TV Brasil é para dar voz a quem não tem, diz presidente da EBC

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(Folha de S.Paulo, 03/07/2016) O jornalista Ricardo Melo reassumiu há um mês a presidência da EBC (Empresa Brasil de Comunicação). Ele foi reconduzido por determinação do STF (Supremo Tribunal Federal), que suspendeu decisão do presidente interino, Michel Temer, de tirá-lo do cargo.

Melo havia sido nomeado por Dilma Rousseff dias antes de ela ser afastada da Presidência. Ele tem direito a um mandato de quatro anos.

Nesta entrevista à Folha, o jornalista comenta a baixa audiência da TV Brasil, nega que houve aparelhamento do órgão pelo PT e afirma que, como escolas ou postos de saúde, a empresa pode dar prejuízo já que existe para garantir o direito constitucional à informação pública.

Folha – Uma TV privada sobrevive com pouca audiência, desde que dê lucro. Uma TV Pública só tem sentido se chegar às pessoas. E a TV Brasil tem audiência muito baixa. Por que mantê-la?

Ricardo Melo – A Constituição prevê a comunicação privada, a estatal e a pública. A EBC (Empresa Brasil de Comunicação) foi criada com a missão de garantir o direito que os cidadãos têm à informação que não está presa aos interesses de mercado.

Ele equivale ao direito constitucional à educação e à saúde. Assim como o posto de saúde e a escola podem dar prejuízo, a comunicação pública também pode, do ponto de vista de mercado.

Por que as TVs privadas não têm mais programação infantil? Porque a publicidade para crianças foi limitada e elas simplesmente aboliram essa programação. Mas ela continua sendo de interesse público.

Mas, para cumprir a missão, a TV pública deve ter audiência.

O Ibope é uma medição questionada inclusive pelas TVs privadas. E a medição do instituto, em relação à TV Brasil, se restringe a seis regiões metropolitanas: SP, Rio, Salvador, Porto Alegre, Recife e Distrito Federal. O Ibope não mede audiência em parabólicas nem de retransmissoras.

A TV pública no Brasil tem oito anos. A BBC [inglesa] tem 90 anos. Começou com audiência pífia. Nem por isso ela foi fechada. Audiência se conquista pelo hábito e a extensão do sinal da emissora. Nós temos dificuldade de sinal porque não temos dinheiro. No Rio e em SP, alcançamos uma região pequena.

Qual é o custo total da EBC?

É de cerca de R$ 500 milhões. A TV Brasil e a NBR [emissora que presta serviço ao governo] representam 40% disso. Falam que a TV tem deficit de R$ 90 milhões. É preciso esclarecer: ele foi calculado em cima de projetos que gostaríamos de fazer. É uma projeção. Como não teremos a receita, não teremos a despesa. Portanto esse deficit é uma falsidade.

A TV contratou muitos profissionais terceirizados. Por quê?

Na reportagem da TV Brasil, 90% são da casa, concursados, com salários de R$ 5.000, R$ 6.000, R$ 7.000.

Somos uma empresa basicamente de funcionários públicos. Em 2008, quando a EBC foi criada, reunindo empresas como Radiobrás, TVE e Fundação Roquete Pinto, eram 2.572 funcionários, 54% deles de carreira. Hoje são 2.552. E 94% de carreira.

Dizer portanto que o número de trabalhadores dobrou é outra falsidade.

Houve questionamentos em relação à contratação de jornalistas que seriam alinhados com o PT e que foram demitidos quando o sr. foi afastado. Houve aparelhamento?

O mercado de comunicação tem as suas especificidades. Tem pessoas que agregam valor e credibilidade ao produto que você oferece ao público. Se elas aderem a um projeto de comunicação pública dentro dos recursos que a gente tem, isso é um bem para a comunicação pública.

E o suposto alinhamento?

Nunca teve esse critério. A maioria desses jornalistas, aliás, já estava na empresa quando cheguei [em junho de 2015]. Se tinham perfil de esquerda ou de direita, pouco me interessa. Não peço ficha de filiação partidária para ninguém. Mas eu quero falar é do perfil jornalístico deles.

Paulo Moreira Leite [que apresentava o programa “Espaço Público”] trabalhou no Jornal da Tarde, na Folha, na revista Veja, no Estado de S. Paulo, dirigiu a revista Época [das Organizações Globo]. Paulo Markun [que apresentava o “Palavras Cruzadas”] foi da TV Globo e da TV Cultura nos governos do PSDB. Ricardo Melo [referindo-se a si mesmo] trabalhou na Folha, na revista Exame, na TV Bandeirantes, na TV Globo, no site Terra, no SBT.

Sidney Rezende foi da CBN e da GloboNews. Luís Nassif trabalhou na Folha e na TV Cultura em governos tucanos. Tereza Cruvinel trabalhou no jornal O Globo. Quando vêm para a EBC eles viram todos petistas? Isso é um absurdo.

Quanto eles ganhavam?

Muito menos do que ganhariam no mercado. E eles eram contratados como pessoas jurídicas [PJ], que custam menos para a empresa. Ganhavam 12 salários e só. Não tinham 13º, férias, multa por rescisão de contrato.

A Tereza Cruvinel, por exemplo, ganhava R$ 12 mil por mês. O programa do Alberto Dines [Observatório da Imprensa] estava sendo negociado por R$ 500 mil por ano, para toda a estrutura de produção.

Enfim, temos cerca de 20 contratos [terceirizados] contra 2.552 concursados.

Há críticas em relação às abordagens sobre o impeachment.

Nunca no jornalismo falamos que se tratava de um golpe. Mas a TV Brasil se deu a tarefa de colocar todas as manifestações no ar, a favor e contra o impeachment.

Tinha passeata de sem-terra contra, de mulheres, de juristas? A TV Brasil estava lá cobrindo, e só a TV Brasil. A nossa missão é dar voz a quem não tem voz. E esses caras não aparecem nas outras mídias. Agora, em nenhum momento a gente deixou de cobrir qualquer manifestação a favor do impeachment.

Mais do que isso: convidamos sistematicamente gente de todas as posições para falar na TV Brasil. Já convidamos os tucanos José Serra, Aécio Neves, Aloysio Nunes Ferreira e Tasso Jereissati. E convidamos publicamente o presidente em exercício, Michel Temer, para falar na TV Brasil. É mentira dizer que só entrevistamos petistas.

Mônica Bergamo

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