Quando as putas são nossas, por Ilka Oliva Corado

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(Diálogos do Sul, 01/06/2015) Eu me lembro claramente de um meio dia quando voltava para casa depois da escola quando estava no primário, e que me agarrei aos socos com uns moleques e cheguei em casa toda estropiada e com a barra do uniforme desfiada. Minha pobre mãe que me considerava a filha indomável me perguntou desanimada: e agora, com quem você brigou? Com uns moleques do colégio que me chamaram de filha da puta e eu não vou permitir que ninguém insulte você. Ela me agarrou e me disse: mete na cabeça que todas as mulheres somos putas e que isso não é insulto nenhum. Desde esse dia deixei de ver esse negócio de puta como uma ofensa.

Há alguns anos fomos com umas amigas a um bar e enquanto desfrutávamos de umas bebidas aproximou-se um Don Juan e conversamos muito amenamente. Acontece que ele era cigano e sabia ler as mãos e a elas lhes disse que seriam vovozinhas e que morreriam com quase noventa anos; mas para mim, olhando a palma da minha mão disse com toda a seriedade do caso: você é uma puta. Minhas amigas quase se afogam com a bebida ao escutar semelhante afirmação, Eu, muito tranquila respondi que isso eu já sabia e que queria que me dissesse algo que eu não soubesse. Todas chorávamos de rir. Disse então que eu morreria de um infarto no coração antes dos 45 anos. Ainda tenho mais dez para continuar enchendo o saco.

Outra vez conversando com uns pintores que recém me haviam apresentado, surgiu o assunto da maconha e eu lhes disse que queria experimentá-la; um deles me disse que com muito prazer um dia nos reuniríamos e faríamos a farra de nossas vidas; outro não acreditou que eu jamais tinha provado a erva e me disse: Não me leve a mal, mas não creio que não se drogue. Por quê? Porque logo se vê… Logo se vê, puta que pariu… Começou a rir às gargalhadas e me disse, sim, não queria dizer assim, mas é verdade que se nota a sexualidade. E isso o que tem a ver com a droga? eu disse. Todas as mulheres somos putas, que umas finjam que são santas é outra coisa.

Voltei para casa pensando no contexto social que tem essa palavra. Outro dia vi nas notícias que violaram e assassinaram uma menina de 13 anos “porque era puta”. Os adolescentes que o fizeram tinham entre 16 e 17 anos. Foram 4 que a violaram várias vezes vaginal e anal e a asfixiaram e a deixaram caída em um barranco. Quando a polícia os encontrou, declararam que a violaram porque era puta, porque usava minissaia.

Lendo um artigo que falava da II Guerra Mundial, aí se explicava que os soldados aliados violaram a mais de um milhão de mulheres e meninas alemãs e como consequência nasceram milhares de crianças.

No documentário A Guerra Contra as Mulheres estão os testemunhos de 20 mulheres de diferentes idades e nacionalidades. São desgarradores e aí se denunciam as constantes violações que vivem as mulheres no âmbito social do Conflito Armado. Bósnia, Uganda, Ruanda e Sérvia, são as nacionalidades de onze mulheres que relatam a tragédia que viveram. O tempo e as circunstâncias dessas guerras não mudam o abuso que elas sofreram como mulheres.

Nas estações de trem dos Estados Unidos todos os dias abusam sexualmente de meninas, adolescentes e mulheres e a polícia já considera isso uma coisa normal, E, da mesma forma, os meios de comunicação dão a notícia sem a menor importância, quase para preencher espaço no ar, nada mais.

A estudante da Universidade Columbia que foi abusada sexualmente no campus, que denunciou e que as autoridades da universidade não levaram a sério sua denúncia, e da mesma forma as autoridades do Estado, optou por arrastar um colchão durante meses e essa foi sua forma de manifestar a injustiça que havia vivido; e há poucos dias levou também o mesmo colchão para sua colação de grau. Várias amigas a ajudaram. As autoridades da universidade e o público a chamaram de louca.

Como um escândalo de santinhas e feministas foi chamada a denúncia que fizeram vários setores em prol da infância e dos Direitos Humanos contra o concurso “Miss Tanguinha” na Colômbia. Não deu em nada. Seguramente continuará a ser realizado todos os anos se a sociedade não se pronunciar; e as meninas serão expostas como carne fresca à lascívia dos machos alfa filhos legítimos do patriarcado abusador. E que não nos surpreenda saber de violações sexuais e feminicídios em torno a esse concurso.

