A preta e a presidenta, por Mario Sergio Conti

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(Folha de S. Paulo, 05/09/2014) Não houve bafafá porque Marina Silva, ao registrar sua candidatura no Tribunal Superior Eleitoral, tenha se dito da “cor/raça preta”. Pelos dados do TSE, ela é minoria.

Mais da metade dos candidatos em outubro se declaram brancos. Pardos são 35%. Negros não chegam a 10%. Somados, amarelos e índios ficam com menos de 1%.

Marina está também noutra minoria, a de três mulheres entre os oito marmanjos que almejam o Planalto. Em se mantendo o quadro atual, porém, duas delas chegarão ao segundo turno.

É mais um atestado de que o machismo, tão evidente na sociedade, não é empecilho à votação de uma mulher para o cargo máximo da República.

Se assim for, estarão na segunda rodada duas egressas do campo popular. Periga ficar de fora o brancão da elite, Aécio Neves, que ainda por cima abusa da pinta de janotinha na propaganda eleitoral. Fernando Henrique Cardoso ao menos cultivava ter, como repetia, “um pé na cozinha”.

Elas militaram na esquerda em priscas eras. Dilma Rousseff esteve na luta armada socialista e depois no populismo brizolista. Marina foi dirigente no Acre da Central Única dos Trabalhadores e do PT.

Ambas estiveram no âmbito da razão iluminista e vieram do mundo do trabalho. Depois de puxar uma cana brava, Dilma estudou economia e serviu como funcionária pública. Marina foi seringueira, veio a se diplomar em história e teve formação em psicanálise.

Cabe então a pergunta: para melhorar a vida dos negros e das mulheres, as origens têm importância decisiva? Sim, responde o senso comum, já que em boa medida uma pessoa é o que foi. Marina e Dilma, que não repudiam o seu passado, deram um passo além.

Como a raça e a cor da pele não podem ser aferidas com objetividade, o TSE classifica o que os candidatos falam de si. Marina, descendente de africanos e portugueses, poderia ter se dito mestiça. Ninguém estranharia. Mas ela foi lá e tascou “preta”.

Já Dilma quer ser chamada de “presidenta”. Como uma lei de 1956 determina que se use a forma feminina para as mulheres que ocupam cargos públicos, está correto. “Presidenta” não é eufônico porque ela é a primeira a exercer a função. Marina e Dilma escolheram como querem ser vistas.

Mas uma pessoa não é só o que foi e fala. Há o passado, as opções que faz ao longo do tempo. Há o presente: a lealdade ou a traição das origens se dão sempre aqui e agora. Uma mulher, branca ou negra, não é o que diz de si, e sim o que fez e faz.

Há também a nossa história. Ela pode ser vista na esplêndida exposição “Histórias Mestiças”, ora à mostra no Instituto Tomie Ohtake. Organizada por Lilia Schwarcz e Adriano Pedrosa, ela é acompanhada por uma antologia do mesmo título, igualmente arrepiante.

As imagens e textos recenseiam o que se produziu a respeito da mestiçagem. Neles estão a terra radiosa onde vive um povo triste. Os desterrados em nossa própria terra. O povo endomingado na periferia sem um centro. A humanidade que conclui a sua obra ao mesmo tempo em que fecha a sua prisão.

Há os anúncios de busca de “crioulos fugidos”. Eles não são publicados mais, ainda que os jornais estejam cheios de propaganda de mulheres que vivem da prostituição.

“Histórias Mestiças” mostra o que o Brasil, comunidade imaginária e real, foi e se tornou. Para além das raças (e acrescente-se os gêneros), prepondera o papel das classes, da luta política entre elas, na formação nacional.

A formação não findou. Na manhã em que fui à exposição, a maioria dos que a visitavam eram mulheres. Havia só uma negra, mas falava inglês, era gringa. Quase todos os funcionários do Tomie Ohtake são mestiços. Na saída do Instituto, um negro puxava uma carroça cheia de papelão.

O passado não passou de todo. A história prossegue no país da preta e da presidenta.

Acesse o PDF: A preta e a presidenta, por Mario Sergio Conti (Folha de S. Paulo, 05/09/2014)

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