A ofensiva da extrema direita contra feministas na América Latina

Marcha do Dia Internacional da Mulher – RJ

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

25 de maio, 2026 AzMina Por Ester Pinheiro

Posse do presidente antiaborto José Antonio Kast no Chile deixa ativistas em alerta sobre o risco do país repetir retrocessos já vistos em outros países da região

Desde 2019, governos de extrema direita, em países como o Brasil, El Salvador e Argentina, vêm adotando estratégias semelhantes para atacar os direitos das mulheres e da população LGBTQIAPN+ e enfraquecer políticas de saúde sexual e reprodutiva.

Este ano, mais um líder de extrema direita chegou ao poder na região: José Antonio Kast, no Chile. Filho de um alemão que integrou o Partido Nazista, Kast assumiu um mandato de quatro anos em março. Desde então, movimentos feministas chilenos têm se mobilizado diante de possíveis reformas e políticas de seu governo que podem ameaçar direitos conquistados ao longo de décadas de luta.

O governo Kast, considerado a maior guinada à direita no Chile desde o fim da ditadura militar, em 1990, já começa a dar sinais de sua agenda. Entenda o que pode mudar durante sua presidência.

Mudanças na educação sexual nas escolas

Kast pretende reformular a educação sexual nas escolas. Durante sua primeira campanha presidencial, em 2017, defendeu a remoção de programas escolares e conteúdos curriculares que, segundo ele, “promovem o aborto e as chamadas ideologias de gênero”. No ano passado, voltou ao tema ao prometer “garantir uma educação sem ideologias”.

A proposta contrasta com a do ex-presidente de esquerda Gabriel Boric. Em janeiro de 2026, o governo Boric retomou um projeto de lei para ampliar a educação sexual nas escolas, e enfrentou forte oposição de parlamentares de extrema direita, que o classificaram como “ideologicamente motivado”. O texto foi aprovado por uma comissão de educação do Congresso em março, mas ainda precisa passar por outras etapas legislativas antes de virar lei.

A posição de Kast ecoa discursos já conhecidos no Brasil, como o movimento “Escola Sem Partido”, impulsionado durante o governo de Jair Bolsonaro (2019–2022), que buscou restringir a educação sexual ao associá-la à “sexualização precoce” e à “doutrinação ideológica”.Em El Salvador, o presidente Nayib Bukele, no poder desde 2019, também adotou medidas semelhantes. Em 2022, o Ministério da Educação retirou do currículo do ensino médio materiais sobre educação sexual, prevenção da violência de gênero e orientação sexual.

Governo de extrema direita apostam na violência digital

A violência digital, como assédio online e discursos de ódio, tem sido usada como ferramenta por movimentos e governos de extrema direita. No Chile, Martín de la Sotta, diretor da Chile Necesita ESI, organização que defende a educação sexual, afirma que os ataques nas redes sociais se intensificaram desde a campanha presidencial de Kast no ano passado, com o objetivo de intimidar e silenciar ativistas.

O próprio Martín foi alvo de uma campanha coordenada de assédio digital. “Eles [grupos de extrema direita] pegaram fotos minhas em uma festa e divulgaram online dizendo: ‘esse é o pedófilo que quer abusar dos seus filhos’, e coisas desse tipo”, contou. Emilia Schneider, a primeira parlamentar trans do Chile, reeleita no ano passado, também foi alvo de ataques online. Fotos dela antes da transição passaram a circular nas redes sociais. “O nome dela é Emilia, mas publicaram as imagens chamando-a de ‘Emilio’”, disse Martín.

Ataques estão levando feministas ao exílio

Ameaças e campanhas de intimidação têm levado mulheres jornalistas e vozes feministas a deixar seus países de origem por escreverem sobre gênero, denunciarem violações de direitos ou criticarem políticas de governos de extrema direita.

A jornalista argentina Luciana Peker afirma que o assédio online se intensificou após a publicação de uma reportagem sobre o aumento dos casos de feminicídio em 2022, resultando em ameaças de morte. Em dezembro de 2023, dez dias após o presidente de extrema direita Javier Milei assumir o cargo na Argentina, ela deixou o país. “A violência veio de setores ligados àqueles que entraram no governo [de Milei], e, portanto, não havia condições de segurança para falar, escrever, viver ou trabalhar”, disse Luciana.

No Brasil, após a eleição de Bolsonaro em 2018, um padrão semelhante de intimidação levou a especialista em direitos reprodutivos Debora Diniz a deixar o país. Ela afirma ter recebido repetidamente assédio online e ameaças de morte após seu depoimento ao Supremo Tribunal Federal (STF) em defesa da descriminalização do aborto.

Debora explica que a questão de gênero está no centro da estratégia da extrema direita. “Controlar as mulheres — quando, como e com quem elas têm filhos — significa controlar a reprodução da vida social e, em última instância, a reprodução do poder”, afirmou.Dinâmicas semelhantes de intimidação também foram documentadas em El Salvador sob o governo de Bukele. De acordo com a Cristosal, uma organização local de direitos humanos, dezenas de ativistas e jornalistas mulheres foram forçadas a deixar o país devido ao ambiente de repressão.

Barreiras de acesso ao aborto

O presidente do Chile defendeu o retorno à proibição total do aborto, mesmo em casos de estupro. Kast diz que “defende a vida desde a concepção até a morte natural”, uma visão compartilhada pelos membros da Igreja Católica no país e por seus apoiadores evangélicos.

Após a reforma legislativa de 2017, o aborto passou a ser permitido no Chile apenas em três casos: risco à vida da mulher, estupro ou inviabilidade fetal (condições similares às adotadas no Brasil). Cerca de 80% da população chilena é favorável ao aborto ao menos em alguma circunstância.

Um projeto de lei foi proposto durante o governo Boric (2022-2026) para permitir que as mulheres façam um aborto até 14 semanas. A lei está avançando lentamente no Congresso, mas enfrenta grandes obstáculos em comissões lideradas por apoiadores de Kast. “É improvável que seja aprovada”, diz Anamaría Arriagada, presidente do Colégio Médico do Chile, a associação médica nacional.

Objeção de consciência ganha força no governo atual

Ativistas alertam que pode ficar mais difícil para as mulheres no Chile terem acesso ao aborto. Mesmo antes de Kast chegar ao poder, em casos de aborto envolvendo estupro, quase metade dos profissionais de obstetrícia que trabalham em hospitais públicos se declararam objetores de consciência.

“Sob um governo autoritário e contrário aos direitos humanos, é muito possível que os profissionais de saúde que se opõem ao aborto sintam mais espaço para recusar atendimento”, disse Ingrid Narbona, advogada da Rede de Profissionais pelo Direito de Decidir do Chile. Ela acrescentou: “Quando os direitos são restringidos, as mulheres não deixam de precisar de aborto, elas recorrem a opções inseguras ou ilegais”.

Em El Salvador, Bukele adota uma retórica semelhante à de Kast sobre a “defesa da vida desde a concepção”, em um país onde o aborto é totalmente proibido. Embora no passado tenha defendido o aborto em circunstâncias limitadas, Bukele hoje tem uma posição firmemente antiaborto, chegando a descrevê-lo como um “grande genocídio”.

Anos de mobilização de grupos feministas e de defesa dos direitos das mulheres ajudaram a garantir a libertação de 81 mulheres presas sob a rígida legislação antiaborto do país. No entanto, em um sinal do ambiente cada vez mais repressivo, o Grupo Cidadão pela Descriminalização do Aborto em El Salvador anunciou sua dissolução legal em fevereiro.

Disseminação do fundamentalismo cristão

A disseminação gradual, e muitas vezes silenciosa, da influência antigênero e religiosa para além dos corredores do poder, infiltrando-se em outras instituições, é uma característica central da estratégia da extrema-direita na América Latina. É o que aponta Giselle Carino, diretora da Fòs Feminista, uma aliança global de defesa dos direitos sexuais e reprodutivos.

“Isso se estende aos conselhos médicos nacionais e às comissões de bioética, onde a governança técnica pode ser reformulada de acordo com agendas conservadoras”, afirma.

Em janeiro, a comissão nacional de bioética da Argentina foi formalmente reestruturada sob o Ministério da Saúde. Segundo Giselle, a mudança reflete um padrão mais amplo no qual “especialistas independentes em ética foram marginalizados e substituídos por atores mais próximos de redes religiosas”, levantando preocupações sobre como o acesso ao aborto pode ser interpretado na prática.

Giselle também traça paralelos entre essa estratégia da extrema direita latino-americana e o movimento MAGA, liderado por Donald Trump nos Estados Unidos, apontando para um alinhamento regional mais amplo em torno de políticas nacionalistas e antigênero.

Igrejas evangélicas e pastores mobilizaram eleitores no Brasil

No Brasil, Bolsonaro dependeu fortemente das igrejas evangélicas e pastores para mobilizar eleitores, usando retórica cristã para se opor ao aborto e aos direitos LGBTQIAPN+. Parlamentares evangélicos de partidos de extrema direita continuam a fazer lobby contra os direitos reprodutivos das mulheres.

Em El Salvador, Bukele frequentemente recorre à linguagem cristã para justificar suas políticas, chegando a afirmar que Deus havia falado com ele. Em uma publicação nas redes sociais, manifestou oposição ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, além de destacar o “apoio de Deus” na construção do que descreve como um “país mais justo”.

Kast, integrante do movimento Schoenstatt, uma rede católica ultraconservadora, segue uma linha semelhante. Ele baseia sua atuação política em valores católicos conservadores e declarou em 2017: “Eu acredito em Deus, acredito na pátria, acredito na família.” Desde que assumiu a presidência, aumentou de um para até quatro por semana o número de cultos religiosos realizados no palácio presidencial chileno, La Moneda.

O presidente chileno já deixou clara a sua posição em relação aos direitos LGBTQIAPN+. Durante sua segunda semana no cargo, em abril, ele não assinou a declaração regional sobre os direitos LGBTQIAPN+ na Organização dos Estados Americanos.

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