Até 1925, mulheres assinavam metade dos filmes americanos; hoje, são apenas 8% de blockbusters

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Dados são apresentados em documentário que será exibido no Festival do Rio

A imagem que encerra o documentário “Women who run Hollywood” é antiga, de uma entrevista dada nos anos 1980 por Sherry Lansing, mas a resposta da executiva americana resume bem os desafios das mulheres na indústria do cinema até hoje. O jornalista, homem, perguntou como Sherry fazia para manter a ternura feminina por um lado e, por outro, agir com a dureza necessária ao cargo que ocupava.

(O Globo, 19/09/2016 – Acesse em pdf)

Então presidente da Fox, mais tarde presidente da Paramount, naquela ocasião Lansing respondeu: “O problema da sua pergunta é a suposição de que uma mulher não pode ser dura”.

O mais incrível do documentário dirigido pelas irmãs francesas Clara e Julia Kuperberg é que esse tipo de pergunta nem sempre foi feita, assim como os caminhos de Hollywood nem sempre foram nublados para as mulheres. Hoje, de acordo com as diretoras, apenas 8% de blockbusters e 20% de filmes independentes feitos nos Estados Unidos são dirigidos por mulheres. O que ninguém se lembra — ou talvez queira que seja lembrado — é que até 1925 simplesmente metade dos filmes eram de responsabilidade feminina.

Exibido neste ano no Festival de Cannes e com sua primeira projeção brasileira marcada para o Festival do Rio, em outubro, “Women who run Hollywood” explica justamente como e por que as mulheres foram perdendo espaço no cinema ao longo das décadas.

— Um dia, fazendo pesquisa para um outro filme, nós nos deparamos com essa história e ficamos estarrecidas porque nunca tínhamos ouvido falar daquelas mulheres pioneiras. Nós estudamos bastante cinema, já dirigimos mais de 30 documentários sobre a Era de Ouro do cinema americano, mas era a primeira vez que ouvíamos os nomes de Frances Marion e Lois Weber, por exemplo — conta Clara Kuperberg que, junto com Julia, já lançou documentários como “This is Orson Welles” e “John Ford et Monument Valley”.

Frances Marion foi a primeira mulher a ganhar um Oscar de roteiro, por “O presídio” (1930) — ela repetiu o feito dois anos depois, por “O campeão”, um bicampeonato que até então nenhum roteirista homem havia conseguido. Lois Weber foi uma das diretoras mais bem-sucedidas dos primórdios de Hollywood, com mais de 130 produções no currículo, entre eles o polêmico “Hyprocrites” (1915), que mostrou cenas de um então inédito nu frontal feminino. Lois também foi a primeira produtora a ter um estúdio com seu nome.

Além delas, o documentário das irmãs Kuperberg destaca uma série de diretoras, roteiristas, produtoras e atrizes que ajudaram a dar cara a Hollywood. Certamente a mais famosa do grupo, Mary Pickford se juntou, em 1919, a D. W. Griffith, Charlie Chaplin e Douglas Fairbanks, para fundar a United Artists, um dos mais celebrados estúdios de todos os tempos.

Já Mabel Normand dirigiu Chaplin em filmes como “Carlitos no hotel” (1914) e “Carlitos banca o tirano” (1914). Anita Loos foi a primeira roteirista, entre homens e mulheres, a figurar na folha de pagamento regular de um estúdio, ainda na década de 1910 — anos mais tarde, ela se tornou conhecidíssima pelo roteiro de “Os homens preferem as louras” (1953), com Marilyn Monroe.

— Antes de 1925, as mulheres eram mais bem pagas do que os homens — diz Clara. — Hoje, nós só vemos melhorias graças a atrizes como Jennifer Lawrence e Angelina Jolie, que reclamam alto quando não recebem salários equivalentes aos dos homens. Estamos longe de vencer essa batalha da igualdade, mas ao menos o problema está colocado melhor do que há alguns anos.

De acordo com o documentário, a própria formação de Hollywood explica a presença feminina até 1925 e a ausência nas décadas seguintes. “Women who run Hollywood” mostra que, nos primórdios, o cinema não era levado a sério como negócio. Os homens queriam ser contadores, advogados, engenheiros ou médicos, nunca cineastas. Numa época em que o preconceito de gênero era grande, a falta de competição masculina permitiu, então, que as mulheres tivessem seu espaço nos filmes. O mesmo aconteceu com os imigrantes judeus que chegavam da Europa e, também por preconceito, não eram bem acolhidos em ocupações ditas “sérias”. Assim, Hollywood, naquelas primeiras décadas, foi um negócio de mulheres e judeus.

No fim dos anos 1920, contudo, o desequilíbrio de outras profissões chegou ao cinema. A partir da estreia de “O cantor de jazz” (1927), o primeiro filme falado da História, os Estados Unidos perceberam que Hollywood poderia ser um mercado extremamente lucrativo, e os olhos masculinos cresceram para cima das vagas até ali ocupadas por mulheres. A coisa piorou com a Crise de 1929, quando aqueles homens que queriam ser contadores, advogados, engenheiros ou médicos foram perdendo seus empregos e tiveram que diversificar. Muitos foram para a Costa Oeste, buscar no cinema uma alternativa.

O documentário também traça um panorama das lutas dos anos seguintes. Na década de 1930, por exemplo, Dorothy Azner foi a única mulher de Hollywood a dirigir filmes, como “Felicidade de mentira” (1937). No início dos anos 1950, as reuniões do Sindicato de Diretores era aberta por um apresentador com a frase “Boa noite, senhores e senhora Lupino”, porque Ida Lupino, de “O bígamo” (1953), era a única diretora presente.

Das mulheres, Hollywood tinha apenas papéis para atrizes, e ainda assim com salários menores. Assistindo-se a “Women who run Hollywood”, percebe-se como foi árdua a luta até que Kathryn Bigelow recebesse o primeiro Oscar de direção para uma mulher, em 2010, por “Guerra ao terror”.

— Essa diferença de salários e oportunidades foi mais forte nos Estados Unidos por causa do sistema dos estúdios. Na França nós temos mais mulheres como diretoras, porque nossos filmes têm o tamanho dos filmes independentes americanos. Há mais liberdade e se pode oferecer mais pontos de vista — afirma Clara.

Por André Miranda

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