Um informe do Governo da Colômbia e das FARC afirma que soldados dos Estados Unidos violaram 54 meninas colombianas entre 2003 e 2007 e que venderam os vídeos para a indústria da pornografia.

No programa jornalístico da Univisión, Aqui e Agora, há algumas semanas apresentaram um especial com a denúncia das festas sexuais que organizava a DEA com “prostitutas de narcotraficantes” na Colômbia. Em um contexto absolutamente sexista, ofendendo as trabalhadoras sexuais e colocando como vítimas os agentes da DEA. Não valeu de nada uma denúncia do tráfico de meninas, adolescentes e mulheres para exploração sexual.

Em novembro do ano passado, recebi um e-mail de um docente de uma universidade que tinha o título de “felicidades em seu dia”. Tinha destinatários múltiplos. E foi enviado apenas a mulheres. Quando li o texto, vi que se referia ao Dia Internacional da Eliminação da Violência contra Mulher. Felicidades em seu dia? Por acaso há felicidade em falar da violência de gênero? Por que enviar apenas para mulheres? Assim acontece com o Dia Internacional da Mulher. Nos eventos a que tenho assistido em geral só vão mulheres, porque os homens dizem que as mulheres devem celebrar entre elas mesmas esse dia, que eles não têm nada a ver com isso.

Na Colômbia o dia 25 de maio é o Dia pela Dignidade das Vítimas de Violência Sexual. O decreto foi uma medida de reparação para a jornalista Jineth Bedoya e também para as vítimas de violência sexual. No ano 2000, a jornalista, enquanto realizava uma investigação foi sequestrada e violada por três paramilitares. Nove anos depois ela decidiu dar seu testemunho publicamente e liderou a campanha “Não é hora de calar”.

Na Argentina está no auge a campanha “Nem uma menos”. Espera-se que as praças do país se encham de manifestantes no próximo dia 3 de junho, exigindo um fim dos feminicídios. Da campanha participam artistas, políticos, defensores de Direitos Humanos e a própria presidenta Cristina.

No México os feminicídios são por dia o triplo dos 43 estudantes desaparecidos de Ayotnizinapa. No entanto, não há campanha nem nacional nem internacional que lhes dê visibilidade. A mídia não cobre essas notícias que já não têm importância. Aí vão as loucas, lhes dizem às mulheres aguerridas que saem a manifestar o repúdio a essa violência que só aumenta e não parece que vai desaparecer. Por parte do governo do México foi tachada de puta a jornalista Lydia Cacho que também sofreu tortura e violência sexual. Há alguns dias, a adolescente Yakuri Rubio foi declarada inocente do homicídio de seu violador. No entanto, a classe conservadora e religiosa do México a acusa de ser culpada de sua violação e do assassinato. Chamam-na de puta.

Na Guatemala manifestações de massa pelo fim da corrupção, mas nem uma só pelo fim dos feminicídios que já têm um número significativo de vítimas, e que terminam sendo casos guardados nos arquivos mortos do Ministério Público.

As meninas, adolescentes e mulheres migrantes que viajam sem documentos, em todas as fronteiras do mundo são a carnada, são abusadas uma e outra vez e não há forma de denunciar porque nas categorias em que se etiquetam os seres humanos, os Direitos Humanos e as vidas delas não contam.

Quantas vezes já escutamos a expressão “isso aconteceu por que é puta”? Quantas vezes a repetimos? E minha pergunta é: o que aconteceria se as putas fossem nossas? Isto é, se as vítimas de violência sexual fossem nossas irmãs, amigas, filhas, cunhadas, companheiras de trabalho, mães. Continuaríamos desclassificando-as e com isso isentando de culpa o agressor? E se o agressor fosse nosso irmão, pai, amigo, cunhado, avô, companheiro de trabalho? ¿Solaparíamos a agressão? ¿Por que não agimos já? Por que tem que haver um laço de sangue ou afetivo para saber que a violação é um delito e tem que ser castigado? Por que o que fazem desconhecidos, ou o que acontece a desconhecidas não nos indigna da mesma forma?

Ontem fui me deitar pensando no contexto sociopolítico e cultural que tem a palavra puta. Além do contexto sexual que é óbvio. Por aí li uma frase que dizia: “as mulheres decidimos quando, onde e por onde”. Por que os homens não são capazes de respeitar isso?

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