Ministra da Indústria e do Comércio da Islândia fala sobre o país campeão do mundo em igualdade para a mulher

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(O Globo, 24/10/2014) Em entrevista, Ragnheiður Elín Árnadóttir, ministra da Indústria e do Comércio da Islândia, país campeão do mundo em igualdade para a mulher, conta que o marido é quem faz a faxina e cuida dos filhos. 

Por que a Islândia é o melhor país para as mulheres ?

Somos uma nação pequena e rude e tivemos que nos defender sozinhos. Temos também uma população pequena. Não podemos permitir que a sociedade exclua parte dela. Somos 322 mil pessoas e, se dissermos para 50% delas (as mulheres) “não, você não deve trabalhar”, não conseguiremos seguir. Essas são questões práticas.

O fato de que vocês tiveram uma mulher na presidência durante 16 anos ajudou?

Teve um grande impacto. Ela era um modelo fantástico que surgiu quando houve o dia das mulheres. Em 24 de outubro de 1975, houve um movimento na Islândia chamado “Meias Vermelhas”, organizado por feministas que queriam provocar um impacto e ver mudanças. Elas paralisaram o país durante um dia e conseguiram fazê-lo mobilizando mulheres de todos os partidos, de todas as esferas da sociedade. Mulheres trabalhadoras e aquelas que estavam trabalhando em casa largaram tudo e foram para as ruas.

E o que aconteceu com a economia do país ?

Parou. As vendas de cachorros-quentes subiram, porque os homens estavam dando cachorro-quente para as crianças. O jornal da manhã ficou fininho, apenas com artigos sobre esse evento, porque as mulheres na redação não trabalharam. As crianças ficaram com os pais na escola, porque as mulheres não foram trabalhar nas creches. Vamos celebrar isso no ano que vem, quando fará 100 anos que mulheres da Islândia conquistaram o direito de votar, em 1915. Isso é um grande marco, mas o desenvolvimento foi muito lento. A primeira mulher foi eleita para o Parlamento em 1922.

Foi uma das primeiras eleitas no mundo?

Não sei… Só tivemos a primeira mulher ministra no governo em 1970, acho. Havia também um partido político em 1983 apenas dirigido por mulheres, e isso permitiu um salto, porque os partidos tradicionais sentiram que tinham que lidar com isso (a inclusão das mulheres), estavam perdendo. Então, eles aumentaram a participação de mulheres candidatas. Em 1980 conseguimos algo que ninguém tinha pensado: eleger uma presidente. Ela foi e ainda é nosso grande modelo. Eu tinha 13 anos de idade e dizia: “Uau, uma mulher pode ser presidente!”. Ela ficou até 1996. E tínhamos crianças perguntando nas eleições de 1996: “Um homem pode ser presidente?”. Eles não sabiam que isso era possível.

Quão difícil foi para vocês mudar a sociedade e chegar ao topo como hoje

Muito. Não aconteceu da noite para o dia. E ainda não chegamos lá. Por que os homens não estão falando sobre os direitos da mulher? Por que esse não é um tópico do interesse deles? Temos que incluir os homens. Foi o que fizemos com licença paternidade: abrimos mão da exclusividade da casa. Nós, mulheres, temos que fazer isso: para dividir (com os homens) o que está fora (de casa), temos que dividir o que está dentro. Não tem sido fácil. Pessoalmente, quando meu filho acordou no meio da noite e chamou “papai”, e não “mamãe”, eu fiquei devastada.

Até o dia em que a senhora aceitou que ele, o pai, também tem um papel em casa…

Ele é um pai maravilhoso e muito envolvido. Minha atual posição profissional, infelizmente, me afasta de casa. Eu tenho dois filhos, de 6 e 12 anos, e duas enteadas que são mais velhas. Eles me perguntam: “Vamos jantar juntos hoje à noite?” ou “Você vai dormir em casa?”.

Como é a sua legislação para licença-paternidade?

Três meses para a mulher, três meses para os homens e mais três meses em que eles podem decidir com quem fica a criança, com a mãe ou o pai. Foi muito importante fazer com que os homens saíssem para a licença-paternidade.

O Brasil ainda está muito atrasado. É possível mudar?

Eu acho que sim. Tem que começar com você, em casa. Nós, mulheres, também temos que aceitar que precisamos abrir mão de algo: temos que dividir responsabilidades dentro de casa. Deixar o homem cuidar dos filhos. Meu marido hoje é quem faz a maior parte da faxina. Faz de uma forma diferente da minha, mas não posso voltar para casa e dizer “este lugar está uma bagunça”, porque ele vai responder “então ache tempo para limpar.”

Deborah Berlinck

Acesse o PDF: Ministra da Indústria e do Comércio da Islândia fala sobre o país campeão do mundo em igualdade para a mulher (O Globo, 24/10/2014)

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