“Não atrapalhe nosso fluxo”: Criola lança campanha para denunciar omissão do Estado em garantir dignidade menstrual

25 de maio, 2026 Criola Por Redação

Ação visa apontar as falhas na implementação do Programa de Dignidade Menstrual e cobrar maior compromisso do Estado na garantia deste direito. Em 28/05, Criola, a União e mais sete ministérios se reúnem em audiência de conciliação fruto de uma ação civil pública movida por Criola em 2022.

O mês de maio marca o aprofundamento dos debates sobre um tema de grande importância para adolescentes, jovens adultas e pessoas que menstruam: a Dignidade Menstrual. Apesar de ser um processo natural do corpo humano, menstruar com dignidade tem sido um enorme desafio no Brasil.

A pobreza menstrual e a ausência de políticas robustas voltadas para combater este problema geram graves impactos na vida das pessoas que menstruam. Segundo dados da UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), 37% das adolescentes têm dificuldade de acesso a itens de higiene em escolas e espaços públicos; 19% não têm dinheiro para comprar absorventes; 77% já se sentiram constrangidas em locais públicos por estarem menstruadas; quase metade nunca teve acesso à educação menstrual na escola; 6 em cada 10 pessoas já faltaram à escola ou ao trabalho por causa da menstruação.

No Brasil, a pobreza menstrual tem cor e classe definidas: são as jovens negras e periféricas as mais atingidas. Dados do Projeto Novo Ciclo (2021) revelam que 42% das meninas negras já usaram pano velho como absorvente.

A omissão das autoridades públicas no Brasil em propor soluções para um problema que afeta a maioria de sua população resultou em movimentos de pressão para que a União formulasse uma política voltada especialmente para as pessoas que menstruam. A resposta do Estado veio, mas ainda muito insuficiente. O Programa Dignidade Menstrual foi formulado para ser uma iniciativa interministerial criada para promover a saúde, o bem-estar e os direitos de pessoas que menstruam e não têm acesso a itens básicos de higiene. O programa garante a distribuição gratuita e continuada de absorventes higiênicos descartáveis para a população beneficiada, além de propor estratégias para conscientizar a sociedade sobre a naturalidade do ciclo menstrual, fomentando a equidade de gênero, a justiça social e a inclusão educacional. Na prática, houve falhas contínuas em diversas etapas da política, o que dificultou o acesso efetivo do público beneficiário.

Cronologia do Programa de Dignidade Menstrual

2021

A Lei nº 14.214/2021 institui o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual, fruto dos movimentos de pressão da sociedade civil que cobravam maior atenção ao grave cenário de pobreza menstrual ao qual meninas e mulheres, especialmente negras e periféricas, eram submetidas.

2022

Diante da demora do Estado brasileiro em regulamentar e executar de forma concreta a Lei nº 14.214/2021, Criola ingressa com Ação Civil Pública exigindo o cumprimento da legislação e a apresentação de medidas efetivas para implementação do programa. A judicialização foi decisiva para impulsionar uma resposta do poder público, já que mesmo após a sanção da lei, a política permanecia sem operacionalização robusta, orçamento transparente e cronograma público das ações do programa.

2023

Um marco importante é estabelecido: a União apresenta a Portaria Interministerial nº 729/2023, envolvendo os Ministérios da Saúde, Mulheres, Justiça, Educação, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social. O ato representou um marco relevante ao estabelecer diretrizes de implementação e definir públicos prioritários. No entanto, a implementação continuava centralizada no Ministério da Saúde, com foco exclusivo na distribuição de absorventes, com graves falhas operacionais para meninas e mulheres que tentavam acessar a política e sem atender aos demais critérios estabelecidos pelo programa no âmbito da saúde menstrual.

Entre 2024 e 2026

O Programa avança e se torna mais robusto em termos administrativos e operacionais com o Ministério da Saúde tendo um papel central no orçamento e na divulgação de estimativas de cobertura para milhões de beneficiárias. Também foram desenvolvidos sistemas internos de monitoramento, painéis gerenciais e materiais educativos. Apesar disso, grande parte dessas informações segue sem transparência pública plena, limitando o controle social e a avaliação independente da política pela sociedade civil.

“Não atrapalhe nosso fluxo”: uma campanha de pressão para denunciar a omissão do Estado

A Ação Civil Pública movida por Criola completou cinco anos ainda sem as respostas sobre a plena implementação do Programa Dignidade Menstrual. No dia Dia Internacional da Dignidade Menstrual, 28/05, às 14h, acontece uma Audiência de Conciliação entre Criola, a União e os sete ministérios envolvidos na implementação do Programa.

A campanha “Não atrapalhe nosso fluxo” é parte da mobilização de Criola e organizações parceiras para visibilizar a audiência e pressionar o Estado a garantir a implementação plena do Programa Dignidade Menstrual. A ideia é aprofundar a visibilidade nacional do tema para pautar a imprensa e as redes sociais por meio de ações em onda, além de provocar pressão pública ao demonstrar o interesse da sociedade civil e expor o custo político da omissão do Estado.

Saiba como engajar na campanha

Se você quer engajar nesta campanha, aqui estão alguns caminhos para se somar a esta luta:

  • Responda ou compartilhe a pesquisa sobre o Programa de Proteção e Promoção da Saúde e da Dignidade Menstrual. Levaremos estes dados para a audiência de conciliação AQUI.
  • Fale sobre o tema em suas redes e espalhe entre amigues e familiares. Use as hashtags #NãoAtrapalheNossoFluxo #DignidadeMenstrual. Marque a gente! @ongcriola
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