Agora é que são elas, por Ronaldo Lemos

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(Folha de S. Paulo, 18/01/2016) Há no Brasil 103,5 milhões de mulheres (51,4% da população). Apesar disso, só 51 delas integram a Câmara dos Deputados, de um total de 513 cadeiras. No Senado a situação é similar. Só 12 senadoras, de 81 cadeiras.

Um estudo feito pela União Interparlamentar analisou o ranking de representatividade feminina nos parlamentos mundiais. Dos 145 países pesquisados, o Brasil ficou em 115º lugar. Só ganhamos de alguns poucos países como Tonga, Vanuatu e Micronésia, onde o índice chega a zero. Perdemos feio de países do Oriente Médio como Síria, Arábia Saudita, Iraque e Emirados Árabes, que têm participação feminina maior que a nossa.

Esse desequilíbrio tão extraordinário é um desafio para a democracia brasileira. A calamidade é bem ilustrada pelo Partido da Mulher Brasileira (PMB), criado em setembro de 2015. Em tempo recorde, o partido conseguiu filiar uma bancada de 22 deputados, na qual há apenas duas mulheres. O partido já atraiu também um senador, homem.

Se no mundo off-line o desequilíbrio de representação é tão grande, qual seria o impacto da internet e da participação on-line para a representação feminina? Essa foi a pergunta feita pelo cientista político brasileiro Tiago Peixoto junto com os pesquisadores Fredrik Sjoberg e Jonathan Mellon. Em um estudo chamado “Big Data and Gender Inclusion” (big data e inclusão de gênero), a ser publicado nas próximas semanas, eles analisaram dados de participação on-line em 113 países a partir do site de petições políticas Change.org.

Uma constatação foi a de que o engajamento político das mulheres por meio da rede atinge globalmente o percentual de 48,2% (sem contar os Estados Unidos). No Brasil, o percentual é de 50%. Quando se adicionam os números dos EUA, o percentual vai a 55,9%, superando o engajamento masculino. Na voz dos pesquisadores: “Esses resultados sugerem que existe uma forma potencialmente fácil de se encorajar maior participação política feminina: melhorar o acesso das mulheres à internet”.

O estudo mostra como o acesso à rede pode solucionar falhas institucionais do mundo “off-line”. Oportunamente, esse é o tema do documento divulgado na última quinta pelo Banco Mundial, chamado “Digital Dividends” (dividendos digitais). O texto analisa o estado da economia digital e o que ela já trouxe de “dividendos” para o mundo. Em suma, analisa se a vida melhorou ou não com a tecnologia.

Uma das conclusões é que os “dividendos digitais” (crescimento, empregos, serviços e melhorias governamentais) são concretos. No entanto, esses benefícios não estão disseminados, ficando concentrados nos segmentos conectados da população. Considerando que a igualdade de gênero pode ser classificada como “dividendo”, está aí mais uma razão para lutar para que 100% das pessoas se conectem à internet.

Acesse o PDF: Agora é que são elas, por Ronaldo Lemos (Folha de S. Paulo, 18/01/2016)

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