Mulheres pressionam Lula por indicação inédita de ministra negra ao STF

Fachada do palácio do Supremo Tribunal Federal (STF) – Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Fachada do palácio do Supremo Tribunal Federal (STF) – Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

29 de outubro, 2026 Folha de S. Paulo Por Geovana Oliveira

Entidades e eleitoras retomam campanha por representatividade na corte

O presidente Lula (PT) usou os discursos de vitória no último domingo (25) para agradecer ao apoio das mulheres brasileiras e lembrar que trabalhará para eleitores e eleitoras. As mulheres foram um dos grupos nos quais, segundo as pesquisas eleitorais, ele mantinha vantagem em relação a Flávio Bolsonaro (PL).

“As mulheres serão tratadas com muito mais respeito pelas políticas públicas brasileiras”, disse no primeiro discurso após a vitória nas urnas. Ele afirmou ainda que irá se reunir com mulheres, além de empresários e cientistas, nos próximos dias, para discutir o rumo do governo.

Depois, em discurso na avenida Paulista, o presidente eleito reiterou que essa não era uma vitória de “homens”, mas de “homens e mulheres”.

As mulheres já estão com expectativas para que suas pautas sejam prioridade. Uma delas é a indicação da primeira ministra negra para o STF (Supremo Tribunal Federal), cobrança que vem desde o início do atual mandato.

“A gente EXIGE uma ministra, de preferência negra, para o STF”, diz uma publicação com mais de 12 mil curtidas no Instagram, feita na terça-feira (27). Nos comentários, mulheres expressam preocupação com a dificuldade de aprovação do Senado.

Apesar da vitória de Lula, a casa terá uma maioria de direita a partir de 2027 —o PL, de Flávio Bolsonaro, tem o maior número de cadeiras. O grupo terá força para influenciar as indicações do governo, pressionar o Poder Judiciário e amplificar o peso da pauta de costumes.

O impulso de mobilização popular adquirido no segundo turno, porém, parece incentivar as mulheres em suas exigências. “Eu falei que ia cobrar e vou! Cobrem vocês também! Já deixamos bem claro e documentado que o poder é nosso”, escreveu uma usuária. Elas começaram a pedir ajuda ao deputado federal André Janones (Rede-MG), responsável pelo “Exército de Lula”.

Outra publicação, do Instituto Juristas Negras, apresentou a promotora do Ministério Público da Bahia, Lívia Sant’Anna Vaz, como uma opção para a indicação.

Em maio, uma pesquisa do Datafolha mostrou que 51% dos brasileiros dizem ser muito importante e 18% um pouco importante a escolha de uma mulher para a corte. Além disso, 46% dizem ser muito importante e 16% um pouco importante a indicação de uma pessoa negra.

O movimento Mulher Negra no STF ganhou força em 2023, com a saída de Ricardo Lewandowski. Coletivos como o Mulheres Negras Decidem defendiam que o Supremo refletisse a diversidade do país. Lula indicou Cristiano Zanin.

Meses depois, a aposentadoria de Rosa Weber, uma das três mulheres da história do tribunal, reacendeu a campanha. À época, a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) lembrou que mulheres negras são 28% da população e 0% da história da corte. A vaga ficou com Flávio Dino.

Em 2025, o anúncio da saída antecipada de Luís Roberto Barroso abriu nova chance. Lula indicou o advogado-geral da União, Jorge Messias, rejeitado pelo Senado neste ano. A derrota levou entidades a retomar a pressão, e o Educafro enviou ao Planalto uma lista com 15 juristas negras.

Em 135 anos, o STF teve 172 ministros. Apenas três foram mulheres (Ellen Gracie, Cármen Lúcia e Rosa Weber) e três foram negros, todos homens. Nenhuma mulher negra foi nomeada.

No próximo mandato, Lula poderá indicar outro nome para a vaga de Barroso. Terá ainda mais três oportunidades: Luiz Fux completa 75 anos, idade da aposentadoria compulsória, em abril de 2028, Cármen Lúcia em abril de 2029 e Gilmar Mendes em dezembro de 2030.

Ou seja, o presidente tem quatro chances de confirmar que governará para homens e mulheres.

Uma mulher para conhecer

Karen Luise Vilanova Batista de Souza (1970)

Karen Luise é um dos nomes sugeridos a Lula por entidades da sociedade civil para uma vaga no Supremo. Ela foi a primeira mulher negra a integrar o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que passou a ter cinco mulheres pela primeira vez em 20 anos. Indicada pelo STF, teve o nome aprovado pelo Senado em agosto de 2025, por 58 votos a 3.

Formada em direito pela PUC, Karen é mestre em direitos humanos, interculturalidade e desenvolvimento pela Universidade Pablo de Olavide, em Sevilha, na Espanha. É juíza da 3ª Vara do Júri de Porto Alegre. Entre 2022 e 2025, foi juíza auxiliar da Presidência do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), onde supervisionou o Programa de Equidade Racial.

Em entrevista à Folha em 2022, ela falou sobre a presença de negras nas instituições de Justiça. “Uma mulher negra no poder é sempre uma esperança de igualdade de gênero e raça. Uma mulher negra no STF, com representatividade crítica e argumentativa, será propulsora de igualdade racial”, disse.

No CNMP, Karen apresentou em novembro de 2025 uma proposta que eleva para 30% a reserva de vagas nos concursos do Ministério Público, sendo 25% para negros, 3% para indígenas e 2% para quilombolas.

Acesse a edição da newsletter Todas no site de origem.

Nossas Pesquisas de Opinião

Nossas Pesquisas de opinião

Ver todas
Veja mais pesquisas