Rio-2016: a Olimpíada das ‘guerreiras’, não das ‘musas’, por Nathalia Garcia

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Sucesso de atletas brasileiras deve aumentar debate sobre o poder feminino

(O Estado de S. Paulo, 27/08/2016 – acesse no site de origem)

Corra como uma mulher, nade como uma mulher, jogue como uma mulher, lute como uma mulher. Essa é a mensagem que as atletas dos Jogos Olímpicos do Rio transmitiram ao mundo todo durante 15 dias de competição. A Rio-2016 não foi a Olimpíada das “musas”, mas das “guerreiras”. Com “elas” em destaque, o debate sobre o poder feminino no esporte ganhou corpo e deve ser mais um passo para a transformação de uma mentalidade machista e arraigada.

“Com as conquistas das mulheres, a discussão está ganhando consistência. O principal legado dessa Olimpíada em relação às mulheres é a ampliação de consciência, a evolução no pensamento em relação ao esporte feminino”, afirma Maíra Liguori, diretora do projeto feminista Think Olga, que lançou a iniciativa Olga Esporte Clube, voltado para prática esportiva por mulheres.

O feminismo olímpico chamou atenção quando um jovem torcedor riscou o nome de Neymar na camisa da seleção brasileira e escreveu o de Marta logo abaixo. Ficou ainda mais forte com a conquista da judoca Rafaela Silva, o primeiro ouro do Brasil na Rio-2016. E continuou na boca do povo com as equipes femininas de handebol e vôlei e com o pódio das velejadoras Martine Grael e Kahena Kunze.

Não foram só as brasileiras que chamaram atenção, ressaltando a atitude das jogadoras egípcias de vôlei de praia Nada Meawad e Doaa Elghobashy, que ocuparam o terreno do biquíni com camiseta de manga comprida e calça. “É um esporte que nós mulheres ficamos vulneráveis pelo fato de o uniforme ser um biquíni, que mostra muito do nosso corpo”, afirma a brasileira Bárbara Seixas, medalhista de prata.

Essas e muitas outras atletas mulheres quebraram barreiras, que foram sendo colocadas antes mesmo do profissionalismo. A masculinidade no meio esportivo é um entrave para muitas meninas durante a fase de desenvolvimento e, anos mais tarde, a beleza ganha enorme influência na prática do esporte. Liguori classifica a superação desse modelo como uma forma de “teimosia”. E esse caminho chega ao esporte de alto rendimento.

“A mudança do esporte feminino tem sido mundial com a luta das mulheres, a voz feminina falando que é possível. Acredito que a gente não tem de tentar se comparar com os homens. Mulher tem que fazer o seu papel e, assim, conseguir igualar um pouco as condições”, afirma Alexandra Nascimento, da seleção feminina de handebol.

Os estereótipos também perderam terreno durante os Jogos Olímpicos. A fragilidade deu lugar para a força, e a beleza das esportistas não chamaram mais atenção que o desempenho delas. Isso não quer dizer que o termo “musa” tenha sido extinto do noticiário esportivo. “Eleger a mais bela esportista é uma desqualificação total, o que é a beleza? Ninguém está preocupado se o Neymar é bonito ou é feio, são padrões que as pessoas vão construindo”, afirma Eva Alterman Blay, diretora do Escritório USP Mulher e professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH).

O rótulo de “musa” divide opiniões entre as atletas, muitas encaram hoje o termo como pejorativo. “Isso de musa ofusca meu lado como atleta. Eu sou medalhista pan-americana, ganhei prata e ninguém vê isso. Fico meio frustrada”, desabafou Ingrid Oliveira, dos saltos ornamentais. A brasileira, que ganhou fama após publicar uma foto de maiô nos Jogos Pan-Americanos de Toronto e se envolveu em uma polêmica na Vila Olímpica, diz ter mudado sua postura nas redes sociais. “Vejo as redes hoje como forma de divulgar meu trabalho”, explica.

A internet, no entanto, continua sendo meio da propagação de preconceitos contra a mulher. Uma das vítimas foi a nadadora Joanna Maranhão. “Desejar que eu seja estuprada, que minha mãe morra, comemorar que não peguei uma semifinal, não estava preparada”, lamentou. E resumiu sua opinião: “Brasil é um país machista, racista, homofóbico e xenofóbico. Quando essas pessoas estão atrás de um computador, elas se acham no direito de fazer essas coisas.”

Ouro na classe 49er FX da vela, Martine e Kahena contribuem e muito para o poder feminino. A dupla espera que a conquista inspire outras mulheres no esporte. “Estamos representando as garotas, a vela e o esporte. Estamos muitos contentes de representar isso.”

A expectativa é de que esse “insight” que os Jogos Olímpicos proporcionou seja apenas a primeira peça de um dominó contra o preconceito no esporte feminino. “Os Jogos Olímpicos vieram mostrar o quanto as mulheres estão crescendo no meio esportivo, o quanto estão tomando a liderança. Isso é um espelho para a nova geração. Que as meninas possam olhar com uma outra visão tudo o que aconteceu e se espelhar nessas atletas”, afirma Janeth Arcain, ex-jogadora de basquete e prefeita da Vila Olímpica da Rio-2016.

Colaboraram Ciro Campos e Paulo Favero

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