Prostitutas se dividem entre ir à rua e suspender atendimento no DF

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Algumas profissionais do sexo mantêm contato com clientes mesmo diante do risco de contágio pelo novo coronavírus

(Metropoles.com, 14/04/2020 – acesse no site de origem)

Efeito colateral da pandemia do novo coronavírus, a crise provocada pelo isolamento social atinge os mais diversos setores econômicos. Nem mesmo o mercado de prostituição local conseguiu escapar dos prejuízos causados pela quarentena.

Com brasilienses mais reclusos e temerosos quanto ao risco de contágio da Covid-19, o setor viu o movimento cair drasticamente durante o período de quarentena.

Metrópoles ouviu 10 profissionais do sexo, que se dividem entre as que optaram por suspender os serviços e as que ainda se arriscam em sair às ruas.

Acostumada com o incessante vai e vem de carros na W3 Norte, Paola* afirma que a procura pelo serviço de acompanhante reduziu pela metade. Ela culpa o medo das pessoas em contrair a Covid-19. No entanto, mesmo diante do risco, volta ao ponto todos as noites à espera de novos clientes.

“Não me resta alternativa. As boates também fecharam, então o jeito é irmos para a rua mesmo. Eu costumava fazer o serviço de acompanhante, por telefone. Mas caiu muito a procura, precisei sair de casa”, afirmou.

Paola conta que colegas de profissão seguiram o mesmo caminho ou adotaram alternativas para garantir o sustento durante a quarentena. “Conheço meninas que só estão fazendo programa com clientes já conhecidos, outras estão fazendo sexo por telefone mesmo”, disse.

Há, contudo, profissionais que suspenderam totalmente os programas em função do elevado risco. “Mesmo com todos os cuidados redobrados, acredito não ser o suficiente. Não temos noção de como serão as coisas nos próximos dias, mas o que temos certeza é de que nossa saúde deve ser priorizada”, afirmou Pietra*.

“Drama social”

O temor não é mero alarde. Segundo o infectologista José Davi Urbaez o fato de não haver transmissão de coronavírus por meio de relações sexuais não isenta as profissionais do sexo do risco de contraírem Covid-19.

“Não há transmissão de coronavírus por meio de secreções sexuais. No entanto, existe uma transmissão direta, que se dá por gotículas, pela proximidade das vias respiratórias. Não vejo alternativa para esses profissionais, não há como manter relações sexuais desta maneira [corpo a corpo] sem eximir o risco de contágio por transmissão direta”, explicou.

O diretor científico da Sociedade Brasileira de Infectologia classificou a situação das mulheres como “um drama social”.

“São pessoas extremamente vulneráveis, que, em caso de infecção, poderão vir a ser vetores da doença para os clientes. Este é um aglomerado epidemiológico importante. Se essas profissionais continuam exercendo a profissão em tempos de isolamento, poderá ser um risco. Não tenho dúvida que é uma preocupação”, pontuou Urbaez.

Sexo virtual

A situação é dramática para as profissionais que garantem o sustento por meio da relação direta corpo a corpo com seus clientes. O jeito, segundo Gabriela*, foi investir na modalidade do sexo virtual.

“Tenho anunciado em sites de acompanhantes, estou fazendo atendimentos por vídeo ou então por ligações de telefone. Também tenho vendido fotos íntimas, a gente se vira como pode. Está sendo bem difícil”, disse.

Metrópoles mostrou na última semana que sites de hospedagem dos vídeos e de anúncio de serviços de acompanhantes começaram a registrar aumento no número de visitantes diários.

A recomendação para que as profissionais do sexo invistam na modalidade do sexo virtual partiu da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves.

“Mas não é na crise que nascem as boas ideias? Se tiver que trabalhar, converse com seus clientes, tente a opção do serviço virtual”, defende a pasta em cartilha com dicas de prevenção às profissionais.

Em nota, a Secretaria da Mulher do Distrito Federal afirmou que tem orientado que as profissionais, assim como todos os cidadãos, “cumpram o decreto do Executivo local que determina que as pessoas fiquem em casa por conta da pandemia causada pelo coronavírus”.

A pasta afirma que os atendimentos estão sendo realizados no Centro de Atendimento Especializado à Mulher (Ceam) e que as mulheres que precisarem de amparo da secretaria podem acioná-la pelo telefone: (61) 99415-0635.

*Nomes fictícios para preservar as entrevistadas

POR VICTOR FUZEIRA

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