“Vaca” até quando?: no Dia Internacional da Mulher, a presidenta Dilma Rousseff é xingada

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(El País, 09/03/2015) Durante o pronunciamento em rede nacional de Dilma Rousseff neste domingo, Dia Internacional da Mulher, centenas de brasileiros, em 12 capitais do país, foram até as janelas e sacadas dos prédios e bateram panelas para se manifestar contra a presidenta. Piscaram as luzes de casa, buzinaram nos carros e gritaram. Além do barulho da colher no teflon, foi possível ouvir xingamentos, como “vaca”, “puta” e “arrombada” direcionados à presidenta.

“Corrupta” ou “ladra”, também ecoaram das janelas, mas não ficaram em evidência. Na mesma noite, o que incomodou vários homens e mulheres, eleitores de Dilma ou não, foram os xingamentos que ofendem a mulher. O pronunciamento da presidenta, que dentre outras coisas pediu “paciência” e disse que o país está passando por “problemas temporários”, poderia ter irritado uma parcela da população que se opõe ao Governo petista. Mas nas redes sociais, o que dominou o debate foi a indignação com os xingamentos direcionados a ela.

Jacqueline Pitanguy, coordenadora-executiva do CEPIA (Cidadania, Estudo Pesquisa, Informação e Ação), uma ONG voltada para a execução dos direitos humanos das minorias, explica que o ódio na política faz vir à tona esse tipo de comportamento. “O que você está assistindo no Brasil hoje é uma coisa nova na nossa política, que é o ódio”, diz ela. “E nesse clima de ódio, esses preconceitos que às vezes ficam maquiados, afloram”.

Para Jacqueline, apesar dos avanços no que diz respeito aos direitos das mulheres, quando algo assim ocorre, só mostra que ainda há muito o que se fazer em relação ao lugar da mulher na sociedade. “O que ocorreu ontem é, basicamente uma questão cultural que mostra o quanto o Brasil ainda é patriarcal”, diz. “Que mostra o quanto apesar de avanços, ainda temos presente na nossa cultura claramente a desvalorização do feminino seja ela personificada ou não”.

Essa desvalorização da mulher, paradoxalmente, não vem só dos homens. Os xingamentos deste domingo vieram também da boca de muitas mulheres que, certamente, ganham menos que homens em seus trabalhos. De muitas mulheres que são constrangidas diariamente com o assédio nas ruas. De muitas mulheres que têm jornada dupla há anos. De mulheres que deveriam cansadas não apenas da política deste ou daquele governante, mas também de uma realidade que, de tão repetida, já se transformou em normal. E como, com tanta luta para ser travada ainda, é possível se tornar normal xingar uma presidenta de vaca? Ou como pode ser normal uma mulher chamar outra de “puta”, para expressar a oposição à sua política? Ou o que as vacas ou as putas têm a ver com isso?

A questão não é de classe ou mesmo de gênero, segundo Jacqueline. Mas sim cultural. “E quando falamos de cultura, não estamos falando necessariamente de homens ou mulheres”, diz ela. “Mas de uma cultura onde tanto homens quanto mulheres já estão impregnados”.

A classe média brasileira vem se manifestando contra o Governo petista há muito tempo. Na abertura da Copa do Mundo no ano passado em São Paulo, parte do público mandou Dilma tomar no cu por algumas vezes. Isso formou uma onda de indignados com o tratamento à presidenta. Assim como agora, na época, mesmo pessoas que não votaram em Rousseff se manifestaram contra a maneira como ela foi tratada publicamente.

A indignação, como reação ao ocorrido no domingo, não é uma questão de classe social. Tanto faz se a manifestação e os xingamentos ecoaram em bairros nobres ou na periferia. O terraço gourmet ou o puxadinho, neste caso, não faz diferença. Assim como eleitores de Rousseff erram o alvo ao criticar a oposição pelo simples fato do poder aquisitivo de grande parcela dela, xingamentos a uma mulher, eleita democraticamente pela maioria, enfraquecem o debate e têm  envergonhado até mesmo aqueles que fizeram campanha contra ela.

Marina Rossi

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