Mais mulheres deixam tabaco do que homens, e indústria apela para meninas, por Mônica Andreis

07 de maio, 2026 Gênero e Número Por Mônica Andreis

Há décadas, mulheres têm papel central na luta contra o tabagismo – e sua liderança é mais relevante do que nunca.

A história do controle do tabaco não poderia ser contada sem destacarmos o protagonismo das mulheres na criação de políticas globais, na resistência à indústria e na defesa dos direitos humanos. Tem sido assim desde a entrada em vigor da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT), em 2005. Primeiro acordo global de Saúde Pública da Organização Mundial da Saúde (OMS), o documento se baseia diretamente no trabalho das pesquisadoras Ruth Roemer e Allyn Taylor. No início dos anos 90, as duas propuseram o uso de instrumentos jurídicos internacionais para combater o tabagismo.

Mas o processo, no entanto, só saiu do papel graças a uma outra mulher: Gro Harlem Brundtland. Ao assumir a direção-geral da OMS, ela deu prioridade à pauta e conduziu as negociações que resultaram na adoção do tratado. Até hoje, o documento estabelece regras e diretrizes para reduzir o consumo de tabaco e a exposição à fumaça.

A importância da atuação feminina nessa luta ganha ainda mais relevância quando levamos em consideração os riscos que o tabagismo representa para a saúde das mulheres, tanto pelo uso direto quanto pela exposição passiva ao fumo.

Há décadas, a indústria mira meninas e mulheres como mercado-alvo, utilizando estratégias baseadas em aspirações sociais como “liberdade”, “independência” e “empoderamento”.

Muitas mulheres se tornaram fumantes influenciadas por anúncios que associavam o tabagismo à emancipação feminina. Em vez de liberdade, tratava-se de uma forma de manipulação e aprisionamento ao consumo. Para contrapor essas mensagens, foram construídos argumentos associando o controle do tabaco a uma questão de direitos humanos, com referências diretas a instrumentos como a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW, do original em inglês, Convention on the Elimination of All Forms of Discrimination against Women).

Judith Mackay, conhecida como “inimiga da indústria do tabaco”, se destaca na luta contra o setor há mais de 40 anos, resistindo a ameaças e processos. No âmbito coletivo, a Rede Internacional de Mulheres contra o Tabaco (INWAT, do original em inglês, International Network of Women Against Tobacco), fundada em 1990, desempenha papel fundamental na promoção da conscientização, no fortalecimento da liderança e na exposição das táticas da indústria, especialmente aquelas voltadas ao público feminino.

Representantes do Brasil e da América Latina ocupam posições de destaque tanto no contexto da CQCT quanto em juntas diretivas do movimento global de controle do tabaco. Vera Luiza da Costa e Silva, que ocupou o cargo de chefe do Secretariado da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco da OMS, atualmente atua como Especialista Sênior em Controle do Tabaco na Organização Mundial da Saúde.

Cabe destacar ainda o nome de Tânia Cavalcante: à frente da secretaria-executiva da Comissão Nacional para Implementação da Convenção-Quadro (Conicq), ela contribuiu para a articulação de estratégias que reduziram o consumo no país.

Na sociedade civil, a ACT Promoção da Saúde, organização criada e dirigida por um grupo de mulheres, incluindo Paula Johns e Mônica Andreis, trabalha há 20 anos na defesa de políticas públicas e no enfrentamento da indústria, inclusive no campo judicial.

Apelo particular para meninas

Mulheres têm, em geral, grande compreensão dos desafios que enfrentam e conhecimento sobre como garantir seus direitos, embora nem sempre tenham oportunidade de expressar plenamente seu potencial. Dispor dessas condições é essencial para o desenvolvimento de lideranças. Evidências não faltam. Um relatório da OMS aponta queda de 27% no uso de tabaco entre 2010 e 2025. Globalmente, mais mulheres estão parando de fumar do que homens.

Apesar dos avanços, novos desafios se apresentam. O aumento no uso de produtos saborizados e cigarros eletrônicos revela estratégias renovadas da indústria, que comercializa esses itens como inovações e produtos da moda, com apelo particular para jovens e meninas.

A 5ª edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde e com apoio do Ministério da Educação, revela:

A experimentação de cigarros eletrônicos entre jovens de 13 a 17 anos aumentou de 16,8%, em 2019, para 29,6%, em 2024, sendo mais elevada entre meninas (31,7%) do que entre meninos (27,4%).

Segundo o inquérito, a proporção de escolares que não utilizaram nenhum produto de tabaco permaneceu praticamente estável (61,7% em 2019 e 62,3% em 2024), mas há indícios de migração do consumo de cigarros e narguilé para o cigarro eletrônico.

Muitos jovens sofrem influência de grupos e estão vulneráveis diante da facilidade de acesso e da falsa percepção de menor nocividade. Comercializados com sabores e aromas que mascaram seus riscos, esses produtos podem causar dependência e provocar danos significativos à saúde, tanto no curto quanto no longo prazo.

A venda dos dispositivos eletrônicos para fumar (DEF) é proibida no Brasil, mas existe um mercado ilegal — situação também observada com o cigarro convencional. Mesmo em países onde esses dispositivos são autorizados, como os Estados Unidos, estima-se que, em 2024, 86% do mercado seja ocupado por marcas ilegais.

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