Movimento feminista sai do armário e ganha vertentes do pop à periferia

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(Folha de S. Paulo, 31/05/2015) Antes um baita palavrão associado ao mundo acadêmico e à figura da mulher mal-amada de sovaco cabeludo, o feminismo tomou os palcos pop pelo mundo. A saída do armário de algumas celebridades abriu as portas para uma nova geração de feministas sem-vergonha de todas as idades.

No Brasil, as famosas ainda se posicionam pouco, mas campanhas como Chega de Fiu Fiu e Eu Não Mereço Ser Estuprada e movimentos como a Marcha das Vadias dão cor local à militância. As caras são novas, mas o objetivo é o mesmo: lutar por direitos iguais -e causar alguma polêmica.

Na contramão (ou no acostamento) da nova onda de “empoderamento” feminino, surgem personagens e movimentos curiosos, como o “meninismo” (“meninism”, no termo em inglês). Para alguns, ele viria discutir as dificuldades e pressões de ser homem na sociedade atual -para outros, é só uma boa piada. Outra cria do fenômeno recente é o homem feminista. Ninguém sabe se ele existe, mas muita gente diz que já viu.

Há quem diga que o feminismo pop é apenas estratégia de marketing que acaba por desviar a atenção das questões fundamentais. Outros acham que ajuda a desmistificar o movimento e que qualquer ação que traga mais atenção e adeptas à causa vale a pena. O novo movimento tem ícones para todos os gostos. “O nosso feminismo está em descer a rua todo o dia para buscar o pão”, diz Semayat Oliveira, do coletivo Nós, Mulheres da Periferia.

Clique na imagem e assista ao vídeo:

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VALESCA POPOZUDA
Citada como ícone do feminismo brasileiro em uma reportagem do canal francês France 2, a funkeira defende, nas letras e no discurso, a liberação sexual feminina e o direito das mulheres realizarem seus desejos sem dar satisfação. Virou até objeto de pesquisa acadêmica, “My Pussy é o Poder” (“pussy” quer dizer xoxota, em inglês), sobre funk e feminismo, de uma aluna de mestrado da Universidade Federal Fluminense.

JAZZ JENNINGS
Representante das adolescentes que também lideram o novo feminismo, Jazz é uma ativista transexual (nasceu homem e virou garota) de 14 anos e discute sua identidade de gênero publicamente desde os seis. Já brigou com a federação de futebol dos EUA para que a deixasse jogar em times de menina e foi escolhida pela revista “Time” para perfilar outro ícone trans, Laverne Cox.

CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE
A nigeriana, eleita pela revista “New Yorker” uma das principais escritoras de ficção com menos de 40 anos, é autora de um manifesto fundamental do movimento atual, “Sejamos Todos Feministas”. Sua palestra TED, série de conferências para difundir boas ideias, em 2012, foi assistida por 2 milhões de pessoas, transformada em livro e ganhou ainda mais atenção quando virou trecho da música “Flawless”, de Beyoncé.

NÓS, MULHERES DA PERIFERIA
Questões feministas se juntam com as de classe social e raça nas discussões do coletivo de jovens moradoras de bairros da periferia de São Paulo. Em seu site, elas abordam temas como maternidade e trabalho doméstico e divulgam eventos como o Encrespa Geral, pela valorização dos cabelos crespos.

THINK OLGA
Chega de Fiu Fiu, campanha pelo fim do assédio em locais públicos, e Entreviste uma Mulher, pela maior presença feminina em notícias, são algumas das ações difundidas pelo Think Olga fizeram o site virar referência de conteúdo feminista no Brasil. O “think tank” lançou o e-book “Meu Corpo Não é Seu”, pela Companhia das Letras.

RUPI KAUR
Para discutir o conceito hindu de que uma mulher menstruada seria impura, a artista canadense-indiana postou fotos de sua menstruação no Instagram. As imagens correram o mundo e, depois de reclamações, foram censuradas pelo aplicativo. Rupi agradeceu à rede social por provar sua teoria de que a sociedade aceita a objetificação das mulheres, mas não encara um “vazamento”.

ALISON BECHDEL
A partir de uma tirinha da cartunista americana, autora da HQ “Dykes to Watch Out For, surgiu, nos anos 1980, o chamado “Teste de Bechdel”, hoje usado amplamente para avaliar se um filme é sexista ou não.
No cartum, uma personagem diz que só vê um filme se ele tiver pelo menos duas mulheres, se elas conversarem uma com a outra e se o assunto não for homem.

PATRICIA ARQUETTE
A atriz de “Boyhood” ganhou o Oscar e aproveitou o palco para discursar pela igualdade de direitos e salários para as mulheres em Hollywood. Na mesma cerimônia, Reese Witherspoon iniciou uma campanha para incentivar os entrevistadores de tapete vermelho a perguntarem mais do que a grife dos vestidos das atrizes.

FURIOSA
A verdadeira protagonista do novo “Mad Max”, vivida por Charlize Theron, lidera uma gangue contra o patriarcado do vilão Immortan Joe -que coleciona “procriadoras” para seus fi lhos. O diretor, George Miller, chamou a autora de “Os Monólogos da Vagina”, Eve Ensler, para ser consultora do longa, tachado de “filme de ação feminista”.

BEYONCÉ
Uma das principais celebridades do mundo, a cantora garantiu uma exposição inédita para a palavra feminismo. Em 2014, apareceu na principal premiação da MTV na frente de um “feminista” gigante estampado no telão -e assistido por 12 milhões de americanos e outros tantos pelo mundo.

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