vida “lá fora”.
A candidata afirma que “existe um contexto na palavra de Deus sobre a mulher ser submissa ao seu esposo. (…) É sobre caminhar lado a lado com nossos esposos, parlamentares, mandatários, líderes. E a gente se complementa na política partidária. Aqui, o nosso trabalho, a renúncia de estar longe de casa, não ausente — porque tem uma diferença —, o longe é viajar e sua casa estar totalmente controlada. É deixar a comidinha do marido, das filhas (…) A mulher fazer uma comidinha gostosa para o marido, cuidar da casa, isso não te menospreza como mulher.”
Na visão de Michelle e seu grupo, as mulheres estão aqui para colaborar e não serem protagonistas. A premissa é que as mulheres vão trabalhar, sim, mas antes precisam pôr a comida na mesa e deixar a casa em ordem. Nesse modelo, a sobrecarga de tarefas permanece concentrada principalmente nas mulheres. É uma retórica que não questiona as desigualdades e padrões patriarcais, mas antes garante a sua manutenção.
Esse discurso, na prática, ecoa e reverbera em movimentos como o das tradwives (esposas tradicionais), que romantizam a estética dos anos 50 e defendem a submissão feminina ao patriarcado como estilo de vida.