Politizado, palco feminino é celebrado, mas mulheres reclamam de segurança

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(UOL, 22/05/2016) Maria Rita encerrou o palco dedicado às mulheres da Virada Cultural 2016, em São Paulo, com muito samba e celebrando a liberdade de expressão.

Os gritos de “Fora Temer” logo ecoaram entre o público que lotou a avenida São João, mas diferente de outras cantoras que passaram pelo palco, Maria Rita se limitou a dizer que apoiava toda forma de manifestação. “Para bom entendedor, meia palavra basta”. Não faltou, no entanto, um hino da redemocratização política, “É”, de Gonzaguinha, encerrando os shows do local, um dos mais politizados do evento.

De Valesca Popozuda à Elza Soares, o grito foi contra o governo interino e pelas mulheres, que tomaram a avenida, embora ainda receosas com a violência.

Roseli Souza, de Santo André, na Grande São Paulo, disse que só veio à Virada porque estava com outras amigas. “Não viria sozinha, mesmo de dia. Embora tenha policiamento, eu não me sinto segura”.

A paulista Isabella Silva de Almeida, 35, esteve nas ruas na noite de sábado para assistir Ney Matogrosso, mas decidiu voltar à Virada só na manhã deste domingo. “Quando você é mulher e está sozinha, as pessoas te empurram, é como se você não existisse. Eu evito”, disse. Sozinha, ela curtiu o show de Teresa Cristina, e aprovou o palco feminino. “É uma marca, faz a gente pensar que precisava de um lugar de destaque em todos os lugares”.

Antes de subir no palco para apresentar o repertório delicado de Cartola em voz e violão, Tereza Cristina pediu que o palco sirva de exemplo: “As pessoas não estão entendendo quando falamos que não tem mulheres e negros nos ministérios ou nos palcos. É de representatividade que estamos falando”.

Representatividade até na segurança. Desde sábado, apenas mulheres faziam a guarda do palco. “Achei bom, porque é todo das mulheres”, disse Tatiane Silva Santos, 30, que faz a segurança da Virada há dois anos. “Mas quando acontece briga, são só os seguranças homens que podem intervir”, lamentou.

Alvo de protestos desde a noite de sábado, quando secundaristas e manifestantes pularam a grade para estender faixas contra o governo interino de Michel Temer, o palco teve um clima mais ameno no domingo, mas Tereza trouxe de volta o coro: “Vaza, você que não ousamos dizer o nome. Golpe não. No meu palco não”.

Mais cedo, ao UOL, ela demonstrou preocupação. “Estamos retrocedendo. Já temos Bolsonaro e Feliciano. Agora vem essa virada de tempo, essa puxada de tapete. Estamos voltando à Grécia antiga, daqui a pouco volta um monstro de sete cabeças”, disse. “Eu cresci ouvindo que política não se discute e aí dá nisso, as pessoas chamam os artistas de vagabundos”.

Para celebrar o palco, pediu licença a Cartola e cantou Dona Ivone Lara. “Hoje é o dia”, disse.

Leci Brandão

Não muito longe do palco das mulheres, na praça Princesa Isabel, outra mulher também fez uma apresentação muito política no início da tarde deste domingo. A cantora e compositora Leci Brandão, deputada estadual pelo PC do B, fez um show permeado com discursos de apoio aos estudantes paulistas, às ocupações, às cotas para negros e contra a polícia e o governo interino de Michel Temer.

“Viva os professores, viva os estudantes, viva a ocupação” disse antes de cantar “Anjos da Guarda”, música dedicada aos professores. “Adorei a homenagem. Estou emocionada. O Brasil só melhora com educação e cultura.”

A sambista ainda se manifestou a favor das cotas e do movimento negro. “Estamos na Praça Princesa Isabel e lá atrás fizeram a Lei Áurea de qualquer jeito. Por isso hoje estamos lutando pelas cotas”, disse.

Ao cantar “Deixa, Deixa”, Leci pediu o fim das mortes de jovens da periferia pela polícia. “Não dá para acabar com jovens da periferia. Tem que terminar esse negócio de ter três e quatro pretos e passar bala.” O clássico “Casa de Bamba” ganhou uma nova versão: “Aqui todo mundo é bamba, todo mundo bebe, todo mundo faz manifestação.”

Após uma hora de apresentação, a sambista deixou o palco puxando o grito de “Fora Temer” e foi acompanhada pelo público. “Não é apenas pelo momento que nosso país está passando, mas a Virada é a oportunidade do artista se posicionar, mostrar quem é. E eu sempre fui de esquerda, sempre estive ao lado dos que são discriminados”, disse a artista ao UOL.

Sem gravar há quatro anos, Leci Brandão disse que tem encontrado pouco espaço nas gravadoras. “Mas ao ver essa praça lotada, eu fiquei emocionada e isso me dá mais força para ir atrás. Em 2016, vai ter CD novo”, avisou.

Tiago Dias e Jussara Soares

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