Com creches fechadas por coronavírus, mães de baixa renda procuram ‘crecheiras’

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O fechamento de creches da Prefeitura a partir desta semana por causa do novo coronavírus deixou as mães das classes de menor renda ­- que têm de continuar trabalhando apesar da pandemia ­- em situação mais difícil ainda. A saída tem sido buscar as “crecheiras”, mulheres da comunidade que ganham a vida tomando conta dos filhos de outras mulheres, também da comunidade.

Claudia Regina Di Silvério, de 48 anos, é “crecheira” na comunidade de Paraisópolis, zona Sul da capital paulista. “Aumentou na última semana o número de mães querendo deixar seus filhos comigo”, conta. Normalmente ela toma conta de nove crianças. Na semana passada apareceram mais nove crianças, cujas mães queriam que ela cuidasse por causa do fechamento da creche. “Não pude atender porque é muita aglomeração e o meu espaço é pequeno”, diz. Nesta semana, com algumas empresas mandando os trabalhadores ficarem em casa, o movimento foi no sentido oposto: o número de crianças que ela cuida caiu para três.

O médico infectologista do Instituto Emílio Ribas, Jean Gorinchteyn, adverte que o risco de contaminação do novo coronavírus é o mesmo quando as crianças ficam na casa das “crecheiras”. “A creche só mudou de endereço”, ressalta.

O fechamento de creches continua sendo um problema para mães que são diaristas na prestação de serviços domésticos, isto é, só ganham quando trabalham. E outras que estão empregadas em setores essenciais, como o de alimentação, que não pararam de funcionar mesmo com a pandemia.

Com o dinheiro contado e temendo perder o emprego que acaba de conseguir faz um mês, a auxiliar de cozinha, que não quer ser identificada, conta que está pagando R$ 300 por mês para a sua irmã tomar conta do filho de dois anos. Ela optou por essa saída porque acha que é menos arriscada para criança, pois a sua irmã toma conta de uma criança só.

Mas isso vai pesar muito no bolso da auxiliar de cozinha, que trabalha numa rede de restaurantes que passou atender somente por meio de serviços de entrega. Ganhando cerca de R$ 1 mil, ela gasta R$ 330 com aluguel e agora terá essa despesa adicional. Sobra, portanto, muito pouco dinheiro para as outras despesas básicas. “Não posso faltar, não posso perder este emprego, a minha empresa já demitiu 150 pessoas.”

Também moradora de Paraisópolis, Débora Yamamoto de Mello, de 24 anos, assistente de telemarketing, é outra mãe que foi afetada pelo fechamento das creches. Ela deixava o filho Bernardo, de 4 anos, meio período na creche e meio período com a “crecheira”. Agora ele terá de ficar três dias inteiros na semana com a “crecheira” para que Débora possa trabalhar. Ela conta que sua carga de trabalho foi reduzida de seis para três dias na semana.

Ganhando um salário mínimo e com o marido autônomo, isto é, ele só tem renda se trabalhar, Débora está há quatro meses no emprego no callcenter e ficou muito preocupada com o risco de perdê-lo. “Se não fosse a ‘crecheira’ estaria em apuros, não tenho reserva financeira para pagar as contas.”

Apesar das dificuldades, Débora concorda com o fechamento das creches e escolas determinado pela Prefeitura que vai de hoje, 23 de março, a 19 de abril. Ao todo serão afetados mais de 1 milhão de alunos da rede municipal de ensino, distribuídos  em mais de 4 mil escolas e 2,5 mil Centros de Educação infantil que atendem crianças de zero a três anos de idade.

Para crianças entre zero e três anos de idade, cujos responsáveis trabalham em serviços essenciais como nas áreas da saúde, segurança, assistência social e serviço funerário que não tenham condições de manter seus filhos em casa, a Secretaria Municipal de Educação (SME) abriu o cadastramento para que essas crianças sejam atendidas. O cadastro para esse atendimento está aberto e termina hoje (23). O formulário pode ser acessado clicando aqui.

Por Márcia De Chiara

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