Futebol e política: por que eles nunca estiveram separados, por Isabela Venturoza

03 de agosto, 2026 AzMina Por Isabela Venturoza

Esporte, poder e masculinidades se cruzam dentro e fora de campo, revelando disputas morais, sociais e políticas

– “Futebol e política não se misturam.”

– “O jogador deve ser avaliado pelo futebol que joga.”

– “O que importa é o que acontece dentro de campo.”

Você já ouviu alguma dessas frases? Elas costumam aparecer sempre que o futebol se torna palco de alguma controvérsia moral e política. Talvez a última tenha sido com a discussão envolvendo o Corinthians e o patrocínio da Fatal Fans – plataforma de conteúdo adulto da Fatal Model. E ainda no rescaldo da Copa, eu me vi pensando, “como é interessante que em alguns momentos as pessoas assumam uma posição moral e no momento seguinte outra completamente diferente”.

Então, hoje, nossa conversa aqui é sobre futebol, política e também sobre masculinidades.

No que diz respeito à relação entre futebol, trabalho sexual e conteúdo adulto, essa discussão não começou agora. Em 2023, o Vitória submeteu aos seus sócios a possibilidade de alterar o próprio nome do clube para “Fatal Model Vitória”, em uma proposta de R$200 milhões. A mudança foi rejeitada, mas os sócios aprovaram a abertura de negociações para a venda dos naming rights do Barradão por R$100 milhões. Em janeiro de 2025, o clube renovou o contrato com a empresa, em um acordo anunciado como o maior patrocínio da história do Vitória.

Nesses dias, foi interessante acompanhar a grande mobilização quando o tema atravessando o futebol foi a sexualidade (e moral sexual). E o estardalhaço não é por acaso. Vale ler a coluna da Carol Bonomi sobre o tema para se inteirar mais sobre as controvérsias que estão rolando já há algum tempo, inclusive dentro dos ditos feminismos.

Sabemos que o futebol não envolve só esporte. Envolve dinheiro, publicidade, pedagogias de gênero dentro e fora do campo, moralidades sexuais, raça e racismo, identidade nacional, religião e disputas de poder das mais variadas. A camisa de um time não é apenas o brasão que simboliza o amor da torcida. O estádio há muito tempo deixou de ser – se é que um dia foi – apenas um espaço esportivo. E o jogador – homem e ao mesmo tempo modelo de masculinidade – inegavelmente desempenha um papel social impossível de ignorar.

O futebol também produz comportamentos

O futebol é espelho da sociedade ao mesmo tempo que produz a sociedade. É fácil perceber que ele é uma poderosa máquina de produção de moralidades e também de um determinado tipo de homem, ele mesmo um sujeito moral, com ambições e desejos específicos. Desde a infância, meninos aprendem que o campo é um dos lugares privilegiados para sonhar e ser quem querem ser e projetam nos ídolos um futuro possível. É também onde se provam, pela sua habilidade e no sentido de pertencerem a um grupo. Quantos meninos você conheceu que não gostavam ou não jogavam futebol? Como eles eram tratados?

A Copa do Mundo de 2026 colocou aspectos dessa conversa em evidência. Enquanto milhões de pessoas acompanhavam partidas e discutiam escalações, jogadores disputavam o torneio sob acusações de violência sexual. Além disso, a FIFA registrou 89 mil manifestações abusivas nas redes sociais, parte delas de caráter racista, o que apareceu também no comportamento dos jogadores em campo. No mais, temos a história das BETs, que causa menos comoção do que à associação à Fatal Fans.

Em outro episódio, uma jornalista francesa nos presenteou com uma aula sobre estereótipos e percepções distorcidas sobre gênero. O atacante belga Jérémy Doku manifestou o desejo de deixar a Copa para acompanhar o nascimento do primeiro filho. A apresentadora France Pierron sugeriu que o pai seria inútil e apenas um “figurante” no parto, gerando uma reação pública tão intensa que ela foi afastada  e o grupo de mídia responsável pediu desculpas.

O episódio expôs uma expectativa bastante conhecida: a de que o homem deve voltar a vida ao trabalho, não ao cuidado, não à emoção, não à família. Isso tudo pode esperar. Mostrar seu futebol não. Por que ser um pai presente se você pode ser um herói, um ídolo nacional?

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