Agressão e impunidade: o ciclo da violência doméstica pela ótica masculina

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De cada dez mulheres vítimas de feminicídio no Brasil, nove são mortas por parceiros ou ex, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgados no último dia 10. E, segundo Sérgio Barbosa, pesquisador e professor universitário que estuda comportamentos de agressores há 21 anos e prepara uma pesquisa com 600 deles em parceria com o Instituto Maria da Penha, esses assassinatos são precedidos por ciclos de violência doméstica que se repetem.

(Universa, 18/09/2019 – acesse no site de origem)

Universa já abordou o ciclo de violência sob a perspectiva da mulher que sofre a agressão –dividido em aumento de tensão, ataque violento e lua de mel. O mesmo ciclo de violência apresenta diferentes estágios quando analisado com foco no agressor.

Esses esquemas são usados por psicólogos, promotores e defensores públicos que atendem vítimas.

Entenda, abaixo, quais são esses estágios quando trata-se do comportamento masculino:

Lua de mel e tensão

Fica mais fácil entender os dois primeiros estágios do ciclo da violência doméstica se imaginarmos um casal que acabou de se conhecer. Como acontece com a maioria dos namorados, os primeiros momentos dos dois juntos são de lua de mel.

“Ele manda flores, faz jantares, faz a mulher se sentir a mais especial do mundo”, explica Barbosa. Isso pode acontecer em qualquer relacionamento. A diferença é que, em uma relação abusiva, o agressor está agindo para conquistar a vítima e aprisioná-la na relação. Isso, infelizmente, só fica nítido no segundo estágio, de tensão.

Momentos tensos são comuns em qualquer tipo de relacionamento. A diferença é que, no ciclo de violência, o agressor costuma fazer críticas sutis para depois explodir, geralmente, por querer controlar a mulher. Critica a roupa, a maquiagem, as companhias da parceira. Até o momento em que a agride fisicamente.

Agressão e negação: “A culpa foi dela, só me defendi”

“Tudo começa a ser motivo para agredi-la: o choro da criança, uma roupa que não está bem passada, a torneira pingando, o chuveiro dando choque, o carro que está velho”, diz Barbosa.

O ataque à vítima é seguido de uma diferença crucial de comportamento entre homem e mulher. “Enquanto ela perdoa, coloca panos quentes e tenta agir de forma diferente para apaziguar a situação, ele segue outro caminho: transfere a culpa para a companheira.”

“Nesses 20 anos lidando diretamente com agressores, o que mais escuto são coisas como: ‘Ela é louca, não foi bem assim como ela diz’, ‘Ela me agrediu primeiro, só me defendi’, ‘Ela é histérica, exagerou’. É o homem negando a sua culpa. Isso é repetido tantas vezes que a mulher se acha, de fato, no lugar de culpada.”

Impunidade: passe livre para novas agressões

O pesquisador destaca que a impunidade é um dos estágios cruciais dentro do ciclo de violência já que, após uma agressão, o mais comum é que o culpado saia imune e se sinta confortável para praticar novos crimes.

Em um levantamento de casos de violência doméstica ocorridos no estado de São Paulo no primeiro semestre de 2019, Barbosa concluiu que apenas 5% dos cerca de 3.000 processos acabaram com prisão do agressor. Isso não significa necessariamente que os outros 95% também deveriam estar presos, mas, segundo ele, teriam de, ao menos, estar participando de grupos reflexivos, espaços de encontro entre agressores onde eles falam sobre seus casos e são orientados a refletir sobre os ataques que praticaram, na tentativa de evitar a reincidência.

Ele ainda aponta que a impunidade pode vir também do fato de grande parte das mulheres não denunciar seus agressores. Não se pode, porém, culpar a vítima por não registrar queixa. “Na maioria dos casos elas querem punição, mas não a prisão do companheiro”, diz, numa possível explicação sobre por que muitas não procuram uma delegacia depois de serem agredidas. Além disso, o medo das ameaças do parceiro e a dependência financeira dele também são fatores que impedem novas denúncias.

Promessas e o retorno à lua de mel

Depois da agressão, vêm as promessas de mudança. “Ele diz que vai ser um homem diferente, começa a agir com carinho, ser mais educado, leva flores, faz jantar, promete mil coisas. E ela pensa: ‘Meu marido mudou’. É um comportamento de arrependimento, mas com prazo de validade”, diz o pesquisador.

Logo depois, vem a fase da lua de mel. O ciclo se fecha, mas, infelizmente, começa de novo, e o casal retorna ao estágio de tensão. “Aí já estamos falando de uma escalada de violência”, diz Barbosa. O que significa que, na segunda vez que se chega a esse estágio, o comportamento pode ser ainda pior do que da primeira vez, justamente por ele saber que não haverá punição.

“Quando olhamos para o ciclo como um todo, percebemos que esse homem que cometeu violência ontem precisa sofrer uma intervenção hoje, para que não apenas deixe de agredir mulheres como também para evitar que ele tente matá-las no futuro”, diz Barbosa.

Como quebrar o ciclo?

Além de insistir na importância dos grupos reflexivos de agressores, Barbosa explica que é preciso ter uma boa estrutura para orientar as vítimas que, em sua maioria, não vão à delegacia. “Uma alternativa seria criar mais centros de referência da mulher”, opina.

Nesses centros, elas são recebidas por psicólogas e assistentes sociais e recebem ajuda para sair do ciclo, desde orientações práticas para procurar emprego e ter dinheiro para sair de casa a acompanhamento psicológico. “Não adianta o governo só fazer campanha dizendo para denunciar.”

Caso não tenha acesso a um desses centros, a sugestão é que a mulher ligue para o Disque 180, serviço que envia o caso ao Ministério Público e dá orientações jurídicas e de saúde.

Por Camila Brandalise

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