Luta contra preconceitos aproveita irreverência do carnaval

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(Agência Brasil, 15/02/2015) A constante mobilização de minorias e grupos de direitos humanos ganhou corpo no carnaval, e blocos grandes e pequenos aproveitam a irreverência da festa para reivindicar espaço e questionar preconceitos ainda presentes na sociedade. Acusados de politicamente chatos ou celebrados como movimentos sociais, os blocos contrários ao racismo, ao machismo e à homofobia estão na rua e devem reunir multidões, como o Bloco da Preta, que juntou mais de 300 mil pessoas no Rio de Janeiro e, entre uma música e outra, tinha na voz da cantora Preta Gil o protesto contra a discriminação de orientações sexuais.

Em resposta a uma fotomontagem na internet que dizia Eu não mereço mulher rodada, duas amigas se inspiraram em uma série de reações debochadas que tomaram conta da internet e fundaram o Bloco das Mulheres Rodadas, que sai na quarta-feira de cinzas satirizando a opressão contra a liberdade sexual das mulheres. Com 10 mil presenças confirmadas noFacebook, o bloco organizado por Renata Rodrigues e Debora Thome vai ridicularizar o moralismo. “O caminho que a gente escolheu no carnaval é o de fazer piada. O quão ridículo é, hoje em dia, você defender um conceito ou uma ideia como essa? Nós duas e muitas meninas já vivemos isso na pele. É um preconceito idiota, ridículo. A gente achou que expor essa ideia ao ridículo também é um ato político”, diz Renata, que não se considera uma militante, mas alguém que acompanha e se preocupa com o assunto.

A fundadora do bloco conta que recebeu críticas pela iniciativa. “A gente enfrentou tanto pessoas que falam ‘o que seu filho e sua família vão pensar?’, como também uma militância que questionou que a gente estava fazendo piada com coisa séria”, diz. Ela espera entre mil e 2 mil pessoas no desfile e pede criatividade e saias rodadas. “Uma menina chegou para mim e disse que está preparando uma fantasia de roleta. O carnaval abre essa possibilidade de brincar e de aumentar esse ridículo que, em outra época do ano, a gente não conseguiria. A gente sabe que o assunto é sério e só porque nos importamos com isso criamos o bloco”.

Na zona norte, o Bloco Gargalhada, formado por pessoas com necessidades especiais, nasceu para dar um espaço seguro para essas pessoas brincarem o carnaval. “Como o Gargalhada está fazendo 10 anos, existe a consciência das pessoas que frequentam de ajudar realmente. É comum ver, dentro e fora do clube, uma pessoa ajudando um cego a ir ao banheiro, dançando com um folião com síndrome de Down. É um bloco de todo mundo”, explica a organizadora Yolanda Branconnot.

A concentração do bloco ocorre na Associação Atlética Vila Isabel e, saindo de lá, ele percorre o Boulevard 28 de Setembro, uma das principais vias do bairro, plana e em linha reta. Além da solidariedade dos frequentadores, o bloco inclui intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras), para deficientes auditivos acompanharem o tema do samba, que, neste ano, defende a permanência do clube que abriga o bloco. “É uma oportunidade de a gente se comunicar de uma maneira alegre, objetiva e irreverente, mas podendo dar eco às mais diversas questões. É brincar falando sério e colocar isso na boca de muita gente.”

Para o historiador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro Leonardo Pereira, o carnaval sempre foi espaço de crítica social. O que mudou foram os valores e o meio em que suas músicas são concebidas. “Como espaço de encontro e de diferentes grupos, o carnaval se prestou, muitas vezes, ao tipo de música que ironizava o outro. Como toda produção cultural, as marchinhas de carnaval têm sentido no meio em que foram produzidas. O que era aceito na letra de uma marchinha de carnaval mudou”, diz o pesquisador, que destaca que músicas como O Teu Cabelo Não Nega se popularizaram porque grande parte da sociedade as julgou adequadas na época em que foram lançadas.

“Elas fazem parte da experiência e da cultura brasileira, mas expressam o racismo e a exclusão dessa sociedade. Não se trata de excluir a música, porque ela não é a causadora do racismo”, defende ele, afirmando que o modo como o país lida com as questões raciais mudou. “Não estou querendo dizer que isso representa a superação do preconceito. A questão ainda está em processo, mas pelo menos está colocada”.

Compositor das marchinhas famosas – e hoje questionadas – Cabeleira do Zezé e Maria Sapatão, João Roberto Kelly se defende e afirma que nunca teve a intenção de ofender qualquer grupo com suas letras. “O Brasil tem muita coisa séria para pensar e muita coisa importante para tratar. O preconceito é abominável em todos os aspectos. Mas isso é uma grande brincadeira. Não é com o intuito de ofender”, explica.

Com um currículo de músicas que entraram para a história do carnaval, Kelly discorda de quem acha que o chamado “politicamente correto” atrapalha a composição de marchinhas e a irreverência do carnaval. “O processo criativo é natural de cada um, e a pessoa tem que escolher temas interessantes. E tem que ser feito com inteligência, com brincadeira. É uma válvula de escape dos problemas de cada um”, afirma o compositor, que dá dicas sobre como ter poder de síntese e satirizar para quem quer criar uma marchinha. Com bom humor, ele também sugere acompanhar os temas do noticiário. “Os jornais já são uma grande marchinha de carnaval”.

Vinícius Lisboa

Acesse no site de origem: Luta contra preconceitos aproveita irreverência do carnaval (Agência Brasil, 15/02/2015)

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