O peso das mulheres na avaliação dos 100 dias de governo Bolsonaro, por Matheus Pichonelli

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O apoiador típico de Jair Bolsonaro é homem (38%), branco (39%), evangélico (42%), tem entre 35 e 44 anos (35%), ensino superior (36%), mora no Sul (39%), é empresário (57%) ou vive de renda (71%) e ganha entre 5 e 10 salários mínimos (43%).

(Universa, 11/04/2019 – acesse no site de origem)

É o que mostra uma análise detalhada da pesquisa Datafolha divulgada no início da semana, que aponta a pior avaliação de um presidente nos três primeiros meses de mandato.

Eleito com 57,7 milhões de votos, o capitão reformado tem a gestão aprovada por 32% dos entrevistados pelo instituto – contra 30% que o desaprovam. Sinal claro da polarização que o país não conseguiu desatar após a eleição.

Para entender os números, é necessário entender o peso das mulheres na (má) avaliação do presidente. Se entre os homens o governo é aprovado por 38%, entre elas, o índice cai para 28%. Um total de 26% do público masculino considera a gestão ruim ou péssima. O índice vai a 33% quando elas opinam.

Entre os homens, a nota média dada ao presidente é de 5,7%. Entre mulheres, cai para 5,1% (19% delas deram nota 1 para a administração). Mal dá para passar de ano.

Nesse recorte, apenas 11% dizem que o presidente fez mais pelo país do que esperavam e o índice das que dizem o contrário chega a 63%, cinco pontos percentuais a mais em relação aos homens.

A maioria delas acha que Bolsonaro “trabalha pouco” (53%), é orgulhoso (53%), antiquado (52%), respeita mais os ricos (60%) e é autoritário (61%).

Um quarto das entrevistadas acha que em nenhuma situação Bolsonaro se comporta de maneira adequada para um presidente (contra um índice de 20% dos homens) e 40% o considera “falso” (contra 29% dos homens).

Entre o público feminino, é também menor a expectativa de que Bolsonaro fará um bom governo (56% contra 62% entre homens).

O que dizem os números?

Os números ajudam a explicar o descasamento entre o governo e as mulheres, que compõem 52% do eleitorado.

São elas as principais afetadas pelo projeto de reforma da Previdência, projeto que deve aumentar o tempo de contribuição para quem faz e para quem não faz jornada extra em casa. A proposta é rejeitada por 56% das mulheres — o índice é de 48% entre homens. A maioria delas (66%) diz ser contra a ideia de se aposentar aos 62 anos.

Desde que assumiu, Bolsonaro escolheu apenas duas mulheres entre 22 ministérios – uma delas, Damares Alves, foi citada, em ato falho, como titular de uma pasta sem muita importância. Ele até conversa com ela, veja só.

A menção dá uma demonstração do que o presidente pensa sobre mulher, família e direitos humanos, os temas pelos quais a ministra é responsável. Isso acontece em um país onde o Exército pode alvejar, por “engano”, o carro em que uma família se dirigia a um chá de bebê. A viúva de uma das vítimas espera até agora uma mensagem de condolências.

Uma das hipóteses da falta de apoio é justamente a baixa representatividade de mulheres no governo, reflexo de posições de um político que se cercou de auxiliares homens ao longo da vida pública. Antes de se candidatar a presidente, ele já disse que não empregaria mulheres para ganhar o mesmo salário de homens, agrediu verbalmente colegas deputadas e declarou que não comentaria a morte de Marielle Franco para não expor uma “opinião polêmica”.

Outra hipótese para explicar a desconexão entre o governante e as mulheres é a escalada do discurso em favor do armamento e do enfrentamento, com o empoderamento de verdadeiros Rambos dispostos a legar ao país uma legião de viúvas e mães sem filhos – se forem inocentes, “acontece”, diria o ministro da Justiça, Sergio Moro.

Pelo horizonte, não há nada, até agora, a apontar que elas podem mudar de opinião em relação ao presidente que compartilha pornografia no Twitter e diz que é nisso o que se transformou o Carnaval.

Como escreveu certa vez a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, ao analisar a derrota parcial na campanha do “Ele não”, um movimento iniciado por mulheres, há muita energia vinda por aí. “As adolescentes feministas irão crescer, e o mundo institucional terá que mudar para recebê-las”, prevê.

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