Produzido pelo Observatório Brasil da Igualdade de Gênero, do Ministério das Mulheres, o Raseam retrata a situação das brasileiras a partir de 320 indicadores
O Ministério das Mulheres lançou na última segunda-feira (30) o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam) 2026, durante o Encontro Nacional de Gestoras de Políticas Públicas para as Mulheres, em Fortaleza (CE). Com uma análise descritiva de dados sobre as brasileiras, o documento serve como guia estratégico para a criação de políticas públicas e o desenvolvimento de investigações científicas em diversas áreas.
Produzido pelo Observatório Brasil da Igualdade de Gênero (OBIG), vinculado ao Ministério das Mulheres, o Raseam retrata a situação das brasileiras a partir de cerca de 320 indicadores e mais de 380 tabelas de dados. A publicação reúne informações de múltiplas fontes oficiais e tem como objetivo servir como guia estratégico para a criação de políticas públicas e para o desenvolvimento de pesquisas científicas em diversas áreas.
A obra explora as desigualdades regionais, raciais e sociais, considerando também fatores como localidade, faixa etária e condições de deficiência. Ao todo são sete eixos temáticos: Estrutura Demográfica; Autonomia Econômica e Igualdade no Mundo do Trabalho; Educação; Saúde Integral, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos; Enfrentamento de todas as formas de violência contra as mulheres; Mulheres em espaços de poder e decisão; e Mulheres na Cultura, Comunicação e Esporte.
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, destacou a importância da publicação: “O Raseam reafirma o compromisso do Estado brasileiro com a sistematização, análise e ampla divulgação de dados sobre a realidade das mulheres. Os indicadores mostram avanços importantes, mas também evidenciam desigualdades persistentes, especialmente de cor ou raça, território e renda, que exigem respostas estruturais e intersetoriais. Fortalecer políticas públicas baseadas em evidências é fundamental para garantir direitos, promover autonomia e enfrentar todas as formas de violência contra as mulheres.”
A coordenadora-geral do Observatório Brasil da Igualdade de Gênero, Wanessa Debôrtoli de Miranda, complementou: “Esta edição do Raseam amplia e qualifica o monitoramento das condições de vida das mulheres no Brasil, incorporando novos indicadores e aprofundando análises. Os dados evidenciam que as desigualdades são multifacetadas e se expressam de forma distinta ao longo do ciclo de vida das mulheres, o que reforça a importância de instrumentos de informação robustos para subsidiar políticas públicas mais eficazes e direcionadas.”
“Políticas públicas precisam ser baseadas em dados, pesquisas, censos, informações qualificadas para que a gente possa, de fato, acertar em proteger as mulheres do Brasil”, destacou a secretária-executiva do Ministério da Mulheres, Eutália Barbosa, ao citar a importância do Raseam 2026.
As informações foram compiladas pelo Observatório Brasil da Igualdade de Gênero a partir de diferentes órgãos oficiais, entre eles: o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Tribunal Superior Eleitoral (TSE), além dos ministérios da Saúde, da Educação, da Justiça e Segurança Pública, do Esporte, da Defesa, do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, de Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, de Direitos Humanos e da Cidadania, das Relações Exteriores, Previdência Social e do Trabalho e Emprego, entre outros órgãos.
Próximos passos
Com o lançamento oficial do Relatório, os temas relacionados à situação socioeconômica das mulheres e às estatísticas de gênero também serão debatidos no I Seminário de Indicadores e Políticas para a Igualdade de Gênero, a ser realizado neste semestre em Brasília.
O Seminário tem como objetivo institucionalizar o diálogo democrático entre o Estado e a sociedade civil, qualificar as estatísticas de gênero e consolidar o monitoramento dos dados governamentais. A programação incluirá debates sobre sistemas de monitoramento das desigualdades de gênero, a trajetória e implementação do relatório, diagnósticos e indicadores sobre o cenário atual das mulheres no país, além de discussões sobre estatísticas de gênero, sistemas de informação e estratégias para o enfrentamento ao feminicídio.
Estrutura do RASEAM 2026
Cada capítulo do relatório apresenta um texto descritivo dos principais indicadores temáticos, acompanhado de uma síntese com os dados mais relevantes para a compreensão da realidade das mulheres brasileiras. Além disso, reúne, em formato de tabelas disponíveis para download em CSV no site do Ministério, todos os indicadores com dados desagregados por Brasil e Grandes Regiões.
O capítulo Estrutura Demográfica analisa a composição populacional feminina, destacando o envelhecimento demográfico, a queda da fecundidade e a distribuição por cor ou raça. A edição aprofunda temas como mortalidade, expectativa de vida, organização familiar, nupcialidade e divórcios, com recortes de sexo, idade, raça e território. Os dados evidenciam a maioria feminina na população, maior longevidade, adiamento da maternidade e o crescimento de mulheres responsáveis pelos domicílios, especialmente pretas e pardas. Também ressaltam desigualdades territoriais e os impactos do envelhecimento sobre a demanda por cuidados que recai majoritariamente sobre as mulheres.
No capítulo Autonomia Econômica e Igualdade no Mundo do Trabalho examina a inserção das mulheres no mercado de trabalho e as desigualdades de gênero. São apresentados indicadores de participação, desocupação, informalidade e rendimentos, incluindo dados do Relatório de Transparência Salarial do Ministério do Trabalho e Emprego. A análise mostra menor participação feminina, maiores taxas de desocupação e persistentes desigualdades salariais, com concentração de mulheres em ocupações precárias, como trabalho doméstico e rural, marcadas por baixos rendimentos e forte recorte racial. O capítulo aborda ainda políticas de igualdade salarial, programas de transferência de renda e as relações entre chefia feminina, vulnerabilidade econômica e insegurança alimentar.
O capítulo Educação para a Igualdade e Cidadania aborda o acesso, a permanência e os resultados educacionais das mulheres ao longo da vida. São analisados indicadores como alfabetização, frequência escolar, evasão e escolarização, com recortes por idade, deficiência e raça. Apesar dos avanços educacionais femininos, persistem desigualdades associadas à renda, território, raça e responsabilidades de cuidado. O capítulo também discute o papel das creches, de políticas como o Programa Pé-de-Meia e da dignidade menstrual como fatores essenciais para a permanência escolar.
O capítulo Saúde Integral das Mulheres, Direitos Sexuais e Reprodutivos analisa indicadores de saúde feminina, incluindo mortalidade materna, doenças crônicas, gravidez na infância e adolescência, saúde mental e acesso aos serviços de saúde. Os dados revelam desigualdades regionais e étnico-raciais no acesso e nos desfechos em saúde, especialmente entre mulheres negras, jovens e residentes em territórios vulnerabilizados. O capítulo destaca a persistência de desafios como a mortalidade materna e a gravidez precoce, reforçando a necessidade de políticas públicas integradas para assegurar direitos reprodutivos, acesso ao cuidado e melhores condições de vida.
No capítulo Enfrentamento de Todas as Formas de Violência contra as Mulheres apresenta um panorama das violências contra as mulheres, incluindo violência doméstica, sexual, letal, institucional e autoprovocada. São analisados dados de notificações, ocorrências policiais, feminicídios, estupros, desaparecimentos e encarceramento feminino, com recortes por idade, raça, deficiência e território. O capítulo também examina respostas institucionais, como o Ligue 180, Casas da Mulher Brasileira e Delegacias Especializadas (DEAM). Os dados evidenciam o caráter estrutural da violência contra as mulheres no Brasil e a necessidade de ações articuladas de prevenção, proteção, responsabilização e reparação.
O capítulo Mulheres em Espaços de Poder e Decisão analisa a presença feminina em cargos políticos, institucionais e sociais, incluindo sistema de justiça, partidos políticos, sindicatos, forças armadas e diplomacia. Apesar dos avanços, persiste a sub-representação de mulheres, especialmente negras, nos espaços de maior poder. O capítulo destaca a importância de políticas de paridade, financiamento eleitoral, enfrentamento à violência política e mecanismos de conciliação entre trabalho e maternidade.
Por fim, o capítulo Mulheres na Cultura, Comunicação e Esporte observa a participação feminina nesses campos, evidenciando desigualdades de gênero, raça e território. Os dados mostram menor visibilidade e financiamento para as mulheres, apesar de avanços em políticas públicas de incentivo. Também são discutidas as desigualdades no acesso às tecnologias da informação e comunicação e o papel desses meios na reprodução ou no enfrentamento de estereótipos de gênero